Somos feitos de HISTÓRIAS que são contadas e também silenciadas como mecanismo de defesa…
Ao me debruçar pra escrever esse artigo, lembrei-me de como tenho me perguntado sobre o legado que recebi dos meus pais e avós, além dos tios e primos, e vejo claramente o que quero deixar como minha história de vida. Percebo então, que tudo isso que transmito nas palestras, nos escritos, nas escutas, posições e troca de experiências que tenho assumido na vida acadêmica, no exercício do voluntariado e na religiosidade é o meu legado maior.
Li em uma das revistas da EPB, que reparar a própria história é possível, desde que nos oportunizemos voltar à infância. E mesmo com a memória meio comprometida, voltei, retornei a cada lugar vivido por mim. E alguns deles me trouxeram a mesma dor, a mesma frustração e acima de tudo, a resiliência. A filósofa Hannah Arendt ao falar sobre essa questão, nos traz alívio quando nos diz: “Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história”. E todos nós pais, filhos e avós temos uma história de vida de dores, reparação, alegrias e um vasto aprendizado.
O Cristo ao ser batizado, ouviu do Pai do Céu, uma das mais lindas declarações registradas no Evangelho: “Este é o Meu Filho amado, que Me dá grande alegria“(Mateus 3:17).
Seguramente, todos nós, pais e mães, gostaríamos de falar essa mesma mensagem para os nossos filhos e esperamos que, eles se desenvolvam plenamente, rumo à maturidade, nos dando alegrias e a certeza do dever cumprido. A cada fase realizada com sucesso, dos primeiros passos ao primeiro diploma, e também o casamento, é como um troféu para nós que os amamos incondicionalmente. Feito isso, nosso comportamento de pais amorosos, unindo a isso nossas vibrações positivas pra vida deles, se torna alimento para sua alma, remédio para seus corações adoecidos e fermento para sua autoestima. Dessa forma, ao oferecermos esse amor, sem restrição, certamente contribuiremos para o desenvolvimento dos nossos filhos em todas as etapas de sua vida rumo à maturidade.
Falar em maturidade nos remete ao autoconhecimento. É necessário que reconheçamos e reflitamos como fomos criados e como isso influenciou nossa visão sobre a parentalidade, nos ajudando a identificar comportamentos ou padrões que desejamos manter ou que desejamos mudar. Quebrar esses padrões, segundo a Psicóloga Lidia Natália D.Weber, pode ajudar a criar um ambiente familiar mais harmonioso, feliz e mais saudável para todos e consequentemente um mundo melhor. E eu, hoje, no lugar também de avó, concordo com ela pois reconheço que a parentalidade envolve adaptação contínua e se colocar aberto a ajustar abordagens conforme as necessidades, tanto como pais, como em sendo avós.
A transgeracionalidade nos provoca, hoje, muitas reflexões e questionamentos, ligados aos valores, comportamentos e exemplos das gerações passadas, se elas são ainda nossas referências, se conseguiremos nos readequar à herança familiar recebida, se foram positivas ou negativas para o que somos hoje, ou teremos que ajustar nossos valores, vivências e padrões familiares ao repassá-los às futuras gerações? Tenho certeza que não teremos respostas prontas, todavia, teremos que fortalecer nossa habilidade de ajustes da nossa herança familiar com a realidade atual sem perder a essência dos valores, das convicções e do nosso papel e responsabilidade em transmiti-los aos nossos filhos.
Reconhecer esses padrões e entender a transgeracionalidade pode ser o primeiro passo para interromper os ciclos negativos e promover uma dinâmica familiar mais saudável e coerente.
Padre Charbornneau afirmou que: “Filhos querem pais que se amem e não apenas pais que os amem”.
E essa realidade vejo claramente na relação dos filhos com os pais em processo de separação. Vivenciar uma realidade diferente, pode gerar traumas que afetarão todos os membros da família e pode se manifestar em problemas emocionais, comportamentais ou de elacionamento nas gerações seguintes.
Segundo Padre Edênio”… A família, apesar de muitos percalços, continua sendo o espaço indispensável no qual nossos filhos e nós próprios podemos aprender a viver de modo autônomo e responsável.”
Para tanto, porém, é necessário transformá-la em um lugar pedagógico consciente do que acontece dentro e fora de seus muros… Cada família é chamada a se tornar um lugar de afeto, pois é lá que nascemos e nos tornamos o que somos, cada um com suas experiências de vida.
A família, assim, assume um papel muito importante no suporte à geração mais velha, protegendo- a do isolamento social e da solidão.
Em seu livro: Vidas Compartilhadas, Paulo de Salles Oliveira, através de vasto trabalho de pesquisa sobre o relacionamento cotidiano, afirma que há um entendimento das relações entregando avós e netos que vivem juntos a partir de uma coeducação de gerações.
“Os avós educam os netos e, ao mesmo tempo, embora de modo diferente, são reeducados por essas crianças.”
A relação entre avós e netos gera uma troca maravilhosa, onde ambos ganham muito.
Enquanto os avós ensinam o que sabem da sua experiência de vida e da história da família, os netos os levam a reviver o passado e, assim, elaborá-lo melhor. Os pais têm de ver isso como uma vantagem da qual toda a família pode se beneficiar, desde que saibam o seu lugar. Os pais, como principais responsáveis pela educação dos filhos, e os avós como colaboradores nesta tarefa.
O diálogo deve ser o norte para que os pais modifiquem suas atitudes quando necessário, e cabe aos avós entenderem que as famílias fundadas por seus filhos são diferentes da que eles construíram. Nesse contexto, pais, filhos, noras, genros e avós devem viver sua própria vida familiar, sem interferências, sem intromissões, mas entendendo cada um o seu papel, aprendendo a conviver apesar das diferenças e se tornando maduros a seu tempo, no exercício pleno dessas experiências interindividuais.
A convivência das gerações significará, sempre analisar atitudes e examinar formas de relacionamento que estarão fortalecidos pelos laços afetivos presentes desde o nascimento dos filhos. Os avós são testemunhas vivas do passado, guardiões das histórias da família e o elo entre as gerações, propiciando sentimento de existência e unindo o passado ao presente.
Maria Conceição de Lima Barbosa – Associada da Escola de Pais do Brasil – Seccional de Alagoinhas-Ba. Professora, Graduada em Letras Vernáculas, Pós-graduada em Metodologia do Ensino Superior, Terapeuta em Constelação Familiar e Holística.
Publicado na 47 Revista da Escola de Pais do Brasil Seccional de Salvador, p. 51-54.
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