TRAUMAS EMOCIONAIS E SUAS CONSEQUÊNCIAS NA VIDA ADULTA

  1. Introdução

A trajetória da humanidade está permeada por eventos potencialmente traumáticos, como guerras, massacres, escravidão, abusos e injustiças de toda ordem. Sem dúvida, as pessoas muitas vezes conseguem adaptar-se e superar as dificuldades, mas as referências traumáticas e suas consequências ficam entranhadas na sociedade, bem como alteram o funcionamento biológico e psicológico dos indivíduos. Nesse sentido, os traumas também mexem constantemente com as dinâmicas conjugais, familiares e sociais.

No contexto da Nova Era Digital, muitas famílias estão vivenciando o trauma muitas vezes de maneira silenciosa, sem buscar meio adequado para superá-lo. Portanto, ressalta-se que este é um tema de relevância nas famílias atuais, que precisa ser melhor analisado e compreendido, principalmente, quando pensamos no ser humano, nos relacionamentos mais próximos ou distantes e na sociedade em geral.

Nesse sentido, o objetivo deste artigo, é fazer uma reflexão sobre os traumas emocionais e suas consequências na vida adulta, levando em consideração a sua definição, identificação e formas de superação.

  1. Sobre o Trauma

Na literatura existem diversos autores com diferentes definições. Neste artigo, considerou-se a realizada por Levine (2012), descrevendo que o trauma não é uma doença, mas uma experiência humana enraizada nos instintos de sobrevivência (luta, fuga ou congelamento). Nesse sentido, é um tipo de dano emocional que ocorre como resultado de um ou algum acontecimento. Pressupõe uma experiência de dor, sofrimento emocional e/ou físico.

De forma geral, a maioria das pessoas vai vivenciar traumas ao longo da sua vida, mas nem todos desenvolverão o trauma. Isso significa, que pessoas diferentes reagem de maneira diferente em eventos traumáticos. Nem todas as pessoas que passam por experiências traumáticas se tornam psicologicamente traumatizadas. De acordo com a criadora da terapia EMDR, Shapiro (2007), esses eventos traumáticos geram nos indivíduos crenças negativas sobre ele próprio e sobre o mundo.

A família tem o papel de transmitir aos seus descendentes, os estilos de modulação de afeto, modelos de interação, valores e crenças familiares, formas de interpretar e significar acontecimentos, explica Monteiro (2016).

Em síntese, a memória traumática, difere da memória comum. Nessa mesma analogia, o autor Scaer (2005), explica que no trauma o cérebro perde a capacidade de distinguir o passado do presente e como resultado, não consegue adaptar-se para o futuro.

  1. A identificação de sintomas do Trauma

A memória do trauma pode permanecer por muito tempo com o indivíduo. Um bom indício da existência do trauma é a impressão de que a experiência passada insiste em permanecer no presente. Ou seja, basta a pessoa lembrar-se do evento perturbador, mesmo que sem querer, para que uma emoção marcante ou pensamentos negativos, imagens nítidas do passado se intensifiquem. Exemplificando esse assunto, no trauma, a memória guarda detalhes visuais, auditivos, físicos e emocionais como se tivesse ocorrido há pouco tempo.

Para as classificações oficiais sobre trauma descritas no DSM-5 e CID 10, enquadra-se o transtorno em vários aspectos, destacando-se os principais da seguinte forma: a) Flashbacks; b) Entorpecimento emocional; c) Insônia ou pesadelos; d) Isolamento social; e) Comportamento autodestrutivo; f) Irritabilidade; g) Agitação; h) Sentimento de culpa; i) Ansiedade e depressão; j) Pensamentos intrusivos; l) Comportamento dissociado; e m) Hipervigilância.

É fundamental ressaltar que a grande maioria dos traumas da infância acabam impactando de forma `negativa na vida adulta´. Sejam elas boas ou más experiências. É na infância que algumas emoções como ansiedade, medo, pânico e problemas familiares podem deixar marcas que se tornam gatilhos emocionais quando adultos.

Cabe destacar que um trauma, quando não tratado na infância, implica um bloqueio na fase adulta, o que pode de alguma maneira interferir em todos os momentos da vida. Por isso, a infância é considerada uma fase importante e os pais precisam ficar atentos aos quadros emocionais dos seus filhos, para que eles não desenvolvam traumas ou até doenças.

  1. Superando o Trauma

Momentos difíceis fazem parte da vida do ser humano ao longo da sua trajetória. Portanto, torna-se fundamental que o indivíduo não desista diante das dificuldades e quando preciso tenha condições de buscar ajuda qualificada.

Nesse sentido, precisamos exercitar nossa inteligência emocional constantemente, mesmo nas situações em que não possuímos controle. Precisamos ter resiliência, fortalecendo crenças positivas e vivências motivadoras para seguir adiante com esperança.

Podemos considerar a resiliência, de forma sintetizada, como a capacidade de recuperação das situações de crise para aprender com elas. Quando caminhamos nesse sentido, tornamos a mente flexível e o pensamento otimista com a possibilidade de criar metas claras e a certeza de que tudo vai passar.

Sendo assim, é preciso iniciar o processo de cura do seu passado. O trauma pode mantê-lo em situação de congelamento, fazendo com que a dor do passado também possa roubar de você o futuro. Portanto, aproveite as pequenas coisas da vida, pois você vai perceber que elas são as coisas grandes.

  1. Considerações finais

A partir dessas informações, podemos verificar que as mudanças ocorridas na atualidade das famílias colocam, muitas vezes, os indivíduos em situações que podem causar trauma emocional, gerando consequências na sua vida adulta. Porém, os traumas podem ser superados se forem devidamente identificados e buscada ajuda profissional.

Ressalta-se que, cada uma das experiências que tivemos em nossas vidas torna-se uma peça de montar no nosso mundo interior e governa nossas reações frente a tudo e a todos que encontramos em nosso cotidiano.

Por fim, para concluir, salienta-se que o trauma atinge a experiência humana de forma ampla e complexa, com consequências que podem atravessar gerações. Portanto, é imprescindível o acompanhamento dos familiares, principalmente com os filhos, para identificar situações traumáticas e buscar ajuda qualificada o mais rápido possível, a fim de reprocessar essas vivências traumáticas e corrigir o dano emocional.

REFERÊNCIAS

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2015.

Levine, Peter A. Uma voz sem palavras: Como o corpo libera o trauma e restaura o bem estar. São Paulo: Summus, 2012.

Monteiro, André. Teoria da regulação e transmissão transgeracional de traumas. Disponível em:  http://espacodamente.com.br. Acesso em 18 de agosto de 2016.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação de transtornos mentais e de comportamentos: CID-10: descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. Porto Alegre: Artmed, 1993.

Salamoni, Silvana Ricci. Casal em foco: Um olhar clínico, abrangente e integrativo.Ed. Trauma Clinic, Brasília, 2017.

Shapiro, Francine. EMDR: dessensibilização e reprocessamento através de movimentos oculares: Eye Movemente Desensitization and Reprocessing: princípios básicos, protocolos e procedimentos. 2ª Ed. Brasília: Nova Temática, 2007.

Scaer, Robert. The trauma spectrum: hidden wounds and human resiliency. Nova Iorque: Quebecor World Fairfield, 2005.

Publicado na Revista Escola de Pais Seccional da Grande Florianópolis – dezembro de 2019, pg. 32

Anna Cláudia Bringhenti Ozelame – Psicóloga, CRP 12.03063. E-mail: psi.annaclaudia@gmail.com

Odimar Ozelame – Engenheiro Agrônomo M.Sc. E-mail: oozelame@hotmail.com

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