A adolescência é uma fase fundamental do desenvolvimento humano, mas ainda cercada de mitos, simplificações e, muitas vezes, negligência. No senso comum, costuma ser descrita como uma “fase difícil”, marcada por rebeldia, instabilidade ou por uma suposta “tempestade hormonal”. Em muitos contextos, o adolescente é visto apenas como alguém em transição – alguém que já não é mais criança, mas ainda não se tornou adulto.
Essa forma de olhar para a adolescência acaba deixando algo importante em segundo plano: trata-se de uma etapa do desenvolvimento com características próprias, marcada por transformações profundas no corpo, no cérebro e nas relações sociais. No entanto, em vez de ser compreendida em sua complexidade, muitas vezes é reduzida a rótulos como irresponsável, dramático ou problemático. Esses rótulos empobrecem o olhar de pais, educadores e profissionais, além de favorecer intervenções tardias ou inadequadas justamente em um momento da vida que exige presença adulta qualificada.
Nem mesmo a definição de quem é “adolescente” é totalmente consensual. A Organização Mundial da Saúde, por exemplo, costuma situar a adolescência entre os 10 e 19 anos. Já o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) define adolescentes como pessoas entre 12 e 18 anos incompletos. Em algumas políticas públicas voltadas à juventude, esse período pode se estender ainda mais, alcançando aproximadamente os 24 anos.
Essa variação não é apenas um detalhe técnico. Ela tem impactos concretos na organização de políticas públicas, no funcionamento dos serviços de saúde e nas formas como a escola, a família e a sociedade se relacionam com esse grupo. Quando diferentes áreas trabalham com recortes de idade distintos, torna-se mais difícil construir estratégias contínuas e coerentes voltadas especificamente para os adolescentes.
Além disso, do ponto de vista histórico e cultural, a adolescência, tal como a entendemos hoje, é uma construção relativamente recente. Em muitas sociedades tradicionais, existitam rituais de passagem que marcavam uma transição rápida entre infância e vida adulta. Após determinadas provas ou cerimônias, o jovem passava a ser reconhecido como adulto pela comunidade.
Nas sociedades ocidentais modernas, porém, esse período intermediário foi se alongando. A ampliação da escolarização, a entrada mais tardia no mercado de trabalho e mudanças na organização da vida familiar contribuíram para que a adolescência se tornasse uma fase mais extensa e socialmente reconhecida. Como consequência, o adolescente passou a ocupar um lugar ambíguo: ao mesmo tempo em que é visto como alguém cheio de potencial e criatividade, também pode ser percebido como instável, imprevisível ou problemático.
Outro aspecto importante diz respeito às transformações biológicas e neurológicas que ocorrem nesse período. Hoje sabemos que o cérebro do adolescente passa por um intenso processo de reorganização. Conexões neurais pouco utilizadas são eliminadas, enquanto aquelas mais importantes se fortalecem. Ao mesmo tempo, regiões do cérebro ligadas à busca por novidades e recompensas amadurecem antes das áreas responsáveis por planejamento, tomada de decisões e controle de impulsos.
Isso ajuda a compreender por que emoções podem parecer mais intensas nessa fase, por que experiências novas se tornam tão atraentes e por que a capacidade de avaliar consequências a longo prazo ainda está em desenvolvimento. Em outras palavras, comportamentos que muitas vezes são interpretados como irresponsabilidade ou falta de maturidade fazem parte, em grande medida, de um cérebro que ainda está se organizando.
Apesar dessas evidências, a adolescência frequentemente ocupa um lugar intermediário também nas práticas profissionais. Na área da saúde, por exemplo, não é raro que serviços voltados à infância relutem em acolher adolescentes mais velhos, enquanto serviços destinados a adultos ainda não os reconhecem plenamente como público prioritário. Na escola, queixas relacionadas ao comportamento adolescente muitas vezes aparecem desacompanhadas de formação específica sobre o desenvolvimento nessa fase da vida.
Esse cenário contribui para que o adolescente seja frequentemente rotulado como “difícil”, “problemático” ou “desinteressado”, em vez de compreendido em seu contexto. Em vez de perguntas que busquem entender o que está sendo comunicado por determinados comportamentos, surgem julgamentos que simplificam experiências complexas.
Mudanças de humor, necessidade de testar limites, maior sensibilidade ao olhar dos pares e experimentações relacionadas à identidade são, em grande medida, aspectos esperados em um período de transição. Quando essas manifestações são interpretadas apenas como desobediência ou ingratidão, perde-se uma oportunidade importante de educar para a autonomia, o senso de responsabilidade e a construção de projetos de vida.
Adolescentes que encontram adultos disponíveis para escutar, dialogar e oferecer referências claras tendem a atravessar essa etapa com mais recursos emocionais e sociais. Já aqueles que recebem principalmente críticas, sermões ou indiferença podem se tornar mais vulneráveis a situações de risco e sofrimento psíquico.
Defender um olhar específico para a adolescência não significa “passar a mão na cabeça” ou relativizar responsabilidades. Significa reconhecer que se trata de uma fase com tarefas próprias: construir uma identidade, reorganizar vínculos familiares, encontrar um lugar entre os pares e começar a imaginar possíveis caminhos para o futuro.
Para que isso aconteça de forma mais saudável, é fundamental que pais, educadores e profissionais possam compreender melhor as particularidades desse momento da vida. Isso envolve também investir em políticas públicas, formação continuada e espaços de escuta real para adolescentes.
Talvez um dos movimentos mais importantes seja atualizar o nosso vocabulário. Em vez de tratar a adolescência como uma “fase perdida” ou como um problema a ser superado rapidamente, podemos compreendê-la como uma janela de oportunidade. É justamente nesse período que muitas trajetórias podem ser redirecionadas, já que identidades ainda estão em construção e o cérebro apresenta grande capacidade de aprendizado e adaptação.
Desmistificar a adolescência, portanto, é tirá-la do lugar da caricatura – nem vilão, nem herói – e reconhecê-la como uma etapa complexa, potente e delicada do desenvolvimento humano. Para pais e educadores, isso implica mudar a pergunta de “como faço para acabar logo com essa fase?” para “como posso caminhar ao lado desse jovem, oferecendo limites, escuta e referências consistentes?”.
Quando reconhecemos que adolescentes não são crianças grandes nem adultos prontos, abrimos espaço para relações mais responsáveis e humanas. E, ao nomear a negligência histórica que muitas vezes recai sobre essa fase da vida, damos um passo importante para fazer o movimento contrário: olhar, estudar, compreender e cuidar da adolescência como uma etapa que importa por si mesma.
Kamila Contini – Psicóloga com experiência em clínica infantojuvenil e psicologia escolar, com atuação em regulação emocional e desenvolvimento de competências socioemocionais.
Publicado na Revista da Escola de Pais do Brasil – Seccional Belo Horizonte – setembro de 2026, p. 12-13.
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