Cuidar das crianças em seus processos de oralidade, alfabetização e letramento

As crianças, desde bebês, têm direito ao conhecimento. As creches, pré-escolas e escolas de Ensino Fundamental, cada uma, com uma função social específica, são responsáveis pela ampliação de repertório das crianças, nos mais variados tipos de conhecimento: científico, ambiental, social, cultural e tecnológico.

Neste texto, damos destaque ao conhecimento científico, em especial, àquele que se refere à apropriação pelas crianças do patrimônio cultural em torno da cultura letrada, fundamental para a vida em sociedade.

De toda forma, como esse conhecimento é amplo e situado historicamente, optamos nesse momento em discutir, mesmo que brevemente, um tema que desafia familiares, professores e professoras, qual seja, a oralidade, a alfabetização e o letramento.

O processo de alfabetização

A função social da Educação Infantil é cuidar e educar, ampliando repertório cultural das crianças. Essa ampliação de repertório circunscreve-se em torno das diferentes linguagens das crianças, que a constituem e são também por ela constituídas na vida em sociedade, portanto, em relação e interação com adultos, com outras crianças e com a cultura.

Já a função social da escola de Ensino Fundamental é sistematizar o conhecimento científico, por meio de conteúdos da escolarização, disseminando a cultura.

Todavia, é muito importante que familiares e profissionais da educação compreendam que ambas as etapas, ou seja, a Educação Infantil e o Ensino Fundamental constituem a Educação Básica, e que por assim ser, é necessário que se tenha ações concretas, processos de transição curricular entre esses segmentos. Ou seja, é necessário que o trabalho pedagógico e também o apoio dos familiares sustente-se na compreensão de que a aprendizagem das crianças é um processo orgânico, isto é, que ocorre de forma sistêmica, num permanente continuum.

Desse modo, o que queremos destacar neste texto é a necessária interlocução entre creche, pré-escola e escola de Ensino Fundamental, construindo “pontes”, elos, conexões de sentido entre o que se faz pedagogicamente nesses espaços, para que as crianças não sofram rupturas ou hiatos quando transitam da Educação Infantil para o Ensino Fundamental.

Nesse sentido, vale sublinhar que desde bebê, a criança tem direito à interação com a linguagem oral e escrita, não fazendo cópia, nem reproduzindo mecanicamente o que o adulto lhe diz para repetir. Mas, é plenamente possível e necessário, oferecer às crianças de pouca idade materialidades, artefatos culturais, os quais lhe permitam, com o suporte, apoio e intervenção pedagógica do adulto, acessar e formar base conceitual, por exemplo, de letra, palavra, texto.

Ao passo que, tendo esses contatos e essas aproximações no espaço da Educação Infantil, é possível que a criança, formando base conceitual, se aproprie a seu tempo e em suas condições cognitivas e relacionais, num processo de aprendizagem que exige temporalidade estendida, da leitura, da escrita, das relações com conceitos matemáticos, das ciências da natureza, dentre outros.

Nesse sentido, é imperioso esclarecer que a alfabetização não se limita à decodificação de letras e palavras. Alfabetização e letramento são processos interdependentes. Assim, tanto na creche, na pré-escola e na escola, bem como, no espaço e nas relações familiares/domésticas, é importante que os adultos criem estruturas, tempos, espaços, interações, nas quais as crianças possam acessar a cultura letrada, e a partir desses contatos, façam perguntas, criem hipóteses, brinquem de ler e escrever, por meio dos mais variados suportes e dispositivos que elas tenham à disposição.

Como familiares, temos que ter o cuidado de não exigir das crianças o que elas ainda não têm condição de oferecer. Por exemplo: não podemos exigir de uma criança de 4 anos que ela demonstre habilidades que não fazem parte de sua constituição nesse percurso de vida. Crianças da Educação Infantil e do Ensino Fundamental não podem ser inseridas em atividades mecanicistas de cópia, de reprodução de letras, números, frases. As crianças precisam ser desafiadas a pensar, a construir, a estabelecer relações.

Por isso, é fundamental que familiares e profissionais da educação estejam em permanente diálogo e trocas de pontos de vista, para que compreendam e construam o que é pertinente a cada processo aprendente vivido pelas crianças. Que criem tempos e espaços que favoreçam a apropriação de conceitos fundamentais, para que as crianças cresçam, aprendam e se desenvolvam sentindo-se seguras emocionalmente, apoiadas e desafiadas a participar de seu percurso de aprendizagem.

Diante disso, entendemos que algumas ações podem ser empreendias no cotidiano familiar para favorecer e ampliar essa bonita e complexa tarefa:

* Crie ambientes onde as crianças possam interagir com livros, revistas variadas, plataformas digitais, jogos educativos, que favoreçam e ampliem o repertório delas com a linguagem oral e escrita;

* Leia e conte histórias para as crianças;

* Desafie as crianças a construírem narrativas: brinque com elas e lance perguntas para que elas possam narrar o que estão fazendo, o que construíram, o que gostariam de saber sobre determinado brinquedo, fenômeno da natureza, atividades culturais, dentre outros;

* Organize espaços da casa, sobretudo, o quarto das crianças, com brinquedos e materialidades diversificadas, os quais elas possam explorar de forma auto organizada ou com sua ajuda. Lembre-se que a apropriação da cultura letrada não se limita a livros de literatura infantil. A criança precisa interagir com diferentes gêneros textuais e suportes distintos.

