Quando ouvimos a palavra escola, muitas imagens que surgem em nossa mente ainda refletem um modelo educacional construído no século XIX: salas de aula organizadas em fileiras, professores explicando conteúdos durante um tempo determinado e alunos escutando em silêncio.
António Nóvoa (2022)[1] descreve esse modelo escolar como um sistema organizado em turmas, disciplinas e horários rígidos, pensado para uma sociedade muito diferente da atual. Entretanto, o mundo mudou profundamente. Hoje, crianças e adolescentes vivem em um ambiente digital conectado, no qual interagem diariamente com vídeos, jogos, redes sociais, aplicativos e plataformas digitais.
Isso levanta uma primeira reflexão importante para pais e educadores:
| Você ainda acredita que seu filho aprende da mesma forma que você aprendeu ou já percebeu que o mundo digital está reconfigurando a maneira como ele aprende, pensa, estuda e se relaciona? |
Essa pergunta não significa que a escola perdeu sua importância. Pelo contrário. Significa que a escola precisa dialogar com uma realidade em que o conhecimento circula em múltiplos ambientes e em diferentes linguagens.
Durante a pandemia de COVID-19, algo inédito aconteceu: a escola entrou dentro das casas. Professores passaram a ensinar por meio de telas e estudantes acompanharam aulas em ambientes domésticos.
Esse período revelou muitas desigualdades. Nem todas as famílias possuíam acesso adequado à internet, equipamentos ou espaços apropriados para estudo. Como destaca Cury (2020)[2], a pandemia escancarou diferenças sociais e desigualdades no acesso às tecnologias digitais.
A pandemia também trouxe uma experiência importante: muitos pais puderam acompanhar mais de perto o cotidiano da aprendizagem de seus filhos. Muitos perceberam que ensinar exige planejamento, mediação, escuta e sensibilidade pedagógica. Talvez pela primeira vez, muitas famílias compreenderam que educar não é uma tarefa simples e que a escola não trabalha sozinha.
Vivemos hoje em uma sociedade profundamente conectada. A internet transformou a forma como produzimos, compartilhamos e consumimos informações.
Segundo Lemos (2003)[3], uma das características da cibercultura é a chamada liberação do polo de emissão: qualquer pessoa pode produzir conteúdo, opinar e participar das redes digitais. Isso muda profundamente a relação com o conhecimento.
Se antes a escola era uma das principais fontes de acesso à informação, hoje crianças e adolescentes encontram respostas em vídeos, redes sociais, jogos e plataformas digitais.
Isso nos leva a uma segunda pergunta essencial:
| Você consegue identificar quando a tecnologia está realmente desenvolvendo habilidades em seus filhos ou, muitas vezes, está confundindo entretenimento com aprendizagem? |
Nem todo uso de tecnologia é educativo. Mas também não é possível ignorar que as tecnologias fazem parte do cotidiano das novas gerações. O desafio não está em escolher entre usar ou proibir tecnologia, mas em educar para o uso consciente, crítico e responsável.
Outro desafio importante da educação contemporânea está relacionado à chamada economia da atenção. Vivemos em um ambiente repleto de estímulos digitais. Vídeos curtos, notificações, jogos, redes sociais e plataformas disputam constantemente a atenção de crianças e adolescentes.
Segundo Martha Gabriel (2023)[4], a atenção tornou-se um dos recursos mais disputados da sociedade digital. Isso significa que o processo educativo precisa desenvolver novas estratégias de engajamento e participação. Exige algo fundamental: educação para o uso equilibrado das tecnologias.
E aqui surge uma terceira reflexão essencial:
| Se escola e família não assumirem juntas a educação digital, quem ensinará nossas crianças a serem críticas, éticas e conscientes em um mundo dominado por telas e algoritmos? |
A escola tem um papel central nesse processo, mas a formação digital das crianças começa muito antes da sala de aula. Começa em casa, nos hábitos digitais, nas conversas sobre internet, nos limites e orientações que as famílias devem estabelecer.
Diante de tantas mudanças, algumas pessoas imaginam que a escola perderá sua importância.
António Nóvoa (2022) argumenta justamente o contrário e eu concordo com ele: a escola continua sendo um espaço fundamental de convivência, formação humana e construção coletiva do conhecimento.
O desafio não é abandonar a escola. O desafio é transformá-la para dialogar com a realidade digital em que vivemos. Isso exige formação de professores, novas metodologias e reflexão pedagógica.
Exige também algo essencial: parceria entre escola e família. Talvez, diante de tantas transformações, a pergunta mais importante para pais e educadores seja esta:
| Estamos preparando nossos filhos apenas para lidar com tecnologias ou para compreender criticamente o mundo que essas tecnologias estão construindo? |
Responder a essa pergunta exige muito mais do que equipamentos ou aplicativos: exige diálogo, responsabilidade compartilhada, educação. Porque educar na era digital não é tarefa apenas da escola.
É um compromisso de todos nós.

Fonte: elaboração própria com apoio de IA generativa (ChatGPT/OpenAI), 2026.
Glaucia da Silva Brito Professora – Dra. Pesquisadora Sênior na Universidade Federal do Paraná atuando no programa de Pós-graduação em Educação (PPGE). Professora Dra. Pesquisadora no Centro Universitário UNINTER atuando no programa de Pós-Graduação em Educação e Novas Tecnologias (PPGENT). Pesquisa os temas Tecnologias na Educação, Educação a Distância, Formação dos professores, Inclusão Digital, Inteligência Artificial na Educação, Tecnologias e currículo. Lider do Grupo de Estudos e Pesquisas Professor, Escolas e Tecnologias Educacionais (GEPPETE). https://orcid.org/0000-0003-3874-4323.
[1] NÓVOA, A.. Escolas e professores. Proteger, transformar, valorizar. Salvador: SEC/IAT, 2022.
[2] CURY, C. R. J. Educação Escolar e Pandemia. In: Pedagogia em Ação, Belo Horizonte, v.13, n. 1 (1 sem. 2020) – ISSN 2175-7003. p. 8-16 Disponível em http://periodicos.pucminas.br/index.php/pedagogiacao/issue/view/1197.
[3] LEMOS, A. Cibercultura: alguns pontos para compreender a nossa época. In: LEMOS, A; CUNHA, P. (Org.). Olhares sobre a cibercultura. Porto Alegre, Sulina, 2003. p. 11-23.
[4] GABRIEL, Martha. Educação na Era Digital: conceitos, estratégias e habilidades. 2.ed. – Barueri ( SP): Atlas, 2023
Faça um comentário