Qual é o valor da vida humana? Imagino que esta pergunta possa causar algum incômodo. “Como assim? A vida humana possui valor inestimável!”. Esse talvez tenha sido seu pensamento.
Se, para a maioria de nós, a vida humana é tão importante, por que tantas vezes permitimos que as pessoas sejam tratadas como se suas vidas tivessem menos valor? A desigualdade social, as violências todas de cada dia, a fome, a dificuldade de acesso aos direitos básicos como saúde, educação, lazer, tantas formas de desvalorização da vida vemos todos os dias. Olhando para as notícias, fico com a sensação de que algumas vidas parecem ter mais valor que as outras. E essa é a maior violência que pode haver.
Todos nascemos com o mesmo valor. Todos merecemos ter a vida mais plena que pudermos ter. Todos nascemos com direito à dignidade. Segundo a psicóloga americana Donna Hicks, no livro “Dignidade e seu papel na resolução de conflitos”, a dignidade é um componente emocional de nosso cérebro. Nascemos com esse recurso que nos alerta com forte emoção caso sintamos que o valor de nossa vida esteja ameaçado. Para o ser humano, uma ameaça à sua dignidade significa uma ameaça à sua existência.
Para a autora, a dignidade é um estado interior de paz que se atinge através do reconhecimento e da aceitação do valor e da vulnerabilidade de todos os seres vivos. A dignidade nasce conosco, faz parte de nosso sistema de defesa da vida. O respeito é a atitude que sinaliza que nossa dignidade está sendo preservada e, portanto, a falta de respeito indica para nosso sistema de defesa que estamos em perigo.
Existe uma inteligência em nosso corpo que percebe se estamos em perigo e o desrespeito fornece essa percepção de baixo valor da vida para o outro, o que vai ativar mecanismos emocionais de luta ou fuga, visando a proteção da vida. Acho importante essas informações que a neurociência nos oferece, pois fica evidente que nossas atitudes revelam nosso cuidado e nosso descuido com a vida do outro (e da nossa também).
Educar para o respeito é educar para a valorização da vida humana. Se eu respeito a vida humana, se eu considero que a vida do outro tem o mesmo valor que a minha, vou cuidar para tratar essa pessoa da forma como eu gostaria de ser tratada. É importante lembrar que respeitar a pessoa não significa concordar com suas atitudes. Ao educar para o respeito, é preciso abrir espaço para o desenvolvimento de atitudes que traduzam a importância da vida humana, guiando um caminho de aprendizados e comportamentos que sejam coerentes com esse valor.
Pensando assim, a frase “tudo começa pelo respeito” faz muito sentido. Se há respeito, há cuidado, há busca pela igualdade social, há melhor distribuição de riquezas, tudo porque a vida do outro é tão valorosa quanto a minha. Se caminhássemos rumo à educação para o respeito, teríamos a possibilidade de construir uma nova sociedade. As violências se reduziriam muito, uma vez que todos reconheceríamos que cada vida tem seu valor.
Com a educação para o respeito não viveríamos em um país onde 51% dos casos de violência sexual são praticados contra crianças de até 5 anos, dado do Panorama da Violência Letal e Sexual contra Crianças e Adolescentes no Brasil, lançado pelo UNICEF e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Isso para trazer um exemplo, mas sabemos de tantos outros dados que ferem diariamente a dignidade de nossas crianças e nossos adolescentes.
Todas as vidas são valorosas. Aquelas que conhecemos e aquelas que nem sequer sabemos da existência. Todas. E não podemos mais fechar nossos olhos para essa triste e cruel realidade. Não temos respeitado a vida como ela precisa ser respeitada. Escrevo em primeira pessoa do plural pois todos somos responsáveis por essa realidade. E se todos somos responsáveis, é tempo de mudar, de construir esse mundo onde haja mais respeito, onde as pessoas sejam tratadas de forma digna, como precisa ser.
Talvez fiquemos imaginando que o “fazer algo” sobre isso seja algo grande, de impacto social coletivo, porém eu encorajo cada um de nós para fazermos as mudanças em nossos contextos próximos mesmo, sendo exemplos vivos do respeito que desejamos ver no mundo.
Nossas crianças e nossos adolescentes não aprendem por meio dos nossos discursos, elas aprendem observando nossa forma de agir no mundo. Se educo para o respeito com minha própria vida, valorizando a vida ao meu redor, com atitudes de cuidado e proteção de outros seres humanos, farei parte dessa mudança do mundo.
O que você pode fazer hoje para valorizar as vidas humanas que cruzarem seu caminho? Te convido a fazer essa pergunta para si mesmo todos os dias ao sair de casa e desejo que ela guie suas tomadas de decisão ao se relacionar com as pessoas no seu dia a dia.
Será muito bom para sua própria vida, para as pessoas que conviverem com você e, principalmente, para aquelas pessoas em formação que estão próximas, que estarão aprendendo com o seu exemplo a dignidade da vida humana.
Juliana Polloni – Mediadora de conflitos e de convivência, facilitadora de diálogos em famílias e equipes, mentora de comunicação e relacionamentos. E-mail: julianapolloni@gmail.com
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