LAGOA DE PAPEL

Vejo perambular por aí sujeira e esgoto quando penso no garoto Udson Lago. Inteligência notável e memória privilegiada, o menino lia tudo que lhe caísse às mãos. Melhor, devorava. Intuitivamente percebia que, lendo em quantidade, era mais original, muito embora seus conhecimentos fossem baseados no que diziam os outros. E lendo, sabia escrever. E escrevendo, aprendia mais e melhor. Abelhudo, quase nada lhe escapava do agudo interesse pela leitura. Por vezes, relia mais do que lia, quando topava algo interessante. Desconfiava que fossem de suas releituras que nasciam suas reflexões criadoras.

 Próximo ao local onde morava havia um buraco enorme que ficava cheio de água na época das chuvas. O garoto encantava-se admirando a água daquela cacimba. Levantava cedinho e corria para a beira da lagoinha sonhando com veleiros navegando, canoas de pescadores, tainhotas pulando, revoada de garças, lontras pardas e meninos nadando. Muitas vezes, corria para lá ver o reflexo do sol nascente na água parada. O céu, translúcido e sem um fiapo de nuvem, rebrilhava como pano de fundo. Depois ficava lançando pedrinhas em vôos rasantes para fazê-las resvalarem no espelho da água mansa.

Deu-se então que construiu rudimentar canoa de madeira com a ajuda do Fornalha, seu eterno assistente para os projetos de engenharia juvenil. Remar naquele mundo fascinante da lagoa da cava era um sonho perseguido com interesse e paixão. Mas vogar num bote infiel, de tão malfeito, exigia-lhe mais destreza do que possuía. Era péssimo em trabalhos desse tipo. Não herdara o refino manual do pai. Focado no sonho de navegar como o velho, a canoa transformou-se numa armadilha. Negava-lhe explícita obediência. Parecia que fora feita para emborcar. Exigia do piloto senso de equilíbrio para ali se manter. E esse dom o menino definitivamente não possuía. Ele era sutil como uma bigorna. Mas nadava bem e era um cão no quesito persistência. Isso de emborcar a canoa, se molhar, voltar a remar, emborcar e remar de novo era nada, em comparação à vista que ele extraía quando no meio do lago. Era o céu descortinado diante dos seus ávidos olhos azuis. Era um mundo dentro do mundo. Mais, um universo mágico e inexprimível.

À medida que a água da cava ia baixando, coroas de terra iam aparecendo. Então, olhando de dentro para as beiradas do lago, o menino identificava os recantos intocados. Uma nesga de terra beijando a água já se transformava num lugar de sonhar, num lugar de busca e cômodo para o seu talentoso espírito. Vislumbrava e nomeava as praias: Saquinho, Caranhas, das Almas, Rendeiras, da Costa, do Canto e do Porto. Algumas ele somente acessava com aquela canoa. Mais ao longe jurava enxergar um frondoso ipê amarelo no lugar de um pé de inhame, que ninguém sabia como havia se criado ali. No entorno da lagoa artificial ainda visualizava as praias de mar grosso: Mole, Rio Vermelho, Moçambique, Galheta, Santinho, da Barra, Joaquina e Campeche. O laguinho era ponto de encontro consigo mesmo. Tinha até um centrinho com a cara urbana. Ali os moradores se encontravam. Gambás e vespas, por certo, mas eram encontros naturais e importantes para a vida da comunidade. Gambás não pescavam, nem vespas eram malabaristas dos bilros nas almofadas de rendas. Mas, às vezes, ele apostava que via isso. De certo via mesmo, mas através dos olhos de sua inocente alma juvenil.

Foi então que percebeu o sol impiedoso secando o lago. As praias foram se transformando em lama revelando a imundície que insistia em aparecer. Eram garrafas e sacos plásticos, animais mortos, pneus velhos, tranqueira de galhos de árvores, poltronas e móveis inservíveis, lixo e mais lixo. Até os restos da carcaça de um fusca apareceu no baixar da água. A cada novo dia ficava mais difícil navegar.  Até que o inferno mostrou-se por inteiro. Um postal que só albergava fedorenta revoada de urubus cobiçando as carniças que iam aparecendo. O mesmo sol que produzia o encanto do amanhecer apagou o futuro do lago de inspiração poética. Não que o sol fosse o responsável pela degradação ambiental da lagoa. Não e não! Ele apenas cumpria o seu papel de permanecer sol. Quanto mais brilhava, mais fazia sumir a água do lago. O menino quase entrou em desespero diante da angústia de nada poder fazer para salvar a lagoa que se transformava num charco podre. Mormente depois que ele flagrou vizinhos depositando ali os entulhos que produziam nas próprias casas. Talvez na época das chuvas o lago fosse renascer.

Novel ginasiano, hoje doutor, tinha como professora de português a respeitável Leonor de Barros. Irmã da não menos ilustre Antonieta, Maria da Ilha, a primeira catarinense a ter assento na Assembleia Legislativa. Ao final de uma de suas aulas, a mestra estabeleceu como tarefa de casa uma redação com o tema “O Amanhecer na Lagoa da Conceição”. O menino produziu um texto tão fiel que lhe renderia homenagens da veneranda senhora pelo resto do ano. Convertendo a cacimba em linguagem literária, transferiu tudo para o oco do coração daquela mulher. Iniciou oferecendo uma visão apaixonada do paraíso e concluiu chorando-lhe a morte, num breve e irremediável destino, se algo não fosse feito. Perguntado se conhecia o local, respondeu que jamais estivera lá. Indagado, ainda, como soubera tão fielmente descrevê-lo, explicou, com o desembaraço e o verdor de inteligência que lhe definia a personalidade: “relendo o jornal que embrulhava o peixe”.

Publicado na Revista Escola de Pais do Brasil – Seccionais de Biguaçu e São José, nº 5, junho de 2014, p. 39.

Luiz Carlos de Sousa – O autor é servidor estadual.

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