“Os pais podem dar alegria e satisfação para um filho, mas não há como lhe dar felicidade.”
Nos meus escritos para a Escola de Pais, tem sido para mim uma grande fonte de prazer buscar inspiração nos grandes autores eternizados nos anais de nossos congressos, revistas e outras publicações. Para o presente artigo, busquei a luz em autor cujas obras muito admiro, o Dr. Içami Tiba, psiquiatra de renome em todo o Brasil, já falecido, que nos brindou em São Paulo com participações em vários congressos e no livro “Quem ama educa” onde dá um show, lições de “Educação” inesquecíveis… e lá, já abre o show com o ideograma oriental que significa “Felicidade”, e nos diz: “Os pais podem dar alegria e satisfação para um filho, mas não há como lhe dar felicidade. Os pais podem aliviar sofrimentos enchendo-o de presentes, mas não há como lhe comprar felicidade. Os pais podem ser muito bem-sucedidos e felizes, mas não há como lhe emprestar felicidade. Mas os pais podem aos filhos dar muito amor, carinho e respeito. Ensinar tolerância, solidariedade e cidadania. Exigir reciprocidade, disciplina e religiosidade, reforçar a ética e a preservação da Terra. Pois é de tudo isso que se compõe a autoestima. É sobre a autoestima que repousa a alma, e é nesta paz que reside a felicidade”.
E foi lembrando um texto que me pareceu maravilhoso e precioso (de um autor que desconheço), Frei Agostinho, que busquei inspiração para o sentido da dor de educar um adolescente.
Educar um adolescente é bem diferente da criança que ele foi, aquela que te imitava, admirava e aprendia tudo ao redor pelo simples fato de tudo observar e captar, sem juízo crítico. O adolescente é um crítico mordaz, porque tem opções de aprendizado, já conhece outros educadores, outros modelos, faz comparações muito embora te ame e respeite e/ou tema e sofra. É uma cabeça em rebuliço, busca se encontrar, te compreender, e você… sobrevive diante desse “padecer no paraíso”. E tomei, neste enlevo, a liberdade de dar seguimento em minha reflexão:
Nós, mães e pais, às vezes, nos vemos como que em uma “sinuca de bico”, quando, em nosso íntimo, somos assaltados pela dúvida ou insegurança, medo mesmo sobre a certeza de nossas escolhas para a educação dos nossos adolescentes, eles são difíceis, e nós tão humanos ainda, tão carentes de amparo… Não nos consideramos donos da verdade, mas os embates sempre nos estremecem nos papéis de liderança da família, de educadores e, provedores não só do viver bem, mas da saúde mental e harmonia familiar. Por mais que sejamos emocionalmente equilibrados, “resolvidos mesmo no controle emocional” e sempre inspirados; na prática, somos sinceros, bem-intencionados, generosos, mas temos nossos conflitos, cansaços, dores físicas e emocionais, necessidades afetivas com inseguranças e vaidades: nossa humanidade…
Atrás de nossos personagens de educadores existem nossas inquietações silenciosas, sempre o medo de não sermos bons o suficiente como mães e pais e sempre carentes de serenidade, disciplina, sofrendo a dúvida diante de incoerências que vemos em nosso agir fugindo do nosso ideal ou da esperada aprovação dos filhos. Temos que reconhecer e acolher os filhos, mas sempre esperamos o acolhimento das nossas inseguranças ou pelo menos a concordância com nossos bons propósitos.
Outro fantasma que assola as nossas consciências pode ser a culpa, por não termos uma relação mais aberta (conexão) com os filhos, que nos permitiria a confidência deles, ou a tranquilidade de poder confiar (sempre queremos que confiem em nós e nem sempre nos mostramos confiáveis). E temos medo de não corresponderem à expectativa que criamos sobre eles. Temos medo de falar algo errado, de sermos criticados, de sermos julgados e pior, há um sofrimento muito silencioso que poucos percebem: o medo de perder o sentido de vivência familiar. Porque existem educadores que começaram movidos por amor, inspiração e encantamento, mas ao longo do tempo, mergulharam tanto em obrigações, conflitos humanos, rotinas, que já não conseguem mais sentir a mesma alegria inicial. Continuam educando, mas cansados emocionalmente. Fazem por dever aquilo que antes faziam por amor espontâneo. Nos perguntamos: será que meu filho me aceita como sou, esta mãe, este pai aprendiz? Porque, apesar de externarmos amor, misericórdia e acolhimento, muitos, ainda vivemos tentando merecer amor através do desempenho parental, muitos, frequentemente, agindo como se fôssemos mestres perfeitos do tipo “donos da verdade”.
