O “tsunami da adolescência” e a sintonia entre o casal

Venho de uma família de 6 irmãos, da qual sou o mais velho. Nas famílias numerosas (cada vez mais raras) os primogênitos costumam auxiliar na criação dos mais novos. Adulto e casado, após o nascimento dos filhos, trocar fraldas, preparar mamadeiras, cuidar das crianças enquanto minha mulher exercia sua atividade profissional, foram tarefas que já tinha vivenciado e não me causaram nenhum estresse.

Nossos filhos tem 2 anos de diferença de idade. Moramos longe do suporte familiar dos avós e tios, além de trabalharmos – os dois – fora. A fase infantil nos exigiu muito esforço. Dentro do normal desta fase ocorreram as famigeradas viroses, crises de asma, alergias, além de uma ou outra ida ao pronto-socorro para suturas e raios-x, devido às peripécias infantis.  Esta parceria na divisão das tarefas dentro da rotina da criação aproximou-nos muito como casal. Exigiu sacrifício? É o ônus da paternidade. Quem não quer passar por isso, que não tenha filhos. Por mais estranho e masoquista que pareça, afirmo sem sombra de dúvida, que este tempo deixou saudades.

Antes do término desta primeira etapa da vida familiar, começamos a nos preparar para a adolescência que viria em seguida. Lemos muito sobre essa fase e acreditávamos que conosco não haveria tantos atropelos. Com certeza, nada seria semelhante aos relatos de casais próximos que já haviam passado por esta experiência e desenvolvido alguns cabelos brancos.

Venho a público confessar que me enganei. Não imaginava que o ‘tsunami emocional’ da adolescência fosse tão avassalador.  Uma transição abrupta, como virar a página de um livro. Esta onda chega repentinamente levando tudo pela frente. Eu, antes considerado super-herói, passei a ser o vilão. Tudo mudou. Nas manhãs, onde ouvíamos bom dia, com beijos e abraços, limitam-se agora a grunhidos e resmungos mal-humorados. O mundo que antes, para nossos filhos, era colorido e admirado; agora é preto e branco, e enfadonho. Levantar-se, arrumar-se, chegar no horário, fazer tarefas. Tudo é difícil. São frequentes os embates devido ao uso excessivo do computador, tablets, celulares e aqueles malditos fones de ouvido.  A impressão é que, aquelas crianças afáveis e carinhosas foram “abduzidas”, tiveram seus cérebros alterados por alguma experiência científica alienígena. Fica a vontade de botar a cabeça para fora da janela e gritar para os homenzinhos do espaço: quero meus filhos de volta! Como provavelmente não vamos obter resposta, haja paciência!!!

É difícil e doloroso para os pais concluir que a influência do grupo é muito mais importante que as observações e conselhos familiares. É difícil aceitar que a referência de liderança são agora os anti-heróis. Para nós pais, a referência eram os melhores alunos, os melhores no esporte, os melhores oradores, os preferidos pelos professores, os mais educados, os bons exemplos na sua comunidade.  Para os adolescentes, o popular é o que se veste com a cueca aparecendo fora das calças, repetente de ano, que desrespeita os professores, fuma e ingere álcool (no mínimo). O poder e o fascínio destas referências negativas que o grupo exerce sobre nossos filhos é algo impressionante e assustador.

Esta fase nos proporciona a sensação de fracasso e impotência. Parece que todo o esforço, até então dispensado na educação dos filhos, foi jogado “ralo abaixo”.  Os que atravessam este maremoto, com toda certeza já tiveram o impulso de jogar tudo para o alto e sair correndo porta afora.  Muitos o fazem, e a família desmorona.

É nesta hora, que a força para enfrentar a crise encontra-se na companheira(o) que está ao nosso lado. O apoio mútuo, a cumplicidade e a sintonia do casal são as armas que os pais tem para vencer esta “queda de braço”, e manter nossos filhos no fio condutor para tornarem-se adultos felizes e equilibrados. Não é fácil.

Se os filhos estão arredios às manifestações de carinho e amor, o casal mais do que nunca deve demonstrar isto entre si. Assim, deixamos claro para os filhos que os valores básicos aprendidos desde a tenra infância são aplicados diariamente na vida do casal.

Cito como exemplo uma passagem que ilustra bem o fato. Estávamos sentados à mesa em família, quando um de nossos filhos afirmou categoricamente com a soberba, onipotência e sabedoria infinita típica da adolescência, que ele jamais iria casar-se e ter filhos. Perguntamos o porquê de tal afirmação e a resposta foi imediata: “Por que casamento só dá briga e termina em separação”.  Questionado se algum dia ele havia presenciado alguma briga ou discussão entre nós, ou algum indício de que iríamos nos separar, respondeu: “Por isto mesmo. Quando conto para os meus amigos que meus pais não brigam, sou chamado de mentiroso, pois é impossível um pai e uma mãe que não briguem”. Acredito que, apesar de neste momento a opinião do grupo ser a mais importante, o exemplo familiar vivenciado está lá impregnado em algum lugar daquele estranho ser adolescente. É como uma semente adormecida. Na hora certa vai germinar.

Segundo as próprias experiências de nossa adolescência, apesar de muita resistência em admitir, buscamos aquilo que tivemos como referência dentro do convívio familiar. É preciso acreditar, segundo a música eternizada na voz de Elis Regina “…ainda somos os mesmos e vivemos, ainda somos os mesmos e vivemos, como nossos pais…”

Se esta fórmula vai dar certo, só o tempo vai revelar. Quando tornar-me avô, escrevo um novo texto contando se deu certo. Por enquanto, eu e minha mulher servimos de salva-vidas um para outro, nos apoiando para não nos afogarmos, e sobrevivermos ao tsunami adolescente que também vivemos como nossos pais.

Luciano Kowalski CoelhoMédico, casado há 21 anos, pais de dois filhos adolescentes. E-mail: destricoelho@terra.com.br

Artigo publicado na Revista Escola de Pais do Brasil – Seccional da Grande Florianópolis nº 6, junho de 2015, p. 17.

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