Medo de quê? Flores?!?

Todo mundo tem medo de alguma coisa. Perder o emprego, contrair uma doença contagiosa, sofrer um acidente de trânsito, passar por mais uma enchente com falta de água e deslizamentos de encostas (isso é mais para quem mora em Blumenau, como este humilde que ora se enuncia). Esses, por assim dizer, são os medos mais comuns. Mas existem medos mais sofisticados, que muitas vezes escapam à nossa compreensão.

Conheço um sujeito que tem medo de passarinhos. Outro que possui verdadeiro pavor de gatos siameses – apenas os siameses – já que cria meia dúzia de bichamos pretos, brancos e malhadinhos. Uma vez, no TV, assisti a uma matéria sobre um piloto de helicóptero que tinha medo de altura. E também tem gente que, por excesso de prudência, tem medo das mulheres, não detestá-las ou desprezá-las, mas, ao contrário, por amá-las acima de todas as outras coisas.

Enfim. Simples ou elaborados, entendíveis ou completamente estranhos ao senso comum, vale a pena frisar que todo mundo tem medo de alguma coisa.

De minha parte, hoje resolvi fazer uma confissão constrangedora: tenho mede de flores. Sim, flores, e a explicação de tamanha idiossincrasia, obviamente, são pode se encontrar na minha infância.

Em vez de me mandar para a horta capinar o repolho, tarefa reservada aos primos mais velhos, minha avó me mandava juntar as folhinhas caídas num jardim repleto de rosas.

O cheiro das flores, portanto, me faz lembrar as manhãs que gastei num trabalhinho chato e inútil (“puxa, Oma, por que não deixamos as folhas aí no chão, o jardim fica tão bonito assim!”). O cheiro das flores também me faz lembrar a minha prima Graciane. Eu costumava quebrar os espinhos das roseiras para dar “pics” na bunda da coitadinha. Quer dizer, nem tão coitadinha assim. Ela sempre se virava com uma velocidade de jaguar e me acertava um estalado tabefe nas ventas. Até hoje, basta aproximar as narinas de um buquê para que meu rosto comece a arder.

Usando a mesma lógica memorialista, sei que em algum momento relacionei o cheiro das flores aos velórios e aos cemitérios. Se tirarmos a fedentina das velas derretidas, o que sobra para compor a fragrância das necrópoles? A relação é inevitável: de flor, vou para túmulo; de túmulo, para morte; de morte, para cadáver; de cadáver para carne putrefada e daí, finalmente, para o pânico que me leva a abominar as pétalas de todas as cores e odores.

 Mas a razão de ser da minha implicância com as flores encontra origens mais fortes num antigo conto infantil. Minha avó, de novo ela, é que costumava repetir a história para mim e meus primos à beira do fogão. Era a saga de duas crianças que saíram em busca do paraíso. Enquanto a primeira escolheu seguir por um caminho árduo e acidentado, a segunda, mais acomodada, optou por trilhar uma vereda feita de flores. O

 desfecho é previsível: as flores se tornaram espinhos e dilaceraram o corpinho dessa criança folgada que, em vez de encarar o sofrimento, preferiu se entregar à beleza e à tranquilidade. Quanto à criança que escolheu o caminho difícil, foi recebida por Jesus no portãozinho sem trancas do Paraíso. Morro de saudade da minha vó, mas, de todas as histórias que ela tinha no repertório, essa é de longe a mais besta e moralista.

No meu universo simbólico particular, as flores são sinônimos de tapa na cara, trabalho chato, más escolhas, dor, arrependimento e morte. Pensem o que quiserem a meu respeito, mas quero distância dessas malditas.

Maicon Tenfen – artigo publicado no Jornal Diário Catarinense, 20/03/2012, variedades, p. 3.

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