Tal mãe, tal filho

COMO A ALIMENTAÇÃO DURANTE A  GESTAÇÃO INTERFERE NO FUTURO DA CRIANÇA

 O novo Guia Alimentar da População Brasileira elaborado pelo Ministério da Saúde recomenda o consumo de alimentos frescos, de procedência conhecida e a utilização de alimentações in natura. A recomendação não chega a ser novidade, mas o que me chamou a atenção no guia e motivou o assunto desta coluna foram os números da obesidade no Brasil. Atualmente, 51% da população brasileira está acima do peso, sendo 17% obesos. Crianças e adolescentes não fogem a essa regra: hoje, uma em cada três crianças e um em cada cinco adolescentes estão acima do peso. Esse quadro, bastante recente, é resultado de hábitos adquiridos nos últimos 20 a 30 anos: sedentarismo, consumo excessivo de industrializados, gordura trans, açúcar, sal, bebidas alcoólicas e outros.

Que os hábitos de uma vida toda são decisivos no aparecimento de doenças, todo mundo já sabe. O que muita gente não sabe é que as principais patologias da idade adulta (obesidade, diabetes, hipertensão e outras) têm origem e podem ser preventivas ainda na barriga da mãe. É nesse momento (gestação) que nosso histórico físico e mental começa a ser modelado e programado. É a chamada “Programação Metabólica”, oportunidade que a mãe tem de moldar de forma permanente a estrutura física, mental e metabólica do bebê. Diversos fatores podem influenciar essa programação, mas a mais importante é a nutrição da mãe.

É muito comum, por exemplo, que pessoas com excesso de peso na vida adulta tenham sido geradas por mães que sofreram restrição alimentar ou que tiveram deficiências nutricionais na gestação. É como se essas pessoas desenvolvessem um mecanismo de “defesa” e se tornassem muito mais eficientes em armazenar gordura do que aquelas que tiveram uma boa nutrição.

Assim como mães que fizeram uma alimentação rica em açúcar e carboidratos refinados e desenvolveram diabetes gestacional costumam gerar filhos com mais de 4,5 kg e com grande capacidade de armazenar energia. São os chamados GIGs (sigla que significa Grandes para a Idade Gestacional). Esses bebês já nascem com um nível elevado de glicose no sangue e costumam fazer hipoglicemia ao nascer, além de terem muito mais chance de serem obesos na vida adulta.

O contrário também ocorre. Ter bebês abaixo do peso não significa que eles estejam livres de risco. Pesquisas indicam que, quando a mãe tem uma alimentação pobre em nutrientes, o filho tem mais chance de nascer desnutrido e desenvolver doenças cardíacas, resistência insulínica e hipertensão na vida adulta.

Até fatores que parecem incomodáveis como cólicas ou as despertadas da madrugada podem ser evitadas. A retirada do leite e derivados da dieta da mãe pode diminuir muito a incidência de gases e cólicas no bebê, isso porque a lactose presente nesses alimentos é indigesta para muitos deles e pode provocar esses desconfortos. Crianças com deficiência de vitamina B12 costumam ser mais chorosas e acordarem mais à noite do que crianças com níveis apropriados dessa vitamina.

Assim, é muito importante o acompanhamento nutricional da mãe para que ela obtenha nutrientes na quantidade adequada, nem mais, nem menos.

É claro que a nutrição da mãe não é um atestado definitivo de que o filho desenvolverá doenças na idade adulta, porque os hábitos de vida também contam. Mas conhecendo esses fatos e sabendo que podemos diminuir consideravelmente o risco de doenças na vida de nossos filhos, não estaríamos dispostos a adotar uma alimentação saudável durante a gestação e a amamentação? Acredito que não há patrimônio maior para o ser humano que saúde. É a partir dela que conseguimos usufruir de todas as outras dádivas que a vida nos oferece como a família, os amigos e o trabalho.

Quem sabe não está aí a chave para mudarmos esse quadro epidêmico de obesidade. Isso sim é promoção da saúde.

Publicado no Jornal Diário Catarinense – caderno Vida e Saúde, 31/05/2014, p. 2.

Ana Paula Bedin – Nutricionista da Ânima Nutrição Integral. E-mail: a.paulinhabedin@gmail.com

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