A escola sempre foi associada a uma perspectiva de futuro. Contudo, sabemos que extrair, sobretudo os jovens, da fixação dos prazeres do momento implica em mobilizar o desejo de algo que é ainda um porvir. Assim, ensinar não é exclusivamente a transmissão do conhecimento, o mais difícil é causar o desejo de saber mais. Por que então, colapsando esse futuro, tantos jovens se matam atualmente? O número de suicídios nessa faixa etária aumentou significativamente, isso é um fato que circula nas mídias tanto no Brasil como no mundo. Coordenando um serviço que busca atender a urgência subjetiva na Universidade Federal da Bahia – o PsiU – levantei algumas reflexões sobre o que aprendi com esses jovens, muitas vezes no limite de antecipar a finitude da vida, na busca de uma leitura desse novo momento social.
São mortes prematuras que, no mundo utilitarista, não poderiam deixar de passar pelo crivo do mestre contábil. Surge assim o índice APVP (anos potenciais de vidas perdidas), que estima quantos anos por cem mil habitantes um país perde por conta destas mortes. Compara-se a idade da morte do jovem com a expectativa de vida calculada em 69 anos. No Brasil este índice está em ascensão. Em 2015, estima-se que 7030 anos por cem mil habitantes foram perdidos (*). Aspirados pelo universo virtual dos games e redes sociais, os millennials dão sinais de que algo não deu muito certo no projeto de uma aldeia global hiperconectada. De 2006 a 2015 a taxa de suicídio entre adolescentes no Brasil subiu 24%. Em um mundo onde o retorno crescente do espírito liberal leva todo jovem a experimentar-se como empreendedor de si mesmo, a miragem de relações verdadeiras nas redes oculta dramas íntimos e fracassos que não encontram tradução no mundo idealizado, e falso, do sucesso virtual.
Um estudo recente conduzido por Johannes Eichstaedt da Universidade da Pensilvânia comparou o uso de uma rede social, nos últimos anos entre um grupo identificado como tendo sintomas de depressão e outro supostamente livre desses sintomas. Com o uso de algoritmos que analisaram as postagens dos dois grupos distintos, foi possível identificar que o grupo dos depressivos faziam postagens que acreditavam que a rede servia para comunicar, muitas das postagens eram, no fim das contas, um pedido de ajuda. Já o outro grupo se servia das postagens muito mais para mostrar para exibir seu narcisismo, pouco importando em escutar o outro.
Quem matamos quando matamos a nós mesmos?
Em 1915 Freud escreve que, para o próprio sujeito, sua morte é irrepresentável, o simbólico não pode dizê-la. Ou seja, para o pensamento freudiano podemos dizer: penso, logo sou imortal. Por mais que afirmemos que todos os homens são mortais, não existe a inscrição da morte no inconsciente. A morte faz furo no simbólico, como disse Lacan nos anos 70. Pensar a questão do suicídio pela psicanálise exige consequentemente um giro de perspectiva. O suicida não se mata, ele mata a imagem de si. No trabalho, nas universidades, na comédia amorosa, nos dramas familiares, no tribunal permanente da opinião pública, é sempre nossa imagem, ou ego, que marca presença. É ela que sai de cena.
E como isso ocorre? A resposta é que o ego traz consigo, se acompanhamos a teoria freudiana do narcisismo, a crença de que nosso corpo é a imagem que temos de nós mesmos diante do espelho. Nos reconhecemos nessa imagem, nos alienamos nessa imagem e passamos a denominá-la “eu”. Quem nunca pensou no próprio enterro, ou no efeito que causaria no outro se faltasse a ele? Quando desejamos nossa morte, continuamos a pensar nossa ausência como uma presença para além da morte. Isso por sermos seres de linguagem, nossa existência não tem a ver com nosso corpo biológico – que nos precede. Como nossa existência se aloja nas palavras, vivemos a eterna tensão entre um corpo biológico perecível (já que esse corpo morre), e nosso ser de fala que, entre outras façanhas, nos separa do reino animal e tem a capacidade de conjugar verbos no futuro.
Ser humano é igualmente ter que se haver com o corpo que se tem, e não apenas com o corpo que se “é”. Nossa condição de fala nos desnaturaliza, já que a pulsão de morte, tão humana, se sobrepõe ao instinto animal de sobrevivência. Justamente por termos um corpo, podemos nos desfazer dele. É na vertigem entre ser e ter um corpo que surge a angústia heideggeriana que nos determina como um ser para a morte.
O suicídio sem sujeito
Seguindo o destino de todo sentimento humano, o suicídio no mundo atual tornou-se patologia e passou aos cuidados da psiquiatria. Ou seja, corpo e mente do suicida pertencem no século 21 à ciência. Esse pensamento atinge proporções globais, é a própria Organização Mundial de Saúde que diz que 90% dos suicídios estão associados à distúrbios mentais e poderiam ser evitados se as causas fossem tratadas corretamente. Essa estatística tornou-se argumentum ad nauseam de toda exposição psiquiátrica sobre o suicídio nos dias de hoje. Eis o ponto inquietante, o suicídio como doença desresponsabiliza tanto o sujeito quanto o Outro social, torna-se uma aberração comportamental, um enquistamento maligno, cujo caminho é na maioria esmagadora dos casos a medicalização. Essa constatação não é nada confortável sobretudo quando inúmeros trabalhos apontam para o aumento de mortes ligados à associação entre pensamentos suicidas e uso de substâncias químicas, antidepressivos principalmente.
