Uma mãe insiste para que a filha faça faculdade de medicina. A filha desenha desde os quatro anos e nunca demonstrou o menor interesse pela área da saúde. A mãe, no entanto, não vê isso como imposição: vê como “cuidado”, como “abrir portas que ela não teve”. Um pai, por sua vez, cobra do filho de sete anos uma postura competitiva no esporte que ele próprio jamais conseguiu manter. Nenhum dos dois percebe que está pedindo ao filho que realize algo que eles próprios não conseguiram, décadas antes de ele nascer.
Cada pessoa terá uma resposta diferente sobre o que essas escolhas significam para si. Mas vale a pergunta que raramente se faz a esses pais: se eles próprios não tivessem sido levados a seguir o caminho que os adultos de sua época escolheram por eles, ou se pudessem escolher aquilo que gostariam de ter feito, teriam sido mais felizes?
Esse tipo de situação se repete em consultórios, salas de aula e mesas de jantar com uma frequência que deveria nos incomodar mais do que incomoda. A pergunta que geralmente se faz é: por que os pais fazem tantas exigências sobre os filhos? Mas essa pergunta, feita assim, ainda coloca o filho no centro da equação, como se a resposta estivesse em algo que ele é ou deixa de ser. A pergunta mais honesta que deveria ser feita é outra: por que esperamos que nossos filhos sejam quem nós não fomos?
A expectativa como projeção, não como profecia
Em meados dos anos 70, a psicanalista Selma Fraiberg descreveu o fenômeno em que um adulto revive, através do filho, conflitos e desejos não resolvidos de sua própria infância, e nomeou como “fantasmas no quarto do bebê” — padrões relacionais da própria história que se instalam, sem convite, na relação com a criança. O conceito nasceu da observação clínica de mães e pais que repetiam, com os filhos, exatamente aquilo que haviam jurado nunca repetir.
Há, porém, uma distinção importante que vale a pena resgatar, porque ela evita uma simplificação do assunto: a frase “quero algo melhor para o meu filho do que o que eu tive” quase nunca é o problema. Na maioria das vezes, é justamente o que impede os pais de repetirem com os filhos aquilo que sofreram na própria infância ou adolescência, funcionando como uma proteção contra a própria dor não resolvida. O que diferenciava as famílias em que a história realmente se repetia, segundo Fraiberg, não era o tamanho da dor vivida na infância ou na adolescência dos pais, mas sim se essa dor tinha sido sentida e lembrada de verdade, ou apenas registrada como fato, sem o sentimento correspondente. Em outras palavras: o desejo de querer dar ao filho o que não se teve, só se transforma em expectativa projetada e uma cobrança disfarçada quando a dor que originou esse desejo nunca foi verdadeiramente sentida pelo adulto que a carrega.
Essa percepção não é exclusiva da psicanálise. A Teoria do Apego, desenvolvida por John Bowlby e depois testada por Mary Ainsworth, mostram que os modelos internos de relação que um adulto carrega – formados na própria infância – moldam a forma como ele se relaciona com um filho, mesmo sem que ele perceba. O adulto, na grande maioria das vezes, não decide conscientemente repetir um padrão; ele o repete porque esse padrão emocional é a base com que aprendeu a se relacionar e a sentir.
Diariamente, identifico em consultas de orientação à pais que famílias transmitem, de geração em geração, não apenas traços e valores, mas níveis de ansiedade, padrões de identidade e expectativas nunca resolvidas. Um pai ou uma mãe com dificuldade de distinguir seus próprios sentimentos e necessidades dos sentimentos e necessidades do outro tende a enxergar o filho não como uma pessoa separada, mas como uma extensão de si mesmo.
É exatamente esse ponto que a literatura clínica sobre biografia humana descreve como um contrato invisível: um acordo não dito, que começa antes mesmo do nascimento da criança, dando ao filho papéis, funções e reparações que pertencem à história dos pais e dos avós. É o que Laura Gutman, em sua proposta de Biografia Humana, descreve ao afirmar que os filhos frequentemente ocupam, no imaginário dos pais, o lugar daquilo que os próprios pais não puderam ser, ter ou realizar. A linguagem muda, mas o fenômeno observado é sempre o mesmo.
