Questões de saúde de crianças e adolescentes na era digital

Qual será a receita de bolo que seja simples, fácil de fazer e usando as tecnologias digitais, para crianças e adolescentes crescerem com saúde e educação, neste mundo que muda a cada instante? Como assegurar o tempo e a temperatura do forno, para o bolo não queimar, se não sabemos o truque mágico para regular os comportamentos e nem as incertezas de cada um, de cada família? Como saber o que se esconde do outro lado das telas?

A partir de março de 2026 temos a aprovação de uma nova lei, 15.211, Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, que é um marco legal regulatório e civilizatório e que chegou para ensinar a todos, como lidar com a proteção social e digital, neste país, tão cheio de diversidades e de desigualdades. Alcançar um equilíbrio de ações e de mais receitas práticas para nosso bolo servir às necessidades de toda a população de 55 milhões de crianças e adolescentes brasileiras, será uma tarefa árdua que exigirá o compromisso de cada um/uma, além de muitas responsabilidades a serem divididas entre famílias, escolas e representantes governamentais.

Quais os ingredientes básicos dessa receita?

O primeiro e quase que único e vital, ao longo de 20 anos, é ter a certeza de que estamos colocando afeto, não em pitadas, mas em quantidades suficientes para preencher todos os momentos e espaços durante o desenvolvimento cerebral e mental de nossos filhos, sobrinhos, netos. Estar presente e dividindo os olhares, as escutas, as conversas, os momentos de alegria nas festas de aniversário e nas reuniões familiares. E sem telas, com a televisão da sala e os telefones celulares desconectados. Simples assim!

Depois, esticar cada momento do prazer de dar um abraço, apertar a mão, segurar no colo, enxugar as lágrimas que vão rolar, quando houver as dificuldades e frustrações a serem vencidas. Deixar o coração buscar meios de se expressar em palavras e em gestos, requer o ingrediente da humanidade! Sem reflexos das telas, da luz que brilha, na onda azul, mas que atrapalha nossa visão e nossa construção do que se denomina “espelhamento emocional”.

Acrescentar os ingredientes de segurança, de regras para não se ultrapassar os limites do bem-estar, da saúde, do convívio de respeito e principalmente do equilíbrio entre o “mundo interno” de cada um e as percepções e influências do “mundo externo” que nos cerca, e está ali, no alcance da visão e dos dedos que deslizam sobre as telas, a procura de novos conteúdos, que podem trazer sabores de prazer ou de muita preocupação!

Então, quais os valores e outros ingredientes a serem selecionados? Lembrar de consultar o Guia Prático da Classificação Indicativa do Ministério da Justiça e de Segurança Pública, com critérios etários e indicativos dos fatores agravantes e atenuantes sobre conteúdos de filmes, vídeos, jogos on-line e materiais audiovisuais que são disponibilizados em aplicativos, com muita glamourização, mas que envolvem a sexualidade, a violência, a exploração sexual, o uso de drogas que impactam negativamente as crianças e adolescentes.

Sempre lembrar que crianças e adolescentes estão em diferentes fases de crescimento, desenvolvimento e maturação cerebral e mental. Não são robôs a serem controlados por algoritmos. O cérebro de qualquer criança leva, em média, 20 anos para integrar todos os estímulos positivos e negativos que recebe do “mundo exterior”. São neuro-hormônios que são estimulados, dopamina, serotonina, cortisol, melatonina e que são liberados de acordo com o que está acontecendo naquele momento. Mecanismos de recompensa, do medo, da vigília ou do sono, no circuito circadiano da luz do sol ou da escuridão da noite e influenciado pelo brilho das telas, onda azul!

E assim, já entendemos por que o “bolo” muitas vezes “sola” ou queima no forno ou nas rotinas do dia a dia, pois os ingredientes não foram misturados e balanceados, corretamente! Problemas de saúde devido ao uso precoce (antes dos 2-3 anos), excessivo (interfere nas outras atividades de rotina, sono, alimentação e exercícios) e prolongado (mais de 4 horas/dia ou “virar a noite”) de telas.