Juntos e separados
As metrópoles perderam a escala humana, sem as avenidas e praças virtuais há pouco espaço para o encontro. Principalmente para os jovens, a rede tornou-se a rua, mas nem tanto assim. As relações construídas virtualmente são muito mais voláteis, basta um clique para que o interlocutor desapareça para sempre. Surge mais recentemente um fenômeno apelidado de vácuo, constante nos aplicativos como Tinder, Par perfeito ou Grindr: os casais se formam por aplicativos e começam o diálogo, quando as coisas apontam para um verdadeiro encontro ou para um relacionamento mais prolongado, um dos dois simplesmente sai da conversa, deleta o contato, sem desculpas, pedido de separação ou mesmo um simples até logo.
Nas relações virtuais tornou-se possível o sonho de um fim de relacionamento sem restos. É possível se “deletar” de um aplicativo, por exemplo. Faz parte das crônicas do amor moderno o momento em que se separam as escovas de dente, os móveis, a definição de quem vai ficar com o gato, mas também o ritual de bloquear o/a ex no Instagram e no face, deletar as centenas de fotos postadas juntos e mudar o status para “disponível”, sem suportar a travessia do luto. Alguns jovens, diante dessas situações de ruptura, acabam pensando em se “deletar” no real, e não apenas simbolicamente. Como diz Freud, o luto é um trabalho que leva tempo, ele é um trabalho feito com memórias e palavras, e tempo é justamente o que a nova geração não foi formada para perder. As escolas cada vez mais pensam na empregabilidade de seus futuros empreendedores do que com a socialização, colegas de turma passam a ser rivais na construção de um currículo que esmaga os desejos infantis e os lança na antecâmara do mercado de trabalho.
Como ressalva L.M. Sakasas, diretor do Center for the Study of Ethics and Technology no Greystone Institute, se antes o estofo narcísico que fazia nosso mal e nosso bem-estar dependia de pessoas próximas do círculo familiar, profissional ou estudantil, hoje o narcisismo é refém de likes e aprovações de estranhos ou de pessoas do mesmo círculo social que se manifestam anonimamente. As relações tornam-se consequentemente muito mais voláteis e precárias. O resultado é a manutenção de um estado de permanente dependência de uma aprovação no tribunal das redes.
O desejo em pane, a vida como uma playlist
A psicanálise lacaniana nos permite observar outro prisma das relações virtuais, a valorização do objeto tecnológico em si, quando este deveria apenas ser um meio para outro fim. Os smartphones tornaram-se um órgão para gozar em si, e não para conectar. Essa nova prótese forma uma geração de adictos ao deslocar o componente pulsional sexual para o próprio objeto. A baronesa Susan Greenfeld, neurologista britânica, interroga até que ponto entregar um tablet para um bebê de poucos meses é melhor do que permitir que ele brinque com massinha. O mesmo se passa com a pornografia, antes feita para alimentar a fantasia durante um ato sexual e que agora é o fim em si, criando uma geração de inibidos sexuais que não mais sabem o que fazer com a “massinha” que é o corpo do outro.
Todo o conforto que a gratuidade do GAFAM (grupo formado pelo Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft) nos proporciona tem um preço. Contudo, é sempre bom lembrar, quando o almoço é grátis você é a sobremesa. Oferecemos nossa transparência nas redes e nos convertemos em um enorme parque de consumidores virtuais. “Se você gostou disso, vai gostar também disso”, nos convida os novos robôs mentores. Acontece que estas playlists não foram construídas por você, escutando aqui e acolá, fuçando prateleiras de pequenas lojas reais. Elas foram criadas pelo seu robô favorito. As prateleiras virtuais são feitas para que você consuma mais do mesmo, única maneira de garantir o componente aditivo.
Uma gramática do olhar
Baudrillard, que além de filósofo era fotógrafo, chamava atenção para o fato de que o excesso de imagens nos tornou incapazes de enxergar o mundo. É preciso reaprender a enxergar. Assim como ensinamos às crianças o modo como vão se servir das palavras, no mundo dominado pelo Instagram é preciso ensiná-las uma gramática do olhar. No fluxo ininterrupto das redes, como enquadrar as imagens, como conectar-se com uma narrativa que inclua o outro. Quando a imagem não inclui a alteridade, ela leva ao que Lacan chamou de “regressão tópica ao estádio do espelho”, o narcisismo como última barreira antes do vazio. Recentemente uma pesquisa publicada por Reeves e colaboradores na revista Human–Computer Interaction demonstrou que a média de permanência em uma única tela de smarthphone é de apenas vinte segundos. Tudo se passa rápido demais. Lacan dividiu a temporalidade subjetiva em três etapas: instante de ver, tempo para compreender e momento de concluir. Observamos que entre o instante de ver (uma fake News, por exemplo) e o momento de concluir (compartilhá-la na rede), houve um curto circuito do tempo para compreender. É precisamente esse tempo que é preciso restituir aos jovens, o tempo de compreensão de seu sofrimento, tempo onde correm as palavras, e que foi encurtado pelas redes sociais, deixando-os cada vez mais sem amparo entre o instante da angústia e a conclusão pelo suicídio.
REFERÊNCIA
(*) Fonte Organisation de coopération et de développement économiques (OCDE): www.oecd.org
Marcelo Frederico Augusto dos Santos Veras – Psicanalista da Escola Brasileira de Psicanálise, Psiquiatra da Universidade Federal da Bahia, Coordenador do PsiU – Programa de saúde mental e bem-estar da UFBA, autor do livro “A morte de si”.
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