O USO OCULTO OU NÃO DA IA POR CRIANÇAS E O PONTO CEGO DOS PAIS

A computação cognitiva é um ramo da Inteligência Artificial (IA) projetada para simular o processo de pensamento humano. Os modelos de linguagem de Inteligência Artificial têm se integrado à rotina das últimas gerações, principalmente das Z (1997 a 2012) e Alfa (nascidos de 2013 a 2024), de forma silenciosa e profunda.

Diferente das redes sociais, cujo uso é prioritariamente visual e compartilhado, a interação com assistentes virtuais e chatbots (software de inteligência artificial projetado para simular uma conversa humana), baseia-se no diálogo textual ou por voz, muitas vezes privado.

Crianças e adolescentes recorrem a essas plataformas para solucionar desde dúvidas escolares até crises psicológicas e dilemas existenciais. Contudo, veremos que essa dependência digital ocorre em um ponto cego para os pais, criando um abismo de comunicação e supervisão familiar.

O primeiro e mais evidente ponto de contato dos jovens com a IA ocorre no ambiente acadêmico. Ferramentas como ChatGPT, Gemini e aplica vos focados em resolução de problemas matemáticos viraram os novos “professores particulares” dos estudantes. Passou-se com facilidade do de ver de casa para o plágio automatizado. Muitos estudantes u lizam a tecnologia não para compreender a matéria, mas para gerar respostas prontas. Esse uso pragmático máscara o verdadeiro aprendizado e cria uma ilusão de competência. Então surge a pergunta: “até que ponto a tec nologia ajuda a educação e quando ela passa a prejudicar o aprendizado?”

O processo de pesquisa, é o ciclo fundamental para a produção de conhecimento científico ou para o desenvolvimento de projetos. Nesse processo o estudante formula hipóteses, identifica falhas e agrupa dados e esse movimento é funda mental para a plasticidade cerebral (capacidade notável do cérebro de se adaptar, modificar e reorganizar sua estrutura e conexões neurais, na infância). Todo esse desenvolvimento acaba sendo substituído pela gratificação instantânea de um comando de texto (prompt). O estudante compartilha sua dúvida com a IA e ela traz a res posta.

Mas algo já deu errado no ensino, pois países como Suécia, Finlândia, Noruega, França, Itália e Dinamarca que haviam apresentado o uso de telas, tablets e celulares como o futuro inevitável da educação, passaram a questionar os efeitos da digitalização precoce sobre o aprendizado. A mudança nasceu de estudos que associam o uso de papel e lápis a uma melhor retenção de informações, maior capacidade de concentração e com preensão mais profunda dos conteúdos.

A Suécia por exemplo, em 2023 abandonou a estratégia de tornar os tablets obrigatórios e decidiu investir novamente centenas de milhões de coroas na compra de livros físicos. A prioridade passou a ser, devolver aos estudantes o contato direto com a leitura tradicional. Na Dinamarca o governo reservou 540 milhões de coroas para ampliar o acesso aos materiais impressos e distribuiu 17.500 livros pelas escolas. França e Itália já adotaram medidas rigorosas contra smartphones desde os primeiros anos de ensino, enquanto agendas de papel e exercícios manuscritos voltam a ganhar espaço.

No Brasil as estatísticas demonstram que há 1,3 smartphone por habitante. Cerca de 89% da população acima de 10 anos possui celular. Brasileiros passam mais da metade do tempo em que estão acordados diante de telas. Usuários relatam média de 6 a 12 horas diárias no aparelho. Levantamento anual do CETIC.br aponta que 65% das crianças e adolescentes (de 9 a 17 anos) no Brasil utilizam ferramentas de inteligência artificial generativa.

Estamos também “acordando”: na educação básica do Brasil o uso de smartphones é regulamentado desde 2025 pela Lei 15.100, que proíbe o uso dos aparelhos em sala de aula e intervalos. Pesquisas recentes do Ministério da Educação (MEC) apontam que, após a restrição, 95% dos diretores notaram aumento na concentração e 90% registraram redução na ansiedade dos estudantes.

