Dicas para Pais: Como compreender o Egocentrismo do Adolescente

No dia a dia de um Pai quase nada é tão irritante como o egocentrismo do seu adolescente. É muito difícil perceber a aceitar que esse mesmo egocentrismo é não só normal como possui um papel essencial na maturação dos nossos filhos.

Muitos pais sentem um medo imenso de que o egoísmo demonstrado pelos jovens que albergam nas suas casa, sangue do seu sangue, signifique que eles falharam na passagem do valor da contribuição para a comunidade e condene aqueles que mais amam a um futuro desastroso.

Quantos de nós já experimentaram uma sensação de frustração enfurecedora após passar um tempo infinito a explicar aos nossos jovens que fazem parte de uma família e como tal tem responsabilidades e deveres perante ela, para assim que terminamos de falar sermos premiados com um sonoro “MAS…” e o adolescente a falar sobre si, numa demonstração clara de que nada do que expusemos foi escutado.

Os adolescentes parecem dotados de uma cabeça dura, um capacete ou carapaça que protege a sua capacidade de escuta e entendimento do mundo exterior e lhes permite viver num mundo só seu, onde tudo parece ser sobre si ou, no mínimo, girar à volta da sua pessoa.

E os pais, desesperados, irritados e assustados, perguntam-se: onde é que eu errei? Como fui capaz de criar um filho tão egoísta?

Egocentrismo do Adolescente: um ritual de passagem obrigatório e saudável

Sim, todos os adolescentes saudáveis passam por um período de egoísmo desconcertante. Mas desconcertante apenas para nós, pais de hoje numa sociedade que há muito perdeu a compreensão do que é a adolescência, qual a sua função e quais as mudanças essenciais ao seu sucesso.

A função da adolescência, com todas as mudanças físicas e psicológicas que ocorrem no individuo, é promover a passagem da infância para a idade adulta. E é aqui que o egocentrismo transitório (de alguns anos) possui um papel essencial e saudável.

O que caracteriza uma criança bem adaptada ao seu mundo é muito diferente do que determina um adulto bem-sucedido.

Por exemplo, uma criança saudável olha para as suas figuras de vínculo em busca de quem é e qual o seu papel no universo em que se insere. Um adulto bem-sucedido encontra estes valores dentro de si e não mais nos olhos dos outros, inclusive dos que ama.

Mas como ocorre esta transição? Quais os mecanismos que a promovem e determinam o seu sucesso?

Um deles é o ganho de uma consciência reflexiva, que inclui dois processos mentais novos para o ser em desenvolvimento: A capacidade de pensar e refletir sobre os seus próprios pensamentos e ideias (antes a criança só olhava para fora, agora o adolescente é capaz de olhar para dentro de si mesmo) e o desenvolvimento do pensamento hipotético (o adolescente torna-se capaz de imaginar o ideal de uma situação ou pessoa, de ver para além do real e perceber como seria a perfeição).

E é aqui que se aparece o egocentrismo. Não é um erro, é um desejo da natureza.

Esta dota o adolescente de uma cabeça dura, uma carapaça que não permite mais a passagem dos ensinamentos dos pais, para que o futuro adulto possa olhar para dentro e descobrir quem é a partir de lá, a partir de uma combinação entre os seus ideias e a sua autoconsciência.

E este é um tempo que precisa de espaço, de distanciamento dos valores e lições dos progenitores.

É um pouco como um escritor que inicia uma nova obra. Precisa de se afastar de todos os estímulos que o possam distrair do seu objetivo principal. Neste caso, o objetivo principal é o adolescente descobrir quem é de dentro para fora e a natureza encarrega-se de o ajudar a manter o foco dotando-o de uma cabeça dura e impermeável ao que vem do exterior.

Uma vez cumprida a sua função de dar à luz um novo ser, um ser adulto, a carapaça derrete e o egocentrismo desaparece.

Em suma, é a aquisição, desenvolvimento e maturação dos processos mentais envolvidos no despoletar de uma consciência reflexiva que vai permitir a transição entre a criança que se orienta pelos valores dos seus vínculos e o adulto se transforma na sua própria estrela polar.

Esta transição possui uma importância vital. Muitos dos problemas que experimentamos atualmente, quer como indivíduos separados quer a nível da sociedade em geral, resultam do falhar desta mesma passagem.

Adultos que continuam a orientar-se pelos outros são adultos incapazes de pensar por si mesmos e, consequentemente, facilmente influenciáveis por cultos ou grupos radicais.

Paralelamente, adultos capazes de pensar e decidir por si mesmo, com base nos seus próprios valores e convicções, são seres muito mais adaptáveis e resilientes, pois mesmo perante perdas significativas ou até acontecimentos traumáticos não perdem a noção de quem são, não se definem pelo que lhes acontece pois o seu valor há muito que existe no seu interior e não é destruído pelo exterior.

egocentrismo característico da adolescência possui um papel essencial nessa transição. Uma vez concluída a sua função ele desaparece por ele mesmo e de repente parece que temos os nossos filhos de volta, só que mais maduros, seguros e conscientes.

Mas quando essa passagem não é bem-sucedida, o egocentrismo permanece por tempo indeterminado, quem sabe até para a vida. Sei bem do que falo pois o meu demorou mais de 20 anos a cumprir o seu papel. A função dos pais não é fazer com que os filhos deixem de ser egoístas o mais rapidamente possível, mas sim ajudar o cérebro transitoriamente egoísta a cumprir a sua função.

Publicado no site: https://mundodeparentalidade.com/

Márcia Carneiro – Escrevo, porque escrever me ajuda a pensar, a sentir, a integrar. Escrevo o que me vem à mente, sem filtro nem censura e sem certo ou errado. Escrevo para mim, para me conhecer, perceber, encontrar. E partilho porque acredito que a descoberta de quem somos, da nossa essência, do nosso verdadeiro eu, passa indubitavelmente pela aceitação do nosso ser como um todo, sem nada renegar e pelo ato carinhoso, vulnerável e corajoso de assim nos mostrarmos aos outros.

Márcia Carneiro

2 Comentários

  1. Quando o egoísmo é ao extremo?tem algo há ver de uma criança que tudo era proibido nada podia comer bala chocolate sorvete.nada de açúcar nada de sal .muitos gritos. Pode ser um agravante., pois hoje joga na cara da mãe tudo Isto?

  2. Um adolescente que na infância só ouvia não nada era permitido, nada de doce, bala, chocolate, sal, refrigerante nunca podia e era tratado aos gritos pode ter alguma influência no egoismo.

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