“O maior desafio é o vício em telas. Eles ficam hipnotizados e é muito difícil tirar”; “Eles estão perdendo a capacidade de interagir pessoalmente. Só querem ficar no celular, mesmo quando estão juntos”; “A gente também passa muito tempo no celular. Como cobrar deles se a gente mesmo não consegue se desconectar?”. Essas frases foram ditas por pais, mães e responsáveis entrevistados para o Relatório Redes de Proteção Desafios e Práticas como parte do projeto “Redes de Proteção”, uma iniciativa do ITS Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade) e do Redes Cordiais, organização de Educação Midiática sem fins lucrativos, para promover um ambiente digital mais seguro para crianças e adolescentes. O estudo buscou compreender os principais desafios que responsáveis enfrentam para acompanhar e orientar crianças e adolescentes no mundo digital, além de identificar os padrões, conflitos e dificuldades que as famílias encontram ao usar estratégias de mediação parental. A metodologia combinou análises qualitativas e quantitativas com dados coletados em julho de 2025.
Como revelam os depoimentos, não está fácil para pais, cuidadores, educadores e para a sociedade em geral, educar no e para o mundo digital. A internet, as plataformas e as redes sociais que foram criadas para ser ferramentas de apoio aos relacionamentos e à vida offline tornaram-se, na maior parte das vezes em que as acessamos, uma panaceia repleta de riscos que têm afetado os vínculos sociais, emocionais e a segurança física de crianças e adolescentes. Apesar de oferecerem conteúdos que são importantes para a formação desta geração, os perigos da navegação nestes ambientes têm suplantado seus benefícios. A pergunta que fica para os adultos responsáveis é: como protegê-los de conteúdos potencialmente perigosos, mas também prepará-los para lidar com as realidades da vida adulta? Como não privá-los de seus direitos legítimos (assegurados, inclusive, por marcos legais nacionais e internacionais como a Convenção dos Direitos da Criança da Unicef e o artigo 16 do ECA, o Estatuto da Criança e do Adolescente) de acessar e também se beneficiar dos conteúdos digitais? Como tomar decisões seguras e eticamente saudáveis para uma educação digital equilibrada?
O estudo revelou que 60% dos responsáveis entrevistados acham “difícil” ou “muito difícil” fazer o acompanhamento digital dos seus filhos, destacando que sentem uma necessidade de maior capacitação e suporte para as famílias. Os pais revelaram que a estratégia de controle parental mais utilizada é o diálogo. 43% dos responsáveis nunca utilizaram aplicativos ou ferramentas para o acompanhamento de menores na internet, sendo a definição de limites para o uso de celular (71%), incentivo a atividades offline (70%) e conversas sobre uso seguro (64%) as práticas prioritárias quando conversam com os filhos sobre o tema. No entanto, essa estratégia também não tem sido suficiente para resolver os dilemas de como equilibrar o uso da tecnologia com outros aspectos da vida cotidiana, pois a maioria reconhece que a proibição total é quase inviável no cotidiano das crianças e adolescentes.
“No consultório, muitos pais admitem que se sentem menos desconfortáveis em falar com os filhos sobre sexo do que sobre o uso da internet. Isso acontece porque, correta ou incorretamente, eles sentem que conhecem algo sobre sexo, mas se sentem inseguros ao falar sobre a internet porque acreditam que os filhos sabem mais sobre isso do que eles”, afirmou o pediatra americano Michael Ritch em entrevista recente, ao lançar seu livro “O guia do midiatra: como criar crianças saudáveis, inteligentes e respeitosas em um mundo saturado de telas” (Artmed Editora), aqui no Brasil. Segundo ele, o baixo conhecimento das famílias sobre temas fundamentais do universo on-line como a interação social em jogos on-line, por exemplo, faz com que se sintam inseguros para conversar e orientar seus filhos. A pesquisa do ITS/Redes Cordiais demonstrou que a maior parte dos cuidadores desconhece o funcionamento de plataformas como Discord e jogos como Roblox e Free Fire, que oferecem chats e interações constantes, o que amplia riscos digitais como contatos com estranhos e cyberbullying. Para o midiatra (termo que une “mídia” e “pediatra” que ele costuma se autodenominar porque trabalha com as duas interfaces em seu atendimento e linha de pesquisa), pais e educadores devem deixar de ser “policiais” e tornarem-se guias e mentores de seus filhos. Em sua opinião, os aplicativos de mediação parental não garantem a completa segurança on-line, ao passo que a educação midiática focada no desenvolvimento do uso crítico é o meio mais eficiente de trabalhar com eles o verdadeiro propósito do uso da tecnologia em suas vidas, para que ela possa servir como ferramenta para a criação de conexões criativas, participativas e inteligentes.
