O mundo BANI e a infância

De tempos em tempos surgem novas nomenclaturas para definir o mundo no qual vivemos. VUCA – vulnerável, incerto, complexo e ambíguo – vem sendo usado desde os anos 1980 e parece não dar mais conta do turbilhão de transformações que nos invade. Agora nasce um novo acrônimo em inglês para tentar dar sentido e organizar o mundo que nos rodeia. B.A.N.I é o termo escolhido por Jamais Cascio, futurista e um dos 100 pensadores globais, para definir um contexto que vai muito além dos limites da nossa compreensão.

“Nós estamos em uma era do caos, uma era que intensamente, quase violentamente rejeita estruturas. Não é simplesmente instabilidade, é uma realidade que parece resistir ativamente aos esforços de entender o que está acontecendo”.  Facing the age of chaos, Cascio (2020)

Para Cascio, cada letra do termo BANI significa:

BRITTLE: frágil e suscetível a mudanças catastróficas. Pode parecer forte, mas se despedaça quando quebra.

ANXIOUS: ansioso. O sentimento de ansiedade é gerado no mundo BANI a partir da sensação de impotência, do medo de fazer escolhas desastrosas e da iminência de que algo dará errado. Depressão e suicídio são marcas do mundo BANI.

NON-LINEAR: não-linear. Causa e efeito estão desconectados e são desproporcionais, desencadeando múltiplos sentidos e caminhos para os fatos. Instabilidade e caos.

INCOMPREHENSIVE: incompreensível. Falta de lógica e de sentido. Excesso de informação nos confunde.

Esta nova definição pode ser associada a vários contextos diferentes: política, economia, religião, negócios, relacionamentos humanos, etc. Pela minha experiência esta expressão tem também uma ligação direta com as características da infância e pode trazer novos olhares para nos guiar e ajudar as gerações digitais a lidar com as “metamorfoses do mundo, como diria o sociólogo Ulrich Beck.

Algumas das experiências mais marcantes na minha vida profissional aconteceram no começo dos anos 2000 durante o meu mestrado em Psicologia da Infância e Adolescência na University College London na Inglaterra. Além de toda a exigência teórica inerente a um mestrado, este curso também me demandou experiências práticas bastante significativas. Uma delas foi a inserção em um grupo de brincar com crianças de 1 a 3 anos dentro do Anna Freud Nacional Centre for Children and Families, um dos centros mais respeitados dedicado à infância e famílias. Ao acompanhar crianças e seus cuidadores em um playgroup ficou ainda mais claro para mim a potência de algumas caraterísticas inerentes à este período delicado da primeira infância. Birrasansiedade de separaçãomudanças bruscas de humor e inconstância são alguns dos elementos que marcam a jornada da dependência total de uma criança rumo à sua independência gradual. Este momento da vida é bastante frágil, gera emoções intensas, é instável e não-linear, deixando os adultos confusos porque frequentemente não compreendem o que está acontecendo com a sua filha ou filho.

Vocês percebem as similaridades destas características infantis com as do mundo BANI?

Ao usar o conceito BANI para entender melhor as peculiaridades do nosso mundo atual e considerar as suas afinidades com o desenvolvimento das crianças pequenas, proponho novos olhares para três dimensões que merecem muita atenção na formação das novas gerações.

  • Modelos educacionais múltiplos e escolas terapêuticas: é necessário que as crianças vivenciem com regularidade mudanças mais ágeis no cotidiano escolar, tenham oportunidade de se recuperar mais facilmente de experiências difíceis, estejam inseridas em um ambiente emocional que cuide da ansiedade e saúde mental, experienciem projetos integrados que sejam menos lineares do que o modelo tradicional previsível, repetitivo e focado em conteúdo. É mais do que urgente inovarmos na Educação através de novas práticas que foquem na autonomia e proatividade das novas gerações.
  • Brincar revisitado: ao longo dos anos o brincar mudou. Excesso de cuidados e impedimentos por parte dos adultos, menos tempo de brincar, menos recreio nas escolas, menos brincar arriscado, menos atividades ao ar livre e menos brincadeiras livres trouxeram um custo psicológico profundo para as crianças, impactando negativamente a sociedade como um todo. É urgente não somente resgatarmos o brincar livre da época antiga como também atualizá-lo e integrá-lo ao universo digital e tecnológico.

Brincar pavimenta um caminho sólido para lidar com o mundo BANI e atua como um guardião poderoso da saúde mental na infância e na vida adulta.

  • Novas parentalidades: para navegar no mundo BANI os pais e cuidadores precisarão se adaptar mais rapidamente e construir novas formas de serem pais e mães. Maneiras mais horizontais de exercer a autoridade e dar limites, mais diálogo, mais agilidade para se adequar às mudanças inerentes ao desenvolvimento das crianças e adolescentes, busca por mais apoio, novos conhecimentos e habilidades tecnológicas e coragem para proporcionar aos filhos modelos inovadores de educação são pilares da nova parentalidade.

A partir da aceitação da fragilidade, ansiedade, falta de linearidade e incompreensão será possível traçar novas rotas que minimizem problemas graves ligados ao mundo e ao universo das crianças e adolescentes. 🌷

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FERNANDA FURIA. Fundadora do Playground da Inovação– consultoria de Inovação em Psicologia e Educação. Autora do livro “Psicologia da Inovação: o que está por trás da capacidade de inovar” (Ed. FIAP). Criadora do programa de “Gestão Psicológica para Inovação” voltado para organizações. Professora de Psicologia da Inovação na FIAP (SP). Psicóloga, mestre em Psicologia de Crianças e Adolescentes pela University College London (UCL) na Inglaterra. Professora de Pós-Graduação do Instituto Singularidades em São Paulo. Membro da The British Psychological Society na Inglaterra.

Publicado por Fernanda Furia

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