Atualmente, a Inteligência Artificial, ou sua abreviação IA, está na boca do povo. Alunos, professores e pais estão constantemente preocupados em relação a esta que muitos autores apontam como sendo mais uma revolução, tão grande ou maior do que as revoluções industriais ocorridas no século XIX. Mas o que são as IAs? Como elas funcionam?
Primeiramente é interessante destacar que as Inteligências Artificiais são compostas de algoritmos. E o que são algoritmos? Alan Turing, o grande matemático inglês que mudou os rumos da Segunda Guerra Mundial explica os algoritmos como um conjunto não ambíguo e ordenado de passos executáveis que definem um processo finito, ou seja, um conjunto de regras e procedimentos lógicos perfeitamente definidos que levam à solução de um problema em um número determinado de etapas. Todos os programas de computador ou de celular são feitos de algoritmos, que são as instruções necessárias para seu funcionamento. Como as Inteligências Artificiais são programas de computador, elas também operam por meio de algoritmos. Ou seja, nem todo algoritmo é uma inteligência artificial. Mas toda inteligência artificial é composta de algoritmos.
Assim, podemos dizer que, composta por uma quantidade gigantesca de algoritmos, uma Inteligência Artificial é um tipo de programa que aprende sem a interferência humana. Daí o nome “inteligência”. As IAs são tecnologias projetadas para aprender e obter resultados de maneira semelhante ao cérebro humano, ou pelo menos inspirada nele. O objetivo é resolver problemas complexos, automatizar processos e tomar decisões.
As IAs estão presentes há anos em diversas atividades humanas, sobretudo dentro de fábricas e grandes empresas. Mas, desde novembro de 2022, com o lançamento do ChatGPT pela empresa norte-americana OpenAI, as pessoas “comuns” passaram a ter acesso a um tipo de inteligência artificial que “conversa” com elas e é capaz de gerar respostas de diversas formas (texto, imagem, vídeo, voz etc.). Daí o nome Generativa, ou Inteligência Artificial Generativa.
É a partir deste momento que ela passa a interferir mais fortemente em nosso cotidiano e afetar a área que pretendemos falar neste texto: a educação.
Não há dúvidas que a IA, quando bem utilizada, pode auxiliar de forma contundente as pessoas em suas tarefas cotidianas ou em seus trabalhos. Não é difícil imaginar um advogado que recorre à IA para que ela elabore um texto mais coerente ou um arquiteto que utilize uma inteligência artificial para elaborar dois ou três exemplos acerca de uma ideia pensada por ele. Assim como não é preciso muita imaginação para pensar em um vendedor, um contador ou um jornalista utilizando as IAs generativas em seus trabalhos.
Mas todas as facilidades que as IAs apresentam podem se transformar em um grande revés quando pensamos na educação. Afinal, a educação pretende formar um sujeito melhor. A formação intelectual do sujeito é aquilo que ele tem de mais caro, é o que o distingue dos demais humanos neste planeta.
E muitas pessoas, não por maldade, preguiça ou falta de motivação, acabam deixando de aprender por utilizar a Inteligência Artificial para realizar trabalhos cuja função era promover o aprendizado. Há, no Brasil e no mundo, uma ideia recorrente de que um trabalho escolar é algo que precisa ser entregue e apenas isso. Poucas vezes se refletem as razões pelas quais aquele trabalho foi pedido pelo professor. Um trabalho escolar sempre tem a intenção de que o aluno aprenda algo. A equipe pedagógica prepara um trabalho cuja função é despertar ou promover algum conhecimento no estudante. Se o aluno simplesmente pede para uma IA fazer o trabalho para ele, o que este aluno está aprendendo?
E este é o principal problema envolvendo o uso das Inteligências Artificiais Generativas com estudantes, sobremaneira os mais jovens, que ainda não têm capacidade crítica para compreender o que aquela tarefa tem como missão. Se a tarefa é realizada por alguém que não seja o aluno, este não vai aprender nada. É mais ou menos quando os pais fazem as tarefas para os alunos. Eles estão “enganando” o professor, mas quem sai perdendo é o aluno. Porque um trabalho escolar não é apenas um trabalho que tem que ser entregue. É um momento de reflexão. Só existe aprendizado quando existe uma reflexão sobre o tema. E esta reflexão não é transferível, ou seja, um indivíduo não pode aprender por outro. Por isso, utilizar uma IA para realizar um trabalho não trará conhecimento algum.
Há, porém, algumas ressalvas. Quando a IA é utilizada para o diálogo, tal qual a maiêutica socrática, no qual o aluno desenvolve um diálogo com a Inteligência Artificial, esta pode ser extremamente útil. Muito conhecimento pode ser desenvolvido pelo estudante, desde que a ferramenta da IA seja utilizada para dialogar e ajudar a construir o conhecimento. Se o aluno conseguir perguntar, indagar e descobrir novas e instigantes informações, pode construir um conhecimento mais sólido e mais desenvolvido do que com um professor que está assoberbado de coisas para fazer. Uma IA na palma da mão pode fazer com que um aluno desenvolva mais e mais seus conhecimentos, o que seria algo extremamente benéfico.
Eticamente falando, é interessante destacar que o bom estudante pode sim utilizar IA, desde que da forma apresentada anteriormente. E desde que informe ao leitor (seu professor) que utilizou a IA para este ou aquele fim. Um trabalho escolar eticamente construído com uma inteligência artificial informa ao professor qual ferramenta foi utilizada e como.
De qualquer modo, não podemos nos furtar da ideia de que as Inteligências Artificiais estão entre nós. E não será fácil e nem desejável tirá-las do nosso cotidiano. Por isso mesmo precisamos ensinar nossos estudantes como utilizá-las de forma ética e inteligente, para que o objetivo maior seja alcançado, ou seja, o conhecimento cada vez maior de cada um de nossos alunos.
REFERÊNCIAS
SANTOS, Rodrigo Otávio dos. Redes Sociais Digitais na Educação Brasileira: seus perigos e suas possibilidades. São Paulo: Artesanato Educacional, 2022.
FAVA, Rui. IA generativa na aprendizagem. Campinas: Vozes, 2025.
Rodrigo Otávio dos Santos – E-mail: rodrigoscama@gmail.com – Pós-doutor em saúde mental pela UFRJ; Pós-doutor em Tecnologia e sociedade pela UTFPR; Doutor em História pela UFPR; Mestre em Tecnologia pela UTFPR; Pós-graduado em Comunicação Social e Novas Tecnologias; Graduado em História pela UFPR; Professor do Programa de Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado Profissionais) em Educação e Novas Tecnologias (PPGENT) do Centro Universitário Uninter.
Publicado na 62. Revista do Congresso Nacional da Escola de Pais do Brasil – junho 2026 – p. 14-15.
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