Quando ouvimos as crianças descobrimos que elas também percebem que é preciso regular o uso das mídias. Elas afirmam que gostariam de uma internet que funcione bem, que tenha menos publicidade e conteúdos inadequados (como os violentos, por exemplo) e também de ter mais tempo para brincar e aprender dentro das telas. O Instituto Alana, organização que foca na proteção das crianças e adolescentes, em parceria com o LabGRIM (Laboratório de Pesquisa da Relação Infância, Juventude e Mídia), da Universidade Federal do Ceará, realizou, com crianças entre 4 e 10 anos, uma escuta sobre o que elas pensam sobre os efeitos do mundo digital em suas vidas. Inovando na construção de uma metodologia de escuta sensível, as instituições coletaram depoimentos como este, de uma menina de 9 anos, moradora do Sudeste brasileiro: “Eu queria tirar as coisas que não fazem bem para as crianças, aquelas coisas que fazem mal, tipo [as que estão] no aplicativo do Kwai, YouTube e também no Instagram. Tem muitas coisas que são feias e tem criança que tem essas coisas e não é saudável”. Em suas falas as crianças também denotaram as dificuldades de seus pais e cuidadores de exercerem uma mediação parental eficaz. Para elas, os adultos agem mais como limitadores do uso das telas do que educadores que apresentam oportunidades no ambiente digital, com proteção e diálogo.
O retrato que as pesquisas descortinam é que a maior dificuldade da mediação parental para a educação digital é que, antes de mais nada, precisamos desenvolver uma compreensão muito mais informada e participativa de como o público infantojuvenil não apenas usa, mas interpreta os materiais com os quais inevitavelmente entra em contato. Precisamos fazer um exercício verdadeiramente interessado e despido de medos, preconceitos e culpas para compreender a relação deles com os meios digitais. E isso requer tempo físico e disponibilidade emocional, algo que não tem se revelado simples e factível dada a realidade da maior parte das famílias. Talvez começar reconhecendo as dificuldades que todos estamos enfrentando de estabelecer conexões verdadeiras seja um passo fundamental, ao lado da constatação de que não há receitas, que as famílias possuem configurações distintas, dinâmicas próprias e que, por isso, devem estabelecer relações únicas e que façam sentido em seu cotidiano. Além de entender o que as plataformas fazem – e como e por que operam desta forma – um exercício interessante talvez seja refletir sobre como as famílias podem atuar nas plataformas e, por meio delas, co-construírem um cenário digital mais significativo e acolhedor. Esse me parece um caminho participativo e concreto para que possamos deixar de ser usuários passivos e nos transformarmos em cidadãos transformadores. Vamos?
*JANUÁRIA CRISTINA ALVES – Mestre em Comunicação Social pela ECA/USP, jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira, de um Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos e um Prêmio Abril de Jornalismo. É membro da Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicação, do grupo de pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade da Escola de Comunicações e Artes e do Instituto de Estudos Avançados da USP, e da Mil Alliance, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco. E-mail: janualves@uol.com.br
Publicado no Nexo Jornal em 20/11/25
Publicado na 62. Revista do Congresso Nacional da Escola de Pais do Brasil – junho 2026, p. 18-19.
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