O corpo que carrega o que a mente não resolveu
Um dos pontos mais discutidos por Bruce Lipton em seu livro “A Biologia da Crença” é a ideia de que crenças e emoções mal ou não resolvidas não ficam confinadas à mente – elas se expressam no corpo e no ambiente que criamos ao redor de quem está em formação, ou seja, da criança. Essa hipótese, ainda que debatida dentro da biologia e merecedora de leitura crítica, conversa com um achado mais consensual da literatura sobre desenvolvimento infantil: crianças são extraordinariamente sensíveis ao estado emocional dos adultos ao seu redor, mesmo quando nada é dito em voz alta. Não é preciso verbalizar uma expectativa para que ela seja sentida, absorvida e, eventualmente, vivida pela criança como se fosse dela.
Isso ajuda a explicar por que tantos pais, ao buscarem orientação, dizem, sinceramente, “eu nunca falei isso para o meu filho” ou “eu jamais vou exigir que meu filho faça nada que o deixe infeliz” – e eles têm razão. A expectativa raramente é dita. Ela é respirada. Está no tom de decepção quando a criança escolhe outro caminho, no elogio desproporcional quando ela confirma o que se esperava dela, ou no silêncio quando ela apenas é quem é, sem cumprir função alguma.
De onde vem tudo o que cobramos dos nossos filhos
Se a expectativa não nasce do filho, de onde ela vem? A resposta, sustentada tanto pela literatura acadêmica quanto por abordagens clínicas, apontam na mesma direção: a de que a expectativa nasce de uma lacuna. Algo que o adulto não teve, não pôde ser ou perdeu e que passou a existir, na psique, como uma tarefa pendente. Diante de um filho – alguém em quem se pode, teoricamente, intervir e formar – essa tarefa pendente ganha um novo candidato a concluí-la.
O cerne da questão não é querer o melhor para o filho. É que, com frequência, o que é chamado de “desejo pelo filho” é, na verdade, o desejo do próprio pai ou da própria mãe, projetado sobre uma pessoa que ainda não teve chance de dizer ou de mostrar quem é. E a criança se torna palco de uma reparação que não lhe pertence.
O que a prática clínica confirma
Essa dinâmica não aparece só na teoria. Arlete das Graças Torri e Inês Meneguzzi, no livro clínico “Educando sem Segredos: Resolvendo Conflitos”, descrevem um padrão recorrente em consultório: pais rígidos e críticos que exigem dos filhos o cumprimento de um ideal em tudo o que fazem, sentem ou são. E como esse ideal é, por definição, inatingível, a criança acaba assumindo um papel perfeccionista que invalida seus próprios sentimentos e suas ações espontâneas. Ou seja, o desejo dos pais pela perfeição dos filhos apaga a criança de si mesma. Sem espaço para errar, a criança aprende a internalizar a crítica que antes vinha de fora, e passa a vigiar a si mesma com o mesmo rigor que provinha dos pais.
Quando os desejos dos pais ultrapassam a autonomia crescente do filho, o que está sendo priorizado deixa de ser o bem-estar da criança e passa a ser o atendimento da expectativa parental. Dificilmente um pai chega para uma orientação parental dizendo ‘quero que meu filho realize tudo aquilo que não realizei’ – mas é isso que aparece, indiretamente, na maioria das sessões. Já o adolescente, quando é escutado, a queixa mais recorrente é a projeção, sobre ele, de um sonho, seja ele profissional ou pessoal, que o próprio pai ou mãe não conseguiram realizar – exatamente o mecanismo descrito inicialmente neste artigo, agora confirmado pela prática clínica cotidiana, tanto minha quanto dos autores citados.
