Transtorno alimentar na adolescência

O alimento e as fezes são as primeiras formas de manipulação social. A criança agrada ou aborrece os pais recusando ou aceitando a comida. Ela acredita que determinados alimentos mais amargos ou azedos dados a ela podem ser uma tentativa de envenenamento.

Sigmund Freud (1893) teve como paciente uma jovem com diagnóstico de histeria e um de seus sintomas era a anorexia. Quando era criança, a paciente tinha uma mãe muito severa, que persistia para que ela comesse toda a carne que tivesse deixado no almoço, mesmo que fosse duas horas depois, quando a carne já estava fria e a gordura toda congelada. Ela o fazia com enorme nojo, e guardou a lembrança disso. Mais tarde, já adolescente e sem estar mais sujeita a essa punição, sentia regularmente náuseas na hora das refeições.

Alguns adolescentes rejeitam o ritual da alimentação em família por aborrecimentos que viveram na infância com a obrigação de comer ou “limpar o prato” ou mesmo por uma transferência. Às vezes não é a comida que não conseguem engolir, mas determinada companhia às refeições.

Estatísticas do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos mostram que 1% das adolescentes desenvolve anorexia, doença que pode levar à morte por desnutrição. Entre 2% e 3% das mulheres jovens desenvolvem bulimia, transtorno caracterizado pela ingestão de uma quantidade excessiva de alimento que, depois, é expelido por vômito induzido. Tanto a bulimia quanto a anorexia nervosa ocorrem com maior incidência nas adolescentes. Não será difícil entender que uma silhueta e um corpo ideal é tudo o que as jovens querem, pois elas estão numa idade idealizada pelos adultos. São incentivadas de uma forma velada ou explícita a manter a forma perfeita e a usar os seus corpos.

Segundo o psicanalista Contardo Calligaris (2003), o que vemos no espelho não é bem nossa imagem, mas sim a imagem que sempre deve muito ao olhar dos outros. Vejo-me bonito ou desejável se tenho razões para acreditar que os outros gostam de mim ou me desejam. Por isso, o espelho é ao mesmo tempo apaixonante e ameaçador para o adolescente, já que gostaria de descobrir o que os outros vêem nele. O espelho do adolescente é vazio. Podemos entender então como essa época da vida possa ser campeã em fragilidade de autoestima, depressão, tentativas de suicídio e o desenvolvimento de distúrbios patológicos como anorexia e bulimia.

DESPRAZER

Em o “Mal-estar na civilização”, Freud (1929) afirma que os distúrbios patológicos servem para nos capacitar contra sensações de desprazer que sentimos ou pelas quais somos ameaçados. O ego utiliza como método o distúrbio patológico, que corresponde a um vínculo mais íntimo entre o ego e o mundo que o cerca. A partir disso, surge uma tendência a isolar do ego tudo que pode tornar-se fonte de tal desprazer, a lançá-lo para fora e a criar um puro ego em busca de prazer, que sofre o confronto de um ‘exterior’ estranho e ameaçador.

Na lógica inconsciente, seria uma solução para saciar a vontade de comer atender à “necessidade” de manter a forma ditada pela sociedade. O sintoma de comer compulsivamente e provocar o vômito em seguida satisfaz as duas partes: ego e mundo externo. Portanto, é perfeitamente possível que um adolescente passe a apresentar este distúrbio patológico e nunca se queixe de sofrimento, pois o sintoma consegue dar conta dos dois opostos, levando o sujeito, em casos extremos, à morte, se a família não tomar providências.

Segundo Kaplan (1997), os bulímicos preocupam-se com a imagem corporal, com a aparência, o modo como os outros os vêem e com a atratividade sexual. A maioria é sexualmente ativa, em comparação com os anoréxicos, que não se interessam por sexo e sofrem até mesmo com a diminuição da estatura física, com prejuízos ao desenvolvimento de caracteres sexuais.

Ao contrário das jovens bulímicas, as anoréxicas perdem os contornos femininos, têm os seios, quadril e cintura reduzidos com a perda das gorduras localizadas e o ciclo menstrual é interrompido, interditando um corpo que está se preparando para atingir o auge da maturidade sexual.

Esta atitude encontra correspondência no ato de se enfeiar, demonstrado por Calligaris (2003), no qual o jovem abdica da sexualidade e, sobretudo, da desejabilidade como valor social. Na visão desta adolescente, tornar-se feia é criticar um sistema que aprecia os corpos como razão do reconhecimento da sociedade.

Este artigo foi publicado na Revista Dimensão nº 46 – setembro de 2006, p. 12-13. É uma publicação da Escola de Pais do Brasil – Seccional Florianópolis.

Maria Cecília Fritsche – Psicóloga  e-mail: cecília.psico@uol.com.br 48-9989.1417

 

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