Aquele Pôr do Sol

Tomo desde criança conta de uma fileira de formigas” Clarice Lispector

Escrever é sempre um desvendar-se sem buscar decifrar cada palavra, é o que faço aqui.  e quem sabe deixar uma memória. Se eu continuar tendo sorte, continuarei amadurecendo e envelhecendo, enquanto isso… continuo no meu ofício de escutar pessoas. Diante de tanta pressa, metas, notas, agendas lotadas, lá se vão nossas crianças, correndo de um lado para o outro, muitas vezes sem bússola e sem uma pequena carta de navegação, estamos vivendo entre os excessos e privações.

Ao final do dia, sentada em meu consultório, olho aquele pôr do sol, pego uma xícara de chá e olha, me entrego naquela beleza distante, olho demoradamente e atentamente para o dia que termina,  ontem, vivenciei o pôr do sol lindo, alaranjado avermelhado, me demorei nele, escolhi olhar, pois não me permito zapear de lá para cá, gosto de olhar e sentir o que escutei, as palavras ditas, o silêncio compartilhado, enfim verso, (con)verso comigo mesma, relembro cada ponto, cada palavra dita, cada brincadeira partilhada, ausências, cenas, adultos e crianças habitando o medo de crescer e perceber que nem tudo é  mágico como o pôr do sol, esse é o final do dia que me lembra as dores diárias apesar do pôr do sol.

Meus olhos continuam lá, naquele pôr do sol, que me lembra o tempo presente existe, o tempo acelerado para, por um instante, é possível parar, ao olhar recupero na minha memória uma das cenas mais lindas de um filme assistido a muito tempo, uma cena em especial, me marcou, onde um professor de música, diante da paralisação de uma aluna que não conseguia tocar seu clarinete, aquele professor, parou o tempo acelerado de uma escola e disse: Toque. A aluna responde: – Não consigo, vou desistir, não sou boa em nada, nunca fui. Ele insiste: quando você olha no espelho, o que você vê e gosta? Ela responde: gosto do meu cabelo. O professor pergunta, por quê? Emocionada, ela responde: Porque meu pai sempre dizia que meus cabelos lembram o pôr do sol, então ele diz: Feche os olhos e toque o pôr do sol. E embalada naquela memória afetiva, ela fecha os olhos e toca sua melhor melodia, sustentada no laço de amor com seu pai. Laço de Amor, é assim que vejo o pôr do sol, um laço com o dia que se foi e uma aposta com o dia que chegará, uma memória, uma possibilidade, um tempo presente, de ESTAR ali, que me desacelera, lembrando o que não pode faltar: o OLHAR atento e sua disponibilidade de estar ali, quantas belezas podemos ver e perceber com a disponibilidade do olhar-presença? Talvez nesta pergunta more uma pista dos novos tempos.

Neste final de dia, diante desse pôr do sol, anoto algumas palavras escutadas: eu sou; eu tenho; trabalhar; produzir; ser alguém; nada tem sentido; vazio; sem tempo; não me vejo, não posso brincar… Do toque do Clarinete da aluna ao dia de hoje, pulei para a história da Alice no país das maravilhas, onde o conhecido e “hiperativo” coelho, sempre em uma correria constante, sempre atrasado para algo importante, que nem ele não sabia o que era. Foi nessa lembrança que imaginei meus pacientes vivendo e dando queixa. Talvez,  nem eles saibam dizer, atrás do que correm tanto.

Voltando ao pôr do sol, afinal, foi ele que me inspirou para esta breve reflexão, ele me tocou em uma única certeza, é possível olhar sem perder o brilho do olhar e a sensibilidade da escuta. Amanhã, continuarei o meu ofício, escutar cada um que traz seu sofrimento vivido no espetáculo da vida, do seu enigma de ser ou não ser, com seus acordes instáveis dessa sinfonia de identificações e desidentificações que a vida nos solicita diariamente em forma de angústia.

Ah esse mundo, vasto mundo do poeta: Carlos Drummond de Andrade

“Mundo, mundo, vasto mundo

Se eu me chamasse Raimundo

Seria uma rima, não seria uma solução

Mundo, mundo, vasto mundo

Mais vasto é meu coração”…

Esse coração que me permite ver mais um dia se recolhendo e com isso renovar minha aposta nos sujeitos que me chegam, é só isso que posso fazer hoje e continuar apostando no tempo, esse tempo que insiste em correr. “As coisas muito claras me noturnam”. Manoel de Barros

Jane Patricia Haddad – Mestre em Educação pela UTPR, Docência do Ensino Superior pela UNI-BH, Psicanalista com Formação em Teoria Psicanalítica UFMG e Pedagoga pela PUCMG.  Uma pessoa humana que aposta na Humanidade, sou o efeito e feito da linguagem em minhas meu percurso de vida e agente de um futuro possível.

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