Quem se dedica a estudar pediatria e principalmente se interessa pelo desenvolvimento psicossocial, pela formação da personalidade e o papel da nutrição infantil e dos cuidadores, principalmente dos pais, especialmente claro, da mãe ou do cuidador principal, seja quem for, e se encarrega não só da higiene, do sono, do afeto, do carinho da atenção, e fica presente no dia a dia das crianças.
Hoje sabemos muito bem que há um tempo, que está sendo muito estudado, que consiste na gestação e nos primeiros dois anos de vida. Esse tempo, é o que denominamos dos primeiros mil dias de vida, fundamental em tudo isso, lembrando que além desse tempo, é preciso considerar que a personalidade começa realmente a se estruturar por volta ou ao redor dos 6 ou 7 anos de idade, antes do desenvolvimento hormonal completo, que termina levando à adolescência e depois à vida adulta.
Alguns autores e eu sou um deles, nos meus estudos e publicações sobre o papel do Aleitamento materno, acreditam existirem importantes evidências de que a amamentação protege as crianças contra as infecções gastrointestinais e respiratórias, o que é importante para o desenvolvimento infantil, uma vez que crianças que adoecem com frequência tendem a não apresentar melhor desenvolvimento físico, intelectual e psicossocial, como afirma Rafael Perez-Escamilla, PHD.
Entretanto precisamos deixar claro o que é isso e o que significa falar de “Desenvolvimento Psicossocial na infância”, e temos que reconhecer como saber se essa fase está progredindo. Na literatura e no pensamento de muitos pediatras, podemos avaliar essa situação levando em consideração os seguintes eventos:
1 – Melhor desempenho na escola.
2 – Melhor desenvolvimento com boa autoestima e menor nível de comportamentos agressivos.
3 – Tornarem-se membros produtores da Sociedade.
Temos também de avaliar e conhecer qual é a proporção desses efeitos relacionados à estimulação cerebral em comparação com os efeitos do aleitamento na prevenção da morbidade.
Por esses motivos, é preciso aprimorar nossa compreensão e verificar se o aleitamento materno resulta em melhor desenvolvimento motor e quais são as implicações para o funcionamento do corpo humano em fases posteriores da vida.
Para realizar e escrever este artigo, além de pesquisar sobre o assunto, fiz uma revisão do que pensam vários autores que estão citados na bibliografia ao final deste trabalho. Sempre, como qualquer pesquisador, é importante verificar se algumas dessas conclusões aqui expostas, podem ser comprovadas sem qualquer dúvida, o que pode ser feito no futuro e na continuidade de pesquisas sobre o assunto. Em ciência e principalmente na pesquisa e nas afirmações científicas, sabemos que a verdade é dinâmica e sempre novos conhecimentos podem mudar alguns conceitos, mas seguramente o que estou aqui escrevendo para ajudar familiares e crianças, consiste em informações de pessoas que durante muito tempo tem estudado o assunto.
Assim, comecemos pela pergunta… “Qual o papel real da nutrição nos primeiros anos de vida, e em particular, do Aleitamento materno?” Pouco se sabe sobre essa possível influência no desenvolvimento psicossocial das crianças, por meio de seus efeitos diretos no desenvolvimento cerebral e sua possível associação com a prevenção dos primeiros sintomas de obesidade, importante fator de risco para a criança, e decisivo para doenças crônicas debilitadoras cardiovasculares e Diabetes tipo 2. (Perez-Escamilla). Mas como o leite humano pode influenciar tal processo? Isso acontece porque o L H (leite humano), contém substâncias bioativas (ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa (AGPI CL), essenciais para o desenvolvimento cerebral. Dois derivados desses Ácidos (Ácido Araquidônico (AA) e o DHA (Ácido Docosahexaenoico), desempenham papel essencial na manutenção, crescimento e desenvolvimento do cérebro, como com a melhor acuidade visual, nos bebês amamentados ao seio.
As propriedades biológicas e as diferenças de interação mãe-bebê, durante o processo de amamentação, podem levar a melhores resultados relacionados ao desenvolvimento motor e intelectual e, ainda, o L H parece ter efeito protetor contra o início da obesidade infantil, o que muitos autores, pensam ser muito importante, pois a obesidade infantil que frequentemente continua na adolescência e na idade adulta, é uma condição que traz enormes consequências para a criança, não só físicas, mas também emocionais afetando também a autoestima.
Em uma meta-análise, Anderson et al., analisaram o impacto do aleitamento sobre o desenvolvimento cognitivo, após ajustar as variáveis intervenientes (socio econômicas, inclusive o nível de escolaridade da mãe, e foram encontradas diferenças cognitivas levando-se em consideração o QI nas amamentadas e não amamentadas, o que nos permite pensar com muita importância no papel do aleitamento materno e do papel da mãe e ou dos cuidadores no desenvolvimento dessa capacidade cognitiva, ou seja, a sempre discutida afirmação de que a amamentação melhora a inteligência precisa sempre ser lembrada e novos trabalhos tem que ser feitos nesse sentido. Eu pessoalmente, com meus mais de 50 anos de prática pediátrica, atendendo bebês desde o nascimento e muitas vezes os seguindo até a adolescência sou um grande defensor da verdade sobre esse benefício intelectual que produz a amamentação. É muito interessante também, que se constatou nessa meta análise, que bebês prematuros conseguem maiores benefícios intelectuais do aleitamento materno, do que bebês com peso normal ao nascer * 5,18 pontos versus 2,66 pontos. Outros trabalhos como os de Lucas et al. constataram que a suplementação de leite em pó com AA e HA foi claramente benéfica para o desenvolvimento visual e mental de bebês prematuros, mas não de bebês nascidos a termo. Essa descoberta, muito importante, mostra que o aumento de AA e DHA do feto ocorre até o último trimestre de gestação e por isso os prematuros se beneficiam dessa agregação, porque não receberam intraútero.
