Solidão: entre o desencaixe e a criação de si

“Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas. E me encantei”. Manoel de Barros

Há uma aceleração na vida, onde muitas miudezas vão passando desapercebidas, disso não tenho dúvidas. Basta nos colocarmos a olhar, sentir e escutar. A noção de tempo está mudando rapidamente, quando olhamos o calendário, lá se vai março, abril e maio já chegou, num piscar de olhos já é noite e, com ela, a chegada do silêncio, ora um desassossego ora como oportunidade de se jogar no primeiro sofá e começar a rolagem dos dedinhos, entre os reels e as redes sociais, cada um no seu pequeno mundo “mágico”.

Ao contrário de muitos amigos e familiares, ainda me permito chegar em casa e silenciar meu dia, ao final de um longo dia de trabalho, refaço silenciosamente meus momentos, resquício da minha longa experiência com os exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola, hábito este que adquiri quando eu trabalhava nos Colégios Jesuítas.

Revejo na minha mente,  falas escutadas ao longo do dia e me pergunto: De que solidão estamos sofrendo?

Outro dia recebi um adolescente no meu consultório, segundo ele, o menino mais solitário e sem lugar, ele diz: “Me sinto tão só, um sentimento de desconexão, desencaixe do mundo em que vivo e tenho a impressão de que só eu sinto isso.” Parei e pensei: mal sabe ele, que muitos se queixam desse desencaixe e tentam, a todo momento, “se encaixar”, mesmo que seja através de algum diagnóstico apressado: “Ufa! Descobri por que me sinto tão estranha, tenho autismo, por isso eu me sentia tão só.” Me disse outra adolescente naquela mesma semana. O excesso se faz tão presente na clínica, na escola e na vida.

Olhem ao redor: excesso de telas, de comida, de compras, de álcool, de tristeza, de alegria, de likes, de trabalho. Voltamos ao tudo ou nada, ao ganhar ou perder.

Ou seja, a polarização anula outras possibilidades e percursos possíveis. É ou não é? Viver ou morrer? Será que isso é viver?

Há muitas formas de morrer em vida… e apenas continuar a sobreviver. Os excessos são parte disso. Uma forma de não nos permitir ver as miudezas da vida, há no barulho um excesso de ruídos, de presenças imaginárias que se dão através de telas que “acalmam” e te oferecem mais do mesmo.

Consumam!

Diante desse vazio, dessa solidão desacompanhada de si, há calmantes fáceis em formas de diagnósticos apressados, ansiolíticos que façam o corpo adormecer, indutores do sono que desligam tantos pensamentos e até mesmo a possibilidade de continuar trabalhando e produzindo. Afinal, dizem boa parte dos influencers: Seja sua própria empresa e ninguém mais mandará em você.

Adormeci.

No dia seguinte, chego para ministrar uma formação para professores da Educação Básica, e escuto uma professora: “Me sinto tão sozinha… uma sensação de que não estou sendo escutada. Pareço ser uma pessoa invisível nesta escola.”

Logo penso, na noite anterior, nos sentimentos de solidão e inadequação que tanto tenho escutado. Todos nós aqui, podemos contar coleções de cenas como essas e no entanto, não temos tempo. Nunca estivemos tão conectados virtualmente e tão desconectados de nós mesmos, nossos laços sociais estão se esgarçando e mesmo assim resistimos e insistimos no mesmo percurso: a pressa. E a professora continuou: “Ainda bem que tenho meus amigos virtuais.” Pensei, fico ou saio correndo. Fiquei, me entreguei naquele momento, falei e repeti sobre a importância de sermos presenças mesmo nos silêncios, mas estejamos presentes em cada ato que realizamos. E porque não a solidão, quem sabe habitando-a, poderemos nos reencontrar? Fiquei e conversei sobre a solidão e lembrei sobre um grande ensinamento da Psicanalista Françoise Dolto:

“Entendi há muito tempo até que ponto deixar as crianças na solidão (não no isolamento), respeitar sua solidão aparentemente desocupada é indispensável para que elas não se tornem robôs dos outros. É muito importante. Não se percebe isso muito bem.”

E lá seguimos nós adultos, sem perceber a importância da solidão. Será que já nos robotizamos e com isso estamos nos sentindo adequados demais?

Na escuta atenta, não reconheço a solidão apenas como um fato social ou uma condição externa; pelo contrário, ela nos convida a parar, fazer pausas, olhar ao redor e observar com olhos de quem enxerga: a pilha de livros “para ler depois”; a ligação para aquela pessoa tão querida; o excesso de trabalho em um dia que já deveria ter terminado, as burocracias das escolas, substituindo o olhar atento. Que solidão é essa? Talvez, ela seja, apenas um convite: HUMANIZEM-SE com o tempo presente, essa pode ser à possibilidade ou impossibilidade de habitar a si mesmo.

Acreditem, um sujeito que não pode experimentar a solidão, dificilmente conseguirá relacionar-se saudavelmente com outro sujeito, acabará quase sempre na sua dependência ou na ilusão de preenchimento e a tão sonhada completude. Talvez, esse convite seja viva a sua solidão, não como um vazio a ser rapidamente preenchido, mas como um intervalo necessário na arte de viver e não apenas sobreviver para viver.

Entre o ruído das conexões e o silêncio da existência, há um espaço delicado e profundamente humano: o encontro consigo mesmo e quem sabe, no meio das coisas miúdas, nós voltamos a nos encantar!

Jane Patricia Haddad • Instagram: @janehaddad

Mestre em Educação pela UTPR, Docência do Ensino Superior pela UNI-BH, Psicanalista com Formação em Teoria Psicanalítica UFMG e Pedagoga pela PUCMG. Uma pessoa humana que aposta na Humanidade, sou o efeito e feito da linguagem em minhas meu percurso de vida e agente de um futuro possível.

Publicado na 62. Revista do Congresso Nacional da Escola de Pais do Brasil junho de 2026, p. 32-33.

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