* Seja compreensivo, paciente e apoiante: aprender, independente da linguagem envolvida, seja oral, escrita, musical, motora, exige tempo, e constitui-se sempre em processo complexo. Por isso, não apresse a criança. Ela é um ser humano único, com história própria, com singularidades. Não compare seu filho ou filha com outras crianças, nem mesmo com seus irmãos e irmãs, muito menos, com a criança que você foi um dia.

Diálogo e parceria com as unidades educativas

É fundamental construir uma relação parceira com as instituições educativas que seu filho e filha frequentam. Nessa direção, nunca é demais sublinhar que:

Instituições educativas como a creche, a pré-escola e a escola têm funções distintas daquelas atribuídas à família: por isso, ambas (unidades educativas e família) precisam estabelecer formas de comunicação permanentes e sistemáticas que podem constituir-se por: redes sociais, e-mails, agendas, reuniões mensais, grupos de estudo, dentre outros;

Envolvimento dos familiares: É fundamental que os familiares se envolvam e acompanhem sistematicamente o percurso formativo de seus filhos e filhas. A criança se sente apoiada, incentivada, cuidada, quando percebe que seus familiares interessam-se pelo que ela faz na escola, na creche e na pré-escola. Participe, escute, pergunte, vá à unidade educativa frequentemente, insira-se no cotidiano de forma participativa,

que sempre implica em TOMAR PARTE.

Cuidado com as expectativas: Familiares e unidades educativas precisam dialogar sobre o que esperar das crianças, sobre o desenho curricular daquele segmento do ensino ou das temporalidades específicas da creche e da pré-escola. Lembre-se que brincando, cantando, dançando, indo ao cinema, ao teatro, a criança também aprende. Escola não é apenas lugar de sentar, ouvir, copiar, ler, escrever, calcular. Escola também é espaço de cultura. Não exija de seu filho e filha o que ele/ela ainda não tem condições de oferecer. Criança é criança e tem direito a viver sua infância em plenitude.

Não confunda as funções: Como dito anteriormente, a relação escola/família é de parceria. Logo, é em relação que as questões precisam ser pensadas, discutidas, refletidas, replanejadas. Não se comporte querendo assumir o lugar das professoras e professores. Sua função é familiar, logo, não compete a você tomar decisões curriculares, de planejamento e avaliação. Você pode e deve participar questionando para tentar entender, jamais querendo impor à instituição o que ela deve fazer pedagogicamente. A recíproca é verdadeira, ou seja, não compete à unidade educativa assumir papéis que são de responsabilidade da família. Um exemplo, não compete à escola construir valores que devem ser formados desde a mais tenra idade nas relações familiares. Se a família não estabelece limites com e para as crianças, se não lhes ajuda a criar uma imagem positiva de si, não é a escola que dará conta disso. O equilíbrio entre o sim e o não é de responsabilidade dos familiares. Lembre-se, quem cuida, ama, quem ama, educa.

Dialogue sempre com a criança: converse diariamente com seu filho e filha. As crianças precisam ser ouvidas, tanto nas unidades educativas como também no espaço doméstico. Elas têm muito a dizer. Elas precisam também assumir protagonismo em decisões que afetam suas vidas. Isso não retira de familiares e professores, professoras, a autoridade parental e pedagógica. Respeitem e amem incondicionalmente as crianças. Elas são cidadãs, sujeitos de direitos, e assim como nós, merecem exercer cidadania.

Conclusão

Nossa luta por uma educação que respeite os direitos fundamentais das crianças, dentre eles, o direito ao conhecimento, é um percurso coletivo, um trabalho sério e constante, que demanda esforços coletivos de professores e familiares.

Compreendemos que nos cabe o desafio de dialogar, criando tempos e espaços de interlocuções que situem diferentes pontos de vista, diferentes saberes, diferentes percursos formativos, uma vez que o conhecimento é infinito, plural e sempre transitório.

O presente texto dedicou-se à proporcionar uma reflexão em torno da oralidade, alfabetização e letramento das crianças em contextos de Educação Infantil e Ensino Fundamental.

A natureza colaborativa, dialógica e relacional que envolve profissionais da educação e familiares representa uma potencialidade para a aprendizagem das crianças, criando possibilidades de sentidos e significados partilhados e a geração de percursos possíveis, que respeitem as temporalidades e as condições aprendentes das crianças.

Referências:

GUIMARÃES, Célia Maria. A história da atenção à criança e da infância no Brasil e o surgimento da creche e da pré-escola.

Revista Linhas, Florianópolis, v. 18, n. 38, p. 81-142, set./dez. 2017.

MARCHI, Rita de Cássia; SARMENTO, Manuel J. Infância, normatividade e direitos das crianças: transições

contemporâneas. Educação & Sociedade, Campinas, SP, v. 38, n. 141, p. 951-964, out./dez. 2017.

Prof. Dra. Julice Dias – Doutora em Educação (PUC/SP). Mestre em Educação (UNIVALI).Licenciada em Pedagogia (FURB). Professora do Departamento de Pedagogia da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da UDESC/SC.

Publicado no site: escoladepais.org.br

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