São 4 grandes grupos de problemas e queixas de saúde que aumentaram na frequência, e estão inter-relacionados, com as mídias digitais, nos últimos anos e em todas as famílias:

  • Problemas corporais e físicos: atraso no aprendizado da fala e comunicação; transtornos de sono, alimentação: anorexia e bulimia; sobrepeso e obesidade; sedentarismo; transtornos de visão, audição, postura e lesões emergenciais ou acidentes com fatalidades, nos desafios perigosos, com queimaduras, pneumonias, fraturas. 
  • Problemas comportamentais: isolamento (“não querer sair do quarto”), irritabilidade, alternâncias de humor com o aumento de episódios de depressão e ansiedade; transtornos de imagem corporal e autoestima; neurodiversidades com aumento de TDAH (transtornos do déficit de atenção e hiperatividade); TOC (transtorno obsessivo-compulsivo); TOD (transtorno desafiador-opositor); dependência digital e uso problemático das mídias interativas; gesto suicida e auto-mutilação;
  • Problemas da sexualidade: nudes e exploração sexual on-line, estupro virtual, grooming (sedução); sexting; redes de pornografia e de pedofilia.
  • Problemas da violência: sharenting; cyberbullying; uso de drogas e cigarros eletrônicos/vaping; redes de ódio, discriminação e extremismos; cancelamento; nomofobia; golpes de todos os tipos e apostas/bets on-line; predadores e “influenciadores” com mensagens distorcidas, provocativas, prejudiciais e danosas.

Problemas se acumulam quando ficamos omissos ou silenciosos e “fingimos que nada acontece aqui em casa”! Como resolver tantas questões e aprender mais receitas para prevenção dos riscos e proteção social e digital? Qualquer lei precisa sair do papel! A Hora é agora!

Conversar sobre assuntos difíceis, dividir responsabilidades com as famílias (mediação parental), com os educadores e escolas (ensinar habilidades digitais); ter tempo de qualidade e alternativas “fora das telas”; bloquear, denunciar e pressionar as empresas de “entretenimento”/BTechs e os órgãos representativos governamentais, ANPD Agência Nacional de Proteção de Dados; SAFERNET; usar fontes confiáveis para intervenções diagnósticas e psicoterapêuticas como a Sociedade Brasileira de Pediatria e diversos já documentos publicados e nos sites!

A receita do bolo está nos detalhes invisíveis da construção do olhar de afeto, do apego, do respeito e da comunicação, nas pontes para uma paz possível e com saúde, entre as gerações e as tecnologias! Um ambiente que denominamos de ecossistema digital, que estimule a curiosidade, a busca de novas informações e dos conhecimentos, as oportunidades de ser incluído, aceito e de pertencimento, de estar integrado e valorizado, ao saborear uma fatia desse bolo, do legado dos direitos humanos e da cidadania digital.

REFERÊNCIAS:

  • Brasil, Governo Federal/SECOM & UNESCO (2025): Crianças, Adolescentes e Telas, Guia sobre Usos de Dispositivos Digitais. Brasília. SECOM

Disponível em: https://bit.ly/guia-uso-dispositivos

  • Ministério da Justiça e Segurança Pública, MJSP, Secretaria Nacional de Direitos Digitais (2025): Guia Prático de Audio-Visual, Aplicativos e RPG, 5ª ed. Disponível em:
  • https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/seus-direitos/classificacao-1/paginas-classificacao-indicativa/guia-de-classificacao

 Brasil. Agência Nacional de Proteção de Dados (2026): Perguntas e Respostas sobre o ECA Digital. Disponível em: https://Perguntas_e_Respostas_ECA_Digital_1773944603.pdf

Sociedade Brasileira de Pediatria, SBP (2024) Grupo de Trabalho Saúde na Era Digital: #Menos Telas # Mais Saúde, atualização. Disponível em:

  • https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/24604c-MO__MenosTelas__MaisSaude-Atualizacao.pdf

 Sociedade Brasileira de Pediatria, SBP (2025) Grupo de Trabalho Saúde na Era Digital: Primeira Infância # Sem Telas # Mais Saúde. Disponível em:

  1. https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/sbp/2025/setembro/02/25007e-DC_-_Primeira_Inf__Sem_Telas__Mais_Saude__2025-2028.pdf

Dra. Evelyn Eisenstein – evelynbrasil@hotmail.com – Centro De Estudos Integrados, Infância, Adolescência e Saúde – www.ceiias.org.br – médica pediatra e clínica de adolescentes, professora associada e aposentada da FCM-UERJ; membro da Sociedade Brasileira de Pediatria/SBP e coordenadora do GT de Saúde na Era Digital; membro da AMRJ, Academia de Medicina do Rio de Janeiro; Diretora da Clínica de Adolescentes e do Centro de Estudos Integrados, Infância, Adolescência e Saúde/CEIIAS.

Publicado na 62. Revista do Congresso Nacional da Escola de Pais do Brasil – junho 2026, p. 22-24.

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