Para além do suporte escolar, há uma transição preocupante da IA para o campo emocional

O isolamento social contemporâneo e o medo do julgamento alheio fazem com que crianças e adolescentes busquem nos chatbots um espaço de desabafo. Aplictivos que simulam personalidades ou oferecem respostas empáticas programadas atuam como um “ombro amigo” artificial. Jovens relatam usar a IA para lidar com sintomas de ansiedade e ataques de pânico antes de provas. Procuram soluções para conflitos de relacionamento com colegas de classe ou familiares as sim como sentimentos de solidão, rejeição e baixa autoestima.

A ilusão de uma escuta atenta e sem julgamentos humanos, atrai indivíduos em fase de desenvolvimento de personalidade. Nesse cenário a IA se transformou em mais do que uma ferramenta de entretenimento, ela tornou-se um confidente multifacetado.

Isso é tão preocupante que se criou a expressão “Silicon Valley Confession”, que faz referência a discussões recentes sobre as repercussões éticas da Inteligência Artificial. Simbolizadas pelo encontro histórico e parcerias entre o Va cano e líderes do Vale do Silício (polo de tecnologia e inovação localizado na Califórnia (EUA)), quando o Papa Leão XIV publicou após encontro com líderes da tecnologia a encíclica Magnifica Humanitas, cujo tema é direto: a proteção da pessoa humana na era da Inteligência Artificial.

Na adolescência, o cérebro jovem se depara com questões como “Qual o sentido da vida?” “O que acontece após a morte?” “Como lidar com a finitude?” Essas questões muitas vezes são feitas à IA, que as responde de forma enciclopédica, neutra e imediata.

No entanto, os algoritmos carecem de empatia real, intuição clínica e responsabilidade ética. A simulação de um suporte terapêutico e orientação pode validar pensamentos distorcidos, isolar ainda mais o jovem do convívio social e atrasar a busca por ajuda profissional humanizada. A perda do diálogo no mundo físico, tradicionalmente debatidos com filósofos, líderes religiosos, pais ou professores, empobrece a construção da subjetividade humana.

Quando uma criança recebe uma resposta pré-programada sobre a morte ou a moralidade, ela deixa de vivenciar o desconforto criativo e a troca afetiva que moldam a resiliência emocional e os valores é cos transmitidos culturalmente pela família.

O Ponto cego dos pais acontece devido ao mito do “nativo digital”, que se refere a quem nasceu a par r da década de 80. Pais se sentem incapazes de compreender e utilizar a tecnologia. Enquanto essa revolução silenciosa acontece nos quartos e nos telefones inteligentes, a maioria dos pais permanecem alheios à profundidade das interações, entre os seus filhos e a IA. Existe uma falsa ideia de que existe uma troca intelectual dos filhos com a IA.

É urgente estabelecer momentos de desconexão total dos smartphones em família, para res gatar o diálogo sobre questões afetivas e existenciais. Da mesma forma, que as escolas estão fazendo de readequar seus métodos de avaliação para valorizar o processo de raciocínio.

Somente com o equilíbrio entre a inovação digital e a presença humana consciente será possível garantir que a IA seja uma ferramenta de expansão da mente jovem, e não uma muleta para sua atrofia cognitiva e isolamento emocional.

REFERÊNCIAS:

Pew Research Center <pewresearch.org>

<https://mccrindle.com.au> 

Tiago Henrique Bona CTO/CIO & Board Member; Associação Brasileira de Inteligência Artificial e Ecommerce

Abiacom.vatican.va – Carta Encíclica Magnifica Humanitas

Portal da Câmara dos Deputados – https://www.camara.leg.br

Denise Mara da Cunha – Psicóloga, fonoaudióloga, professora, especialista em linguagem. Pós-graduada em saúde integrativa e musicista. Voluntária da Escola de Pais do Brasil – Belo Horizonte.

Publicado na Revista da Escola de Pais do Brasil – Seccional Belo Horizonte – setembro de 2026, p. 24-25.

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