Morte na família: sobrevivendo às perdas

Por toda a história e em todas as culturas, os rituais de luto facilitam não apenas a integração da morte, mas também as transformações dos sobreviventes para que a vida continue.

Da perspectiva familiar sistêmica, a perda pode ser vista como um processo transacional que envolve o morto e os sobreviventes em um ciclo de vida comum, que reconhece tanto a finalidade da morte como a continuidade da vida. Alcançar o equilíbrio nesse processo é a tarefa mais difícil que uma família deve enfrentar em sua vida.

E qual a finalidade da morte? Do ponto de vista individual, saber que vamos morrer ajuda a fazermos um plano para nossa vida. Podemos também ter a morte como “aliada” para procurar viver uma “boa vida”.  Essa perspectiva nos ajuda a valorar a vida e suas questões. Do ponto de vista coletivo, morrer é dar lugar para que outros possam viver! E por sua vez, ter a certeza da continuidade da vida nos ajuda a partir em paz e deixar para aqueles que ficam a confiança necessária para continuar o dia a dia e saber que a dor vai se transformar numa “saudade gostosa”, podemos com o tempo lembrar histórias, rir e chorar quase tudo ao mesmo tempo.

Na família acontecem muitas transformações, uma delas é que alguém “toma o lugar do morto”, num acordo implícito. Alguém vai procurar exercer suas funções e assim terá dificuldade de viver sua “própria vida”, já que está no lugar do outro.

Além disso, podem ocorrer sintomas, alguém pode adoecer: pânico, depressão e outras doenças podem surgir a partir daí. O trauma da morte é um dos maiores estressores que podemos enfrentar e a raiz de muitas doenças.

Outras transformações que acontecem são as brigas e rupturas. Algumas brigas acontecem pela disputa de herança, outras têm como raiz a culpa e a raiva. Muitas vezes no primeiro momento buscamos um culpado, até aceitarmos a perda como um processo natural da vida.

O luto é processo interno e também familiar

 Como processo interno, o luto consome uma grande energia; sentimos-nos “esgotados” e algumas vezes também “aliviados”, dependendo da situação, o que também nos causa culpa. Em outras situações, nós sentimos paz, porque acreditamos que cumprimos nossa missão.

No luto passamos por várias etapas: primeiramente negamos, não acreditamos que aconteceu; depois nos revoltamos; sem seguida pensamos numa permuta: podia ter sido eu e não ele; e finalmente aceitamos e vamos buscando um jeito de ficar em paz com o que aconteceu.

Alguns fatores são muito importantes para influenciar na elaboração do luto:

 – Como a morte aconteceu – naturalmente, em função de uma doença ou acidente; a idade do morto, se trata-se de é uma pessoa mais velha geralmente se aceita com facilidade. Já quando é uma pessoa mais jovem causa um sentimento de “injustiça”;

– O suicídio faz com o que o luto seja mais difícil de ser elaborado. Na nossa cultura o suicídio é um tabu. Pode também acontecer um suicídio disfarçado por meio de um “acidente”;

– A fase do ciclo de vida em que a morte acontece: se ela acontece quando os filhos são pequenos, quando o casal já está aposentado etc;

– O papel e a função que o morto desempenhava no sistema familiar: se a pessoa que morreu desempenhava um papel fundamental ou mais periférico isso também interfere na elaboração do luto;

– A disponibilidade da família extensa, de recursos sociais e econômicos são outros fatores importantes na ajuda para adaptar a família a essa nova situação e poder seguir em frente;

– A capacidade de se comunicar, falar dos sentimentos e sofrimento. Em muitas famílias não se pode falar do morto e da dor cada um está sentindo. Acreditam que falar é pior. O segredo vai afastando as pessoas e criando um muro entre elas que pode vir a separá-las. Por exemplo: muitos casais se separam após a perda de um filho, não conseguem elaborar a dor e vão se afastando…

– Relações conflituosas ou rompidas na época da morte é outro fator importante. Às vezes um filho está rompido com o pai e este pai morre, não consegue se despedir, pedir perdão etc. Aparentemente, pode-se ter a ilusão que tanto faz, mas na verdade esse fator interfere na elaboração do luto, podendo complicá-lo.

Às vezes, o processo de luto congela o indivíduo e a família e todos passam a viver como se “papai ainda fosse vivo” ou respeitando a vontade de papai, mesmo que está vontade traga prejuízo para a família.

Além das perdas por morte, existem as perdas não reconhecidas, como quando alguém, principalmente o mantenedor da família, perde o emprego; quando acontece um aborto; quando acontece o divórcio do casal ou de um dos filhos; quando a família sofre uma catástrofe: incêndio, falência, enchente, assalto…Essas perdas também fazem com que família passe por um processo de luto e precise buscar uma nova adaptação para seguir com a vida.

E como ficar em paz com uma perda?

Luto significa luta, briga. A luta é interna e externa, porque muitas vezes se manifestam nas relações familiares. Buscar a paz é um processo que passa por várias fases que já foram citadas. Consegue-se a paz negociando-se consigo mesmo, buscando uma “compensação”.

Um exemplo que ouvi e fiquei muito estarrecida e ao mesmo tempo encantada: uma viúva americana do 11 de setembro criou uma organização para ajudar as viúvas do Afeganistão, lá quando ficam viúvas, as mulheres se tornam criadas da família. Às vezes são expulsas e, sem nenhuma instrução, ficam jogadas à própria sorte. Outro exemplo que podemos citar é o da mãe do Cazuza, Lucinda Araújo, que criou uma fundação para ajudar crianças com AIDS.

Buscar a paz é aceitar a vida como ela é. Aceitar a morte como parte da vida. Morrer é a última coisa que fazemos pela nossa própria vida.

A vida e a morte estão sempre de mãos dadas, na nossa frente. A morte nos ensina a viver melhor. Percebemos a dimensão do tempo, de que temos tempo, mas ele não é infinito, temos força, mas ela não é infinita… Precisamos usar bem nossos recursos e sentir que vivemos uma vida com sentido, assim poderemos viver bem e morrer bem! Teremos uma “boa vida” e uma “boa morte”.

Publicado na Revista Escola de Pais do Brasil – Seccional da Grande Florianópolis nr 7, out 2017, p. 22.

Marcia Alencar – Psicóloga – CRP 12/00559, Psicoterapeuta e Hipnoterapeuta, Especialista em Psicologia Clínica – Florianópolis. E-mail: psicomar@terra.com.br

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