Reflexões sobre o uso da Internet

Sou membro da Escola de Pais desde que era um bebê, visto que meus pais já participavam do movimento e além de ter recebido uma educação baseada no amor e no diálogo, com limites claros e bem colocados, participava dos encontros sempre que possível.

Nasci em 1979, e no Brasil, nessa época, não tínhamos acesso a computador e internet. Essas duas tecnologias passaram a ser difundidas em nosso país na década de 90. Eu já era adolescente e foi nessa época que comecei a aprender a usar um computador e ter acesso limitado à internet. Já outras mídias como o  celular e notebook, só fui utilizar quando adulta.

O indivíduo que nasceu após o advento da internet tem outra relação com as mídias, pois está entrando em contato cada vez mais cedo com elas. Isso não seria problema se houvesse orientação, supervisão de adultos. Em matéria de Sérgio Quintella publicada no site da Revista Veja, em 17 de julho de 2017, psicólogos relataram que o número de crianças viciadas em tecnologia tem aumentado e isso vem ocorrendo por falta de acompanhamento dos pais. Sobre essa falta de acompanhamento existem muitos pontos a refletir e que tem tornado nossas crianças e adolescentes vulneráveis e em situação de risco, cito alguns dos prejuízos causados pelo uso excessivo da internet, redes sociais, aplicativos e mídias (computador, notebook, tablet, celular, videogame): tornar-se sedentário, ter dificuldade em resolver conflitos, desenvolver ansiedade, adquirir prejuízos à saúde visual, auditiva, enxaquecas, lesão por esforço repetitivo, obesidade, problemas neurológicos e psicológicos (depressão, transtorno Borderline), vícios no uso das mídias e da internet, colocar a si próprio e sua família em situação de risco, cometer suicídio.

Tenho visitado escolas públicas e privadas para conversar com adolescentes sobre o uso da internet, e quero falar um pouco desses momentos.  Ao iniciar o trabalho com adolescentes, faço um levantamento de quem tem celular desde criança, quem tem computador no seu quarto, quantas horas eles ficam em frente aos eletrônicos e vou refletindo sobre esses aspectos. Conforme vou conversando vou aprofundando as reflexões, visando a reflexão sobre sua relação com as mídias e com a internet, entre estas questões, a divulgação de imagens de violência e imagens íntimas com crianças e adolescentes.

Faço isso para abordar o respeito à vida, a si mesmo e ao outro.  Nessa reflexão, tenho percebido que muitos, ao receberem imagens (fotos/vídeos) de colegas brigando, ou em situação íntima, as repassam como se estivesse tudo certo, banalizando uma situação de conflito, de violência, ao invés de oferecer apoio e tentar ajudar os envolvidos. Com relação às brigas, alguns adolescentes dizem que se sentiriam mal, outros dizem que se estivessem batendo no outro tudo estaria bem. Porém, quando questiono sua responsabilidade caso algo mais grave aconteça com os envolvidos na cena (briga ou imagem íntima), alguns reconhecem que o individuo que visualizou, filmou ou repassou e que esteve envolvido no conflito (briga) ou na imagem íntima é responsável caso ocorra um homicídio ou suicídio.

Esse respeito ao outro, à vida, é aprendido no convívio social, primeiro na família e reforçado por outras instituições como a escola, instituições religiosas, legislação. Existem diferentes formas de aprender o respeito, mas destaco duas formas de regulação que nos possibilitam o respeito ao outro: uma é interna, desenvolvida no convívio com as pessoas e a outra é externa, baseada nas leis, a exemplo do Art. 5º do Estatuto da Criança e o Adolescente: “Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais”. (Lei nº 8.069/1990).

Nós, educadores, formais ou informais, devemos levar ao conhecimento do jovem a importância do respeito, mas também precisamos fazer com que eles reflitam sobre isso e sobre o nosso estatuto.

Agora, o que nós adultos precisamos nos questionar e observar de forma crítica, primeiramente, é se paramos para escutar nossos filhos, nossos alunos, depois precisamos refletir sobre como estamos lidando com essas ferramentas tecnológicas dentro de nossas casas. Estamos deixando nosso filho (a) crescer e usar esses instrumentos sem supervisão, sem orientação a ponto de nosso filho ou filha, ao invés de em sua infância aprender a se relacionar com seres humanos está aprendendo a se relacionar com uma máquina a ponto de não ter recursos internos para se relacionar de forma saudável com outras pessoas? Ou ainda, a ponto de se viciar e preferir relacionar-se com máquinas em detrimento de pessoas?

Referências:

QUINTELLA. Sérgio. Psicólogos atendem cada vez mais crianças viciadas em tecnologia. Cidades. Disponível em: http://vejasp.abril.com.br/cidades/criancas-adolescentes-dependentes-celular-tablets-games/ Acesso em: 20 de julho de 2017.

ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990.

Publicado na Revista Escola de Pais do Brasil – Seccional da Grande Florianópolis, nº 7, outubro de 2017,  p. 14.

Camila Detoni Sá de Figueiredo – Psicóloga, especialista em Psicologia Clínica, Mestre em Educação/UDESC

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