Talvez o grande aprendizado dos pais não seja parecer perfeito, talvez seja aprender a educar sem deixar de reconhecer a própria humanidade. E a Escola de Pais do Brasil oferece esta oportunidade…
Porque um “LAR” não é um repositório de pessoas prontas para a vida, é um educandário de consciências em experiência mútua de evolução, e quando o educador entende isso, ele começa a substituir a culpa pela sinceridade, a cobrança pelo amadurecimento, a aparência pela verdade, e o medo de não ser suficiente pela coragem humilde de continuar caminhando, mesmo em sua vulnerabilidade.
O sentido para a delícia de educar um adolescente, busquei na memória de meu passado de pai e avô muito apaixonado pela família e bem-amado por eles… também me vali dos 37 anos de carreira no voluntariado na Escola de Pais do Brasil, coordenando círculos de pais e outras atividades que me ensinaram muito e encheram meu coração de alegrias, muitos momentos felizes. Também na reavaliação de todo um passado em que antes, em dupla harmônica, buscávamos solidificar o valor da família; hoje a viuvez me faz encarar a tarefa em “solo”, mas buscando a presença adorável dos meus entes queridos como um bálsamo e estímulo, e os netos adolescentes são “a felicidade”.
Entre as delícias mais tocantes da educação do adolescente, está a oportunidade de reviver, de retornar aos sonhos adolescentes e juvenis, vívidos naquela fonte de inocência e energia que vemos à nossa frente: quantos sonhos vividos e vemos repetir o enredo, com novos atores, novos contextos, novos tempos, mas a mesma emoção, o mesmo sonhar. E assistimos, agora, a um espetáculo diferente, construído em uma conexão mais verdadeira; estar na plateia e ver o palco da vida rebrilhar com o fruto de nosso amor se impondo, mostrando ao mundo o resultado das muitas esperanças que colecionamos ao longo da vida desta criança que ontem era bebê no calor de nosso peito e agora se mostra como esperança de futuro do mundo que também ajudamos a construir.
Chegada a adolescência e nos vemos prontos a assumir a nova missão, educar o filho, com os muitos desafios de encontrar nele um argumentador espertíssimo, que nos testa o tempo todo, questiona, mas nos permite, juntos, construir ou reconstruir aquele caminho que na infância e na meninice em muitos casos lançamos sombras em sua autoestima por não termos tido a sensibilidade de acatar a sua carência de maturidade, a sua dor de perda da infância e medo da nova condição de ser. E esta é a sagrada oportunidade de reparar, de refazer o caminho com novas luzes a nos amparar.
As nossas dores e culpas não nos permitiram enxergar, durante algum tempo estas delícias de ver o resultado do amor; estivemos trabalhando na infância e meninice, acolhendo as dores e ajustes à vida de uma criança, e construindo a meninice e pré-adolescência, desde sempre protegendo a autoestima dos nossos pequenos para que pudessem adolescer na autonomia com segurança e autoconfiança.
E posso concluir estas linhas lembrando aos que tiveram a paciência de concluir esta leitura, que apesar de saber que a felicidade está dentro de nós, em nossa consciência do bem-feito, a delícia de educar um adolescente está principalmente em ver crescer diante dos olhos e do coração um futuro cidadão que, com certeza, mostrará ao mundo todo o valor que aprendeu com os pais e conduzirá à sociedade, na construção daquele mundo melhor, o “belo sonho que vem dos antepassados”.
Clélio Oliveira de Souza – Engenheiro aposentado, pai e avô, há 37 anos na Escola de Pais do Brasil.
Publicado na 47 Revista da Escola de Pais do Brasil Seccional de Salvador, p. 20-22.
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