Neste ano de comemoração dos 60 anos da Escola de Pais do Brasil – Salvador, destaco, neste artigo, alguns registros sobre o tema, extraídos dos Anais da EPB.
O sucesso da educação se dá na medida da parceria entre a família e a escola. Mesmo considerando o papel a desempenhar por cada uma, ambas devem estar em sintonia e não o exercerem separadamente. É necessário compreender que a educação não é responsabilidade exclusiva da escola, e essa sintonia amplia o rendimento escolar, melhora o processo de aprendizagem e possibilita o desenvolvimento físico e psíquico sadios da criança.
A família é a primeira escola, é a base principal para formação do caráter, fornecendo amor, proteção, valores e conhecimento e a escola dá continuidade fornecendo cultura, saberes e novas experiências na vida, num ambiente social mais amplo, onde também se ampliam os laços de amor, respeito às diferenças, cidadania e solidariedade. A educação é o elo de ligação entre a família e a escola, ambas se complementam, porém, uma não substitui a outra.
A influência da escola na vida familiar se dá desde o início com a escolha da escola e a preparação do filho para ingressar na mesma. Cada vez mais cedo as crianças são conduzidas a novos ambientes longe de suas famílias e os pais procuram a escola adequada no desejo de acertar. Buscam opiniões sobre métodos pedagógicos, experiências e resultados, visitam instituições para conhecer o espaço físico, a linha pedagógica aplicada, o acolhimento, atividades desenvolvidas, a segurança para o bem-estar da criança e para que possam ter plena confiança nos responsáveis pelos cuidados com seus filhos. Diversas variáveis são consideradas para a escolha da escola ideal, dentre elas, a classe social da família, a proximidade entre a casa e a escola, a idade da criança, o número de crianças na turma em relação ao número de responsáveis por ela, enfim, uma série de preocupações que afligem a família.
Surgem novas responsabilidades e atividades como: levar e buscar em horário determinado independente da solução adotada pelos pais, providenciar o material necessário para o desenvolvimento das atividades, acompanhar o conteúdo que está sendo ensinado através das atividades solicitadas e se está sendo compreendido, absorvido e realizado pela criança, observar o desenvolvimento cognitivo e socioemocional da criança com foco na adaptação à escola e convívio com professores e demais colegas, estabelecer contato com professores, auxiliares e colegas, participar de reuniões convocadas pela escola ou conversas com professores e auxiliares, seja qual for o tema a ser discutido, demonstrar interesse colaborando nas atividades escolares quando necessário e demais atividades como eventos e passeios. Essas responsabilidades influenciam diretamente na família e muitas vezes, por indisponibilidade dos pais, são delegadas a outras pessoas, principalmente aos avós, que passam a participar mais ativamente da vida familiar.
Infelizmente alguns pais se negam a comparecer quando são requisitados pela escola e não demonstram interesse em colaborar. O principal motivo é que podem ser pais de filhos problemáticos ou porque não conseguem acompanhar os conteúdos e atividades desenvolvidas pelo filho. Nesse aspecto, para uma educação mais eficaz, é fundamental que haja mudança nas atitudes de pais e professores para que ambos possam buscar soluções, juntos, para tais situações. Com a família presente, segundo o psicólogo Ivan Roberto: “é através das experiências vividas com seus pais que as crianças vão estruturar as relações com que elas viveram em sociedade”. Ter a família presente nas atividades escolares, o interesse na aprendizagem por parte dos filhos é cada vez maior porque os pais demonstram atenção por seus resultados e produções na escola. A criança sabe reconhecer se recebe ou não a atenção devida, e na ausência de atenção, tornam-se rebeldes e difíceis de lidar.
Devido à jornada de trabalho dos pais, os filhos são colocados em diversas atividades extras que muitas vezes os deixam sobrecarregados com tantos afazeres e os momentos de lazer, assim como de diálogo e de encontros familiares ficam negligenciados. É preciso saber dosar as atividades, pois o distanciamento faz com que a criança busque apoio e inspiração em outras pessoas que não pertencem ao seu ambiente familiar.
Outro aspecto sobre a influência da escola na família refere-se ao “afastamento”, como cita Maria Christina Siqueira: “Os pais devem saber que a escola leva, de uma certa forma, os filhos para longe de casa, distanciamento esse necessário até certo ponto, a fim de que os jovens possam fazer novas amizades, criar novos laços, começando assim, o desprendimento dos laços familiares”. Por outro lado, a família também interfere na dinâmica da escola, questiona sobre a interferência na vida do filho e até culpa professores por determinados comportamentos. Segundo Maria Christina Siqueira: “ela faz reclamações, traz sugestões às quais a escola precisa dar uma resposta e faz até quase imposições sobre o que a escola deve fazer. Assim a escola tenta de todas as maneiras manter a família a uma distância conveniente, a seu alcance, certamente, quando for necessário, mas não muito próxima, para não atrapalhar”. Com a evolução tecnológica e uso de aplicativos próprios, a escola propicia uma comunicação mais efetiva com a família tornando o relacionamento mais próximo e contínuo. Quando os valores da escola não coincidem com os valores dos pais, e professores e pais têm raízes diferentes, criam-se dificuldades aos alunos pois, são filhos e estudantes ao mesmo tempo. Entretanto, como os objetivos são comuns, ambos devem unir esforços, exercer autoridade educacional, repreender ou elogiar de forma assertiva, respeitando a personalidade dos filhos-estudantes que têm direito de expor suas próprias opiniões, pois, vivemos numa sociedade que sofre forte influência a tendências sociais que não contribuem para melhorar a consciência moral, individual e coletiva.
Outra questão de influência na família por situações que comumente acontecem em ambiente escolar é a problemática do bullying. Os pais devem observar o comportamento atípico da criança, tanto no papel de vítima como no de agressor, e interagir com professores e coordenadores. Uma vez constatada a situação, ações imediatas de combate e conscientização devem ser tomadas na escola e o devido acompanhamento e cuidado na família.
Enfim, os benefícios da parceria família-escola são reais, mas exigem planejamento e muitas vezes uma reestruturação na dinâmica familiar. “A educação que verdadeiramente transforma, é aquela que une casa e escola em um propósito comum: cultivar seres humanos íntegros” – Laine Valgas – revista do 61o Congresso Nacional da EPB.
Ana Rosa Souza – Analista de Sistemas formada pela UFBa, casada há 48 anos, 2 filhos e 3 netos. Junto com seu esposo, Anníbal Souza, são membros da EPB – Seccional de Salvador há 33 anos.Publicado na 47 Revista da Escola de Pais do Brasil Seccional de Salvador, p. 13-15.
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