Sobre a liberdade dos jovens e a autoridade de pais e professores: Algumas reflexões

Vivemos um mundo de constantes modificações, não só do ponto de vista material, de estruturas e equipamentos, mas, também, do ponto de vista de atitudes e comportamentos das pessoas. Tornou-se comum, atualmente, vermos cenas ou sabermos de jovens faltando com respeito com pessoas mais velhas em diversas situações do cotidiano. Isso nos leva a refletir sobre os limites da liberdade e o papel da autoridade dos pais e professores neste processo de formação dos jovens.

Se no passado a autoridade estava garantida pela tradição, pela experiência dos antepassados e pelo discurso religioso, hoje ela precisa ser sustentada e recolocada continuamente. O autor Julio Aquino (1999) considera a autoridade como ocupação de um lugar social instituído, lugar este preexistente e predeterminado historicamente e, como tal comportando dois lados que se complementam e se sustentam o tempo todo. Portanto, a autoridade está ligada a ideia de delegação e crédito ao outro. Para ele, a autoridade deve ser compreendida como uma espécie de contrato, que se ritualiza a cada instante, dependendo de como a relação entre os parceiros deste “contrato” se desenrola.

O primeiro é o que desencadeia a ação e é por ela responsável, enquanto o segundo é o alvo da ação e dela donatário. A autoridade dos pais ou dos professores, por exemplo, é um fenômeno com efeito mutante, visto que tanto eles quanto seus filhos ou alunos, estão expostos a um sem-número de circunstâncias que podem favorecê-la ou, ao contrário, colocá-laem xeque. Equanto mais adversas forem estas condições, mais a autoridade se fará necessária.

Em outras palavras, o fenômeno da autoridade só pode ser compreendido como um efeito das condições concretas de sua atuação. Nesse sentido, o reconhecimento da autoridade dos pais ou dos professores não é uma reação automática, nem um dever “natural” dos filhos ou alunos: ele precisa ser lapidado, forjado na ação cotidiana, e sempreem ato. Portanto, não podemos mais conceber as instituições sociais (neste caso a família e a escola) e as funções de seus atores (pais e professores) como algo estável, sólido, compulsório.

Sem dúvida este é um assunto que deve ser debatido por todos os atores nas mais diversas esferas da vida social. Num mundo cheio de transformações, transferências de responsabilidades, mudanças de papel e de competências, de busca por democracia e liberdade de expressão, a autoridade dos adultos diante das crianças e jovens, passa a ser algo de fundamental importância para que haja o desenvolvimento do sentimento de liberdade, autonomia e, consequentemente, o da responsabilidade. Quanto maior a liberdade, maior é a responsabilidade.

O educador Paulo Freire (1989) fala em uma de suas obras de que teve uma professora brilhante que o marcou enormemente, porque se movia muito bem com sua autoridade diante das liberdades de cada uma das crianças da turma. Era democrática, mas tinha a consciência de sua autoridade, de que devia fazer funcionar a autoridade dela, sem a qual as liberdades dos seus alunos não se constituiriam.

Por mais difícil e complicado que possa ser educar nos dias atuais, o adulto jamais poderá abrir mão de sua autoridade, seja diante de filhos para quem é pai e mãe, seja para os alunos, para quem é professor. Quando a autoridade renuncia a si mesma, a liberdade não se constitui como tal e, se o professor um dia renunciar a sua autoridade, nesse momento ele deve desistir de ser professor.

Portanto, para os pais, como não podem deixar de serem pais, jamais poderão abrir mão de sua autoridade diante da educação de seus filhos. Já presenciei professores e pais dizendo que não dão conta mais de filhos ou alunos crianças ou adolescentes. Pior é que ao dizerem isto na frente deles, estão demonstrando suas fraquezas e inseguranças, fortalecendo atitudes de falta de respeito, desobediência, enfrentamentos. É fácil de entender que isso ocorre porque perderam o controle da situação, perderam a autoridade diante deles.

Conforme Contreras Domingo (2003), para ter autoridade é necessário autorizar-se, atrever-se a fazer o que tem que ser feito. E o que tem que ser feito por parte do adulto da relação, sejam pais ou professores, é dar direção, limites, combinar algo, fazer cumprir e cumprir o que foi combinado, sempre.

Os pais e professores que têm autoridade, sem precisar dizer nem ocultar, mostram a seus filhos ou alunos as profundezas e advertem sobre os perigos que poderão encontrar na caminhada. O fundamental no ato de educar consiste em os pais e professores conseguirem, cada um dentro de seus limites de competência e responsabilidade, autorizarem os filhos ou alunos a pensarem por si mesmos, porque confiam na autoridade deles como pais ou professores, porque lhes concedem autoridade que lhes dá um caminho, porém, um caminho que os dirige a si mesmos. Aí sim estaremos formando crianças e jovens respeitosos, responsáveis e conscientes de seus atos e atitudes.   

 Referências:

 AQUINO, Julio Groppa. Autoridade docente, autonomia discente: uma equação possível e necessária. In: AQUINO, Julio Groppa (Org.) Autoridade e autonomia na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulp: Summus, 1999.

CONTRERAS, Domingo. La didáctica y la autorización Del profesorado. In: TIBALLI, EliandaF. Arantes; CHAVES, Sandramara Matias (org.). Concepções e práticas em formação de profesores: diferentes olhares. Rio de Janeiro: DP&A 2003, p. 11 – 31.

FREIRE, Paulo. Dialogando sobre disciplina com Paulo Freire. In: D’ANTOLA, Arlette (org.). Disciplina na escola: autoridade versus autoritarismo. São Paulo: EPU, 1989.

 Publicado na Revista Programa do 49º Congresso Nacional da Escola de Pais do Brasil – São Paulo – junho de 2012, p. 53.

 Gildo Volpato – Professor – Doutor em Educação – Reitor da UNESC / Criciúma – SC.

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