Valeria a pena analisar também o que os pesquisadores dizem sobre aleitamento, atuação dos pais e principalmente da cuidadora, e desenvolvimento motor e ainda obesidade na infância e na vida adulta.
Em relação ao desenvolvimento motor, crianças mais amamentadas e bem cuidadas, com carinho, atenção, presença da mãe e ou dos cuidadores amorosos, se desenvolvem mais rapidamente na área motora. Na Dinamarca, Vestergaard M et al. constataram uma relação positiva entre tempo de amamentação e capacidade de engatinhar e de fazer preensão em pinça e em Honduras, outros autores também demonstraram que quanto maior o tempo e melhor a amamentação, as crianças começavam a andar mais cedo … e finalmente os trabalhos muito interessantes demonstram uma relação positiva entre obesidade e falta de amamentação e entrada precoce com mamadeiras e substitutos, o que de há muito, nós pediatras já suspeitávamos e tentávamos entender.
É muito importante que novas pesquisas demonstrem esse fato de que quanto maior a amamentação, menor obesidade infantil. Sabe-se que pessoas que foram amamentadas exclusivamente ao seio tem um perfil de Leptina, fundamental na prevenção da obesidade, que pode promover a regulação adequada do apetite e menor deposição de gorduras (Perez-Escamilla) e também que bebês hondurenhos adaptavam seu volume de ingestão de leite na proporção inversa à densidade energética do leite de suas mães, um mecanismo muito interessante, ou seja, se o leite da mãe era muito concentrado ou muito calórico, eles mamavam menos, se protegendo do excesso e diminuindo a chance de obesidade, e com isso demonstrando que como se acreditava: o chamado antes de leite posterior, que é o que está sendo secretado ao final da amamentação, sinaliza para o bebê que é hora de parar de sugar e diminuir a chance de obesidade.
Finalmente, para terminar este artigo, deixo ao final uma lista de referências bibliográficas que podem ser consultadas pelos interessados nesses temas que abordamos e não seria certo terminar sem salientar e falar sobre o papel do relacionamento mãe x bebê que também deve ser levado em conta em todos esses eventos aqui mostrados por tantos autores e por mim mesmo que pesquiso esse assunto há tanto tempo.
Afeto, carinho, atenção e presença familiar, principalmente da mãe ou de uma cuidadora ou cuidador afetuoso e atento, são fundamentais para que todos esses benefícios do leite humano possam atuar, ou seja, tudo que acontece nesse período de vida, depende sim de um tipo de alimentação, mas sem dúvida nenhuma também da participação dos pais e mães no cuidado. Eu sempre termino minhas conferências e meus artigos, falando de uma expressão que respeito e que sempre ouço, de que a gestação, o cuidado do bebê continua após o parto e é fundamental, principalmente durante esse período da formação cerebral e da constituição da personalidade.
REFERÊNCIAS
1 – A influência do aleitamento materno sobre o desenvolvimento psicossocial. Rafael Perez Escamilla.
2 – Effects of exclusive breastfeeding for four versus six months on maternal nutritional status and infant motor development results of two randomized trials in Honduras, Journal of Nutrition.
3 – Vestergaard N. et al. Duration of breastfeeding and development milestones during the latter half of infancy. Acta Pediátrica.
4 – Dewey KG. Is breastfeeding protective against child obesity?
5 – Anderson JW et al. Breastfeeding and cognitive development. A meta-analysis. American Journal of clinical Nutrition.
6 – Lucash et AL. Randomized trial and cognitive development. American journal of Clinical nutrition.
Outros artigos podem ser encontrados na literatura médica especializada, principalmente na área da nutrição infantil sobre o assunto. As evidências da importância de nutrição adequada com leite humano e cuidados afetivos, presença dos cuidadores e carinho e atenção são fundamentais. Termino citando três livros dos 11 que já publiquei sobre o assunto e que tratam cuidadosamente do tema que defendemos nesta publicação., em que destaco entre os 11 que já publiquei dentro deste assunto. 1o. “Como e porque amamentar”; 2o. Cuidado, afeto e limites. uma combinação possível (em parceria com o psicólogo Ivan Capelatto; 3o. Criar: a educação dos filhos em tempos modernos. Este publicado em espanhol no Chile e depois também publicado em português no Brasil, com a parceria da psicóloga Cibele Zuchelo.
Prof. Dr. José Martins filho – Médico pediatra, Prof. titular, emérito de pediatria da Unicamp; Especialista em neonatologia e clínica geral de crianças, jovens e adultos. Além de professor da Unicamp, tem pós graduação em Pediatria social e comunitária no Centro Internacional da Infância em Paris e foi estagiário, pela Organização mundial da Saúde, no Hospital Infantil La FE, em Valência, Espanha. Presidente da Academia Brasileira de Pediatria (2013 a 2017) e Reitor da Unicamp de 1994 a 1998. Treinamento e aprimoramento em Psicanálise e Psicologia breve de base analítica pelo CEFAS.
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