É importante aqui destacar, que existem várias expectativas que pouco são ditas no dia a dia, mas que tendem a enfrentar obstáculos inconscientes na vida futura da criança. E essas expectativas acontecem antes mesmo do nascimento: expectativas frustradas na gestação e no parto, o desejo por um filho de outro sexo, um sonho profissional adiado, uma depressão pósparto não acolhida, entre outros, comprometem o vínculo afetivo inicial entre os pais e a criança. Portanto, o contrato invisível começa a ser redigido antes da criança ter voz para recusá-lo.
A diferença entre desejar o bem e cobrar uma reparação
Reconhecer a origem da expectativa não elimina o desejo de que o filho tenha uma vida boa – e não é esse o convite para a reflexão aqui. O convite é distinguir entre dois movimentos que costumam se confundir. Um é desejar o bem do filho: movimento esse que olha a criança como ela é. O outro é esperar que o próprio filho resolva algo que ficou pendente em nós: nesse caso, ele vira espelho de uma frustração que não é dele.
Essa diferença, ainda que pareça sutil na teoria, tem consequências concretas na vida real. A literatura sobre apego mostra que crianças que crescem sentindo que são amadas por quem são – e não pelo papel ou expectativas que cumprem – desenvolvem modelos internos mais seguros de si mesmas e do mundo. Já crianças que sentem, mesmo sem que ninguém verbalize, que precisam ser algo específico para merecer aprovação, tendem a desenvolver uma identidade construída em função do olhar do outro, e não da própria experiência interna.
Essa dinâmica costuma ficar mais visível não durante a infância, mas décadas depois — quando o filho já é adulto. É nessa fase que a expectativa não resolvida se transforma em conflito aberto: disputas sobre a escolha de carreira que “desperdiçou” um investimento familiar, ressentimentos em torno de heranças e negócios de família, ou rupturas de convívio que, à primeira vista, parecem ser sobre um desentendimento pontual, mas na verdade carregam décadas de uma expectativa parental nunca colocada em palavras.
Essa necessidade raramente é verbalizada com todas as letras, mas seus efeitos aparecem de forma indireta na maioria dos conflitos entre pais e filhos adultos. Reconhecer isso não resolve o conflito sozinho, mas muda a pergunta que fazemos sobre ele. Em vez de “quem está certo sobre a carreira que meu filho escolheu’, a pergunta passa a ser: ‘que necessidade não resolvida essa cobrança está tentando proteger em mim?”. Sendo assim, a pergunta que dá título a este artigo precisa ser feita com regularidade e genuinamente: Por que esperamos que nossos filhos sejam quem nós não fomos?
A resposta é simples de enunciar e difícil de sustentar, afinal, ainda carregamos, sem conseguir nomear, o que ficou por realizar em nós. Enquanto essa lacuna não for reconhecida e encarada como nossa – e não delegada a quem vem depois de nós – continuaremos, com a melhor das intenções, pedindo à outra pessoa que resolva algo que só a nós pertence.
Referências
Ainsworth, M. D. S., Blehar, M. C., Waters, E., & Wall, S. (1978). Patterns of Attachment: A Psychological Study of the Strange Situation. Erlbaum.
Bowlby, J. (1969). Attachment and Loss, Vol. 1: Attachment. Basic Books.
Fraiberg, S., Adelson, E., & Shapiro, V. (1975). Ghosts in the nursery: A psychoanalytic approach to the problems of impaired infant-mother relationships. Journal of the American Academy of Child Psychiatry, 14(3), 387–421.
Gutman, L. (2018). A Biografia Humana: Como a história de nossa concepção, gestação e parto marca nossa vida. Aleph.
Lipton, B. H. (2005). The Biology of Belief: Unleashing the Power of Consciousness, Matter and Miracles. Mountain of Love/Elite Books.
Torri, A. das G., & Meneguzzi, I. (2024). Educando sem Segredos: Resolvendo Conflitos — Guia Prático para Pais, Professores e Profissionais (1ª ed.). Editora Ellus.
Paola Ronconi Peixoto – Bacharel em Direito, Pós-Graduada em Mediação e Conciliação de Conflitos e Pós-Graduada em Orientação Parental, com formação complementar em Parapsicologia Clínica e Hipnoterapia.
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