(Prós e contras do acesso digital na infância e na adolescência)
Educar para o uso consciente das telas é, hoje, uma das competências mais importantes da educação contemporânea. Afinal, proteger crianças e adolescentes não significa desconectá-los do mundo, mas ensiná-los a navegar nele com autonomia, segurança e responsabilidade.
Nunca uma geração esteve tão conectada quanto a atual. Celulares, tablets, computadores e videogames fazem parte da rotina de crianças e adolescentes desde os primeiros anos de vida. A internet tornou-se espaço de estudo, entretenimento, socialização e construção de identidade. Ao mesmo tempo em que amplia oportunidades, também traz desafios importantes para famílias, escolas e sociedade.
No Brasil, a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, do Cec.br, mostra que a internet está presente na vida da grande maioria das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos. As atividades mais frequentes incluem assistir vídeos, utilizar redes sociais, conversar por aplicativos de mensagens, jogar on-line, ouvir músicas, pesquisar para trabalhos escolares e acompanhar influenciadores digitais. Além disso, cresce o uso de ferramentas de inteligência artificial e plataformas educacionais.
Entretanto, a forma como esse tempo é utilizado merece atenção. Estudos indicam que boa parte das horas conectadas é dedicada ao entretenimento, especialmente vídeos curtos, redes sociais e jogos eletrônicos. Esses ambientes são cuidadosamente projetados para manter o usuário conectado pelo maior tempo possível, utilizando mecanismos como rolagem infinita, reprodução automática de vídeos e notificações constantes.
O lado positivo da conexão digital
Seria um equívoco considerar a tecnologia apenas como um problema. Quando utilizada com propósito, ela oferece benefícios importantes para o desenvolvimento infantil e juvenil. Entre eles destacam-se:
– Acesso rápido à informação e ao conhecimento;
– Desenvolvimento da alfabetização digital;
– Estímulo à criatividade por meio da produção de vídeos, textos, imagens e programação;
– Fortalecimento da comunicação entre familiares, colegas e professores;
– Acesso aos recursos educacionais, museus virtuais, simuladores, cursos e laboratórios digitais;
– Oportunidades de inclusão para estudantes com deficiência, utilizando tecnologias assistivas.
A literatura científica demonstra que o impacto das telas depende menos da existência da tecnologia e mais da qualidade do conteúdo, da idade da criança, do tempo de exposição e da participação dos adultos nesse processo.
Quando a conexão se transforma em hiper conexão
O excesso de tempo conectado pode trazer consequências importantes.
Diversas pesquisas relacionam o uso excessivo de telas com:
– Pior qualidade do sono;
– Redução da prática de atividades físicas;
– Aumento da ansiedade e sintomas depressivos;
– Maior exposição ao cyberbullying;
– Contato precoce com conteúdo inadequado para a idade;
– Dificuldades de concentração;
– Comparação constante com padrões irreais de aparência e estilo de vida;
– Prejuízos nas relações familiares presenciais.
É importante destacar que a ciência também mostra uma relação de mão dupla: jovens emocionalmente mais vulneráveis tendem a utilizar mais as telas, enquanto o uso excessivo pode agravar essas dificuldades. Ou seja, não existe uma relação simples de causa e efeito, mas um conjunto de fatores que interagem entre si.
O papel da família faz toda a diferença!
Uma das conclusões mais consistentes das pesquisas atuais é que a mediação parental constitui um dos principais fatores de proteção. Revisões sistemáticas apontam que crianças cujos responsáveis conversam sobre o uso da internet, acompanham os conteúdos acessados, estabelecem regras claras e utilizam a tecnologia junto com os filhos, apresentam menor risco de uso problemático da internet, dependência de jogos e envolvimento em situações de cyberbullying.
Isso significa que simplesmente proibir ou liberar completamente o acesso costuma ser menos eficaz do que orientar, dialogar e acompanhar.
Como os pais e responsáveis podem agir?
Algumas atitudes práticas são recomendadas por especialistas:
– Conhecer os aplicativos e jogos utilizados pelos filhos;
– Estabelecer horários para uso das telas;
– Dar o exemplo, pois os hábitos digitais dos adultos influenciam diretamente o comportamento das crianças;
– Evitar celulares durante refeições e antes de dormir;
– Manter computadores e dispositivos, sempre que possível, em ambientes comuns da casa;
– Utilizar ferramentas de controle parental quando necessário;
– Conversar frequentemente sobre privacidade, golpes, fake news e respeito nas redes sociais;
– Incentivar esportes, leituras, brincadeiras presenciais e convivência familiar;
– Dar o exemplo, pois os hábitos digitais dos adultos influenciam diretamente o comportamento das crianças.
Educação digital: responsabilidade compartilhada!
A internet não deixará de fazer parte da infância e da adolescência. O desafio não é afastar os jovens da tecnologia, mas prepará-los para utilizá-la de forma crítica, ética e saudável.
Família, escola, profissionais da saúde e plataformas digitais possuem responsabilidades complementares na formação de cidadãos capazes de aproveitar os benefícios da tecnologia sem se tornarem reféns dela.
REFERÊNCIAS:
– CETIC.br. Pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024 – Uso da Internet por Crianças e Adolescentes no Brasil.
– Giovanelli, J. F. et al. (2025).
– Biblioteca Digital NICBR.
– Parental mediation in the use of screens by children and adolescents: a systematic literature review. Ciencias Psicológicas.
– scielo.edu.uy
– Souza, E. F. et al. (2025). Screen use in children – two sides of the coin: a critical narrative review. PubMed.
Prof. Dra. Raquel Maria Rocha Oliveira Menezes – Diretora Pedagógica da EPB-Belo Horizonte. Especialista em Educação Básica, Psicopedagogia, Neurociência e Gestão Escolar. Contato: +55 31 99862-6757.
Publicado na Revista da Escola de Pais do Brasil – Seccional Belo Horizonte – setembro de 2026, p. 6-8.
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