Sem amor por si mesmo, o amor pelos outros também não é possível

“Sem amor por si mesmo, o amor pelos outros também não é possível”   (Hermann Hesse)

O amor está contido no ato de cuidar. No ciclo da vida, cuidamos e somos cuidados continuamente para mantermos a humanidade em evolução. Cuidamos de várias maneiras, de muitas coisas e ao mesmo tempo: filhos, pais, netos, animais, plantas, casa, trabalho, relações afetivas, amizades, sempre buscando oferecer o nosso melhor.

Sabemos, por estudos ou por experiência de vida, que a ação de cuidar, por mais penosa que possa ser em alguns momentos da vida, é tida como mais confortável do que se deixar cuidar. A maior parte das pessoas sabe dar, mas não sabe receber; sabe cuidar dos outros, mas esquece de cuidar de si mesma. Nossa educação familiar, escolar e social traz ensinamentos judaico-cristãos que aumentam a dificuldade de pensar em nós. Fomos ensinados que para sermos felizes e alcançarmos nosso bem-estar devemos servir e doar. Relembremos as bem-aventuranças (Mateus, 5) e partes da linda oração de São Francisco.

Nada contra esses ensinamentos que ajudaram e moldar nosso caráter; citei-os para relembrar que não fomos ensinados a olhar para o outro lado da moeda, o lado que nos torna responsáveis pelo nosso corpo e nossos sentimentos, o lado que privilegia nossas emoções, que, por vezes, gritam por atenção, que necessita ser olhado com carinho e atenção, que gosta de ser elogiado e anseia por um colo, qualquer que seja a idade em que nos encontremos – o lado das nossas necessidades ou dos nossos desejos.

Durante nossa busca por força e bondade, aprendemos a cuidar dos outros e nos esquecemos de nós, de nos cuidar, de como pedir ou aceitar cuidados. Medimos nosso bem-estar pelo quanto nos doamos ou o quanto cuidamos do bem-estar do outro. Tal afirmação é referendada por uma pesquisa feita pela Harvard Business School, traduzida livremente por Gastos pró-sociais e bem-estar: evidência intercultural de uma psicologia universal (Prosocial Spending and Well-Being: Cross-Cultural Evidence for a Psychological Universal), que identifica que uma recompensa experimentada ao ajudar os outros  garante às pessoas, independentemente de sua origem e condição socioeconômica e cultural, níveis mais elevados de emoções positivas.

A ação de cuidar pode ocorrer por vontade própria (como o engajamento em um trabalho voluntário) ou por imposições da vida, quando nos vemos responsáveis únicos e diretos pelos cuidados de alguém enfermo, por exemplo. As duas situações exigem atenção a sutilezas para não causar problemas maiores: no primeiro caso, a pessoa se doa além do necessário a esse trabalho e só assim sente sua importância aumentada; no segundo, pela amargura que acaba por envolver o cuidador.

Pessoas envolvidas em ações de ajuda aos outros, por vontade própria ou por contingências da vida, não percebem o significado total do maior ensinamento deixado por Jesus: Ame o seu próximo como a si mesmo”. Para poder amar o outro, eu preciso me amar

A saúde emocional, relacionada ao bem-estar psicológico, precisa ser cuidada a cada momento da vida. Adultos que trazem sofrimentos e carências na alma podem ressignificar dores e mágoas quando as transformam em sensibilidade e competência, quando trazem empatia para seus relacionamentos. Podemos amar porque fomos amados, mas também podemos amar porque sentimos a dor de não termos sido amados: a carência gera competência!

Cuidar de si é sentir-se cada vez melhor em relação a si mesmo e nas relações com os outros, é aprender a controlar sentimentos e emoções, a conviver e enfrentar dificuldades, é exorcizar tudo aquilo que nos impede de evoluir como seres humanos.

Cuidadores em geral necessitam da prática do autocuidado, de auto maternagem, de generosidade para consigo para poder usufruir, sem culpa, de uma vida plena. Nem sempre enxergam o óbvio.

Algumas perguntas indicam a necessidade de mudanças antes que cuidadores adoeçam fisicamente e/ou emocionalmente: “Consigo dizer não?”,  “Sei diferenciar situações em que não sou obrigado a…?”, “Sei respeitar o outro ou fico muito incomodado quando alguém lida com uma situação de maneira diferente do que eu faria ou gostaria?”, “Consigo reconhecer e ficar feliz com pequenas coisas do meu dia a dia?”, “Agradeço por elas?”, “Se estou triste, me permito acolher e expressar esse sentimento?”, “Se precisar, aceito ajuda?”, “Sei me mimar?”, “Consigo comprar aquele batom ou aquele objeto com o qual sonho, sem que seja necessário?”, “Tenho momentos para escolher ficar só ou sair com amigos?”, “Eu sei perdoar?”, “Consigo me perdoar?”.

A necessidade do autoconhecimento, de nos mantermos alertas e flexíveis, nos remete a outro grande ensinamento de Jesus: “Orai e Vigiai”.  Antes de olhar para o outro, olhe para você! Ore por você! Fique atento às suas necessidades para a sua evolução. Somente quando estamos inteiros, na busca de crescer e de melhorar a cada dia, quando estamos de bem com a vida, que podemos cuidar do outro com leveza, amor e generosidade. Esse é o cuidar que faz bem aos cuidadores e a quem é cuidado.

Regina Célia Simões de Mathis

Terapeuta de casal e de família, é membro do Conselho da EPB E-mail: ceduc@gmail.com

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