Quando éramos crianças – especialmente aqueles pertencentes às gerações Baby Boomers (nascidos entre 1946 e 1964), Geração X (nascidos entre 1965 e 1980) e Millennials ou Geração Y (nascidos entre 1981 e 1996) – o acesso de crianças e adolescentes a informações sobre sexualidade ocorria de maneira indireta, limitada e, muitas vezes, permeada por proibições. Revistas, filmes e outros materiais circulavam de forma restrita, enquanto as famílias buscavam impedir esse contato. Entretanto, a questão central nunca foi apenas o acesso à informação, mas a ausência de mediação por parte dos adultos. Em muitos casos, faltava uma orientação clara, afetiva e coerente, capaz de oferecer referências simbólicas para que a criança pudesse compreender, elaborar e integrar suas dúvidas ao seu processo de desenvolvi mento.
Na contemporaneidade, esse cenário tornou-se ainda mais complexo. A internet e as redes sociais democratizaram o acesso à informação, mas também expuseram crianças e adolescentes a conteúdos cada vez mais precoces e pouco contextualizados. Paralelamente, muitos pais pertencem a gerações que cresceram em ambientes nos quais a sexualidade era tratada como um tema proibido e tabu, cercado de silêncio, culpa ou vergonha. Por não terem recebido uma educação sexual adequada durante a própria infância e adolescência, frequentemente encontram dificuldades para abordar o tema com naturalidade e segurança.
Outro aspecto relevante refere-se à influência dos valores culturais, morais e religiosos na educação dos filhos. A religiosidade pode representar uma importante fonte de princípios éticos, respeito e cuidado. Entretanto, quando determinadas interpretações se tornam excessivamente rígidas ou associadas ao medo e à culpabilização, podem dificultar o diálogo aberto sobre sexualidade. Nesses contextos, algumas famílias evitam responder às perguntas das crianças ou recorrem a explicações fantasiosas – como a crença de que os bebês são trazidos pela cegonha ou encontrados em um repolho – na tentativa de adiar uma conversa considerada inadequada. Paradoxalmente, enquanto se atribui à criança um universo de fantasias, muitas vezes são os próprios adultos que constroem narrativas imaginárias para evitar lidar com um tema que lhes desperta insegurança ou desconforto.
A curiosidade acerca do corpo, das diferenças entre os sexos e da reprodução consritui um fenômeno esperado do desenvolvimento infantil. O interesse da criança não surge porque alguém falou sobre sexualidade; ele emerge naturalmente a partir das transformações biológicas, cognitivas, emocionais e sociais que acompanham seu crescimento. O diálogo adequado à idade não antecipa a sexualização da infância. Ao contrário, promove conhecimento, proteção, desenvolvimento da autonomia e fortalecimento dos vínculos de confiança entre pais e filhos.
A Psicologia do Desenvolvimento demonstra que a criança não aprende apenas pela exposição às informações. Ela necessita da mediação do adulto, da linguagem, da escuta e de um ambiente emocionalmente seguro para transformar informação em conhecimento significativo. Sob essa perspectiva, a parentalidade permanece como um dos principais fatores de proteção ao desenvolvimento saudável.
As contribuições da Psicanálise reforçam essa compreensão. Freud (1905/2016**), ao apresentar a teoria da sexualidade infantil, rompeu com a ideia de que a sexualidade surge apenas na puberdade, demonstrando que a curiosidade e o interesse pelo próprio corpo fazem parte do desenvolvimento psíquico desde os primeiros anos de vida. Winnicot (1965/1983) acrescenta que o ambiente suficientemente bom oferece sustentação emocional para que a criança possa elaborar suas experiências com segurança. Lacan (1953/1998), por sua vez, destaca que é pela linguagem e pela inserção na ordem simbólica que o sujeito constrói sentidos para seu desejo, seu corpo e suas elações.
Dessa forma, o desafio contemporâneo não consiste em impedir o acesso às informações – tarefa praticamente impossível na era digital – mas em fortalecer a função educativa da família. A educação sexual ultrapassa a transmissão de conhecimentos biológicos; envolve valores, ética, respeito ao próprio corpo e ao corpo do outro, desenvolvimento da autonomia e construção de vínculos pautados na confiança. A tecnologia pode informar, mas não substitui a presença do adulto capaz de acolher dúvidas, oferecer limites e construir significados. É nessa mediação que reside uma das principais funções parentais e um dos mais importantes fatores de proteção para o desenvolvimento emocional da criança e do adolescente.
Adelaine Rezende Cortes – Psicanalista e especialista em análise do comportamento e neuropsicopedagoga. Atua na promoção da saúde emocional, no desenvolvimento humano e na orientação de famílias. Associada da EPB – Seccional Belo Horizonte.
Publicado na Revista da Escola de Pais do Brasil – Seccional Belo Horizonte – setembro de 2026, p. 35-36.
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