É a conexão, o estar junto, unido, ligado, que constituiu o homem como um ser social, com capacidades que só ele tem para estabelecer uma aliança concreta com os outros às vistas da pedagogia do olhar, da presença e do diálogo, com afetividade, superando as limitações e as fragilidades da desconexão humana, do viver solitário, distante, alienado e descuidado.
As marcas da modernidade, repleta de artefatos tecnológicos, não ficam somente no corpo e na mente. As relações humanas também têm sido moldadas com a mediação dos recursos digitais de comunicação disponíveis, e condicionadas ao distanciamento e à superficialidade, com evidente prejuízo e desarmonia para o convívio e a conexão entre pessoas de todas as idades, nos variados espaços: na família, na escola, no hospital, no restaurante, no trânsito, na praça, na fábrica, entre outros.
A todo o momento, as pessoas estão submetidas a interpelações do mundo tecnologizado que provocam respostas comportamentais e emocionais e emolduram atitudes que produzem uma fragilidade nas comunicações e nas relações humanas, como nunca visto na história da humanidade.
Assim, não somente estudiosos das ciências da saúde, da estrutura bioquímica do corpo e do comportamento humano estão analisando criticamente o fenômeno da interação homem-máquina e os resultados da comunicação humana na era digital, mas também, tomados por alto grau de análise e de reflexão, os estudiosos das ciências humanas, como filósofos e sociólogos, têm observado os aspectos sociais da modernidade tecnologizada.
É cada vez mais difícil desenvolver a alteridade e a empatia numa sociedade digitalizada, com predomínio de conexões mediadas por dispositivos tecnológicos, comumente desprovida de uma comunicação humana permeada pelo respeito, com atenção e tempo suficientes para um convívio saudável e carinhoso, pois sobressai a comunicação rápida e superficial nas relações humanas severamente frágeis e inconsistentes, carentes de uma escuta ativa e compassiva.
Dominique Wolton, sociólogo Francês que reflete sobre o fenômeno da comunicação, denominou esta conexão moderna que facilita a interação e a expressão instantânea de dados e informações como “comunicação técnica” – aquela dos computadores e celulares, que tem substituído a “comunicação humana” que requer tempo, dedicação e vigilância constante e consciente. Wolton reafirma que “a comunicação é mais importante para a identidade humana” do que a circulação livre de informações, facilitada pelos dispositivos tecnológicos.
Por mais que uma pessoa esteja a todo momento e em todos os lugares, debruçada em uma tela digital, utilizando aparelhos tecnológicos para busca, troca e divulgação de informações, tal condição, por si só, não lhe garante uma experiência humana dignificante, pautada no bem-estar, na convivência harmoniosa e no cuidado de si e dos outros.
Para o ser humano preservar sua dignidade inerentemente social, precisa (re)aprender a se conectar e se comunicar consigo mesmo e com as outras pessoas de forma real, com afetividade até mesmo em meio ao grande repertório disponível de tecnologias de informação e comunicação disponíveis por meio de telas, em que prepondera a cultura da indiferença em relação à realidade individual e social.
As pessoas precisam também assumir o protagonismo da sua história e se tornarem conscientes das consequências do uso e do consumo ingênuo das mercadorias tecnologizadas, se resguardando da condição programada de meros receptores de dados e informações, que as mantém em condições ideais para manipulação e alienação.
Com isso, devemos acionar circuitos do cérebro que proporcionam bem-estar e sentido para a vida, como os sentidos da empatia, da alteridade, da generosidade, da solidariedade e da compaixão que impulsionam o agir para diminuir o sofrimento do outro e refletem no potencializar do amor-próprio.
Para Dominique Wolton, deve-se desconfiar da “multiconexão”, é preciso equilibrar a comunicação humana com relação à comunicação técnica e, revalorizar a comunicação enquanto relação entre as pessoas para que possamos salvá-la. E, como “revalorizar e salvar” a comunicação humana num contexto altamente repleto de tecnologias digitais, de modo a fortalecer os vínculos, resgatar afetos e aproximar o coração do que realmente importa para a dignidade humana e social?
Aproveitando as oportunidades de interação humana e laços sociais legítimos, principalmente na entidade social historicamente constituída, a “família”, ao criar espaços de proteção e cuidado no seu interior, de uns para com os outros, valorizando os vínculos socioemocionais e aplicando os conceitos inerentes à educação digital consciente pautada no equilíbrio offline-online.
Eis o desafio do nosso tempo!
Referência
WOLTON, Dominique, Internet, e depois?: Uma teoria crítica das novas mídias, Editora Sulina; 3ª edição, 2012.
Cineiva Campoli Tono – Doutora em Tecnologia e Sociedade, presidente do Instituto de Tecnologia e Dignidade humana. E-mail: cineivaton@gmail.com
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