Inclusão e exclusão da família no mundo da comunicação contemporânea

Este mundo contemporâneo em que vivemos se tornou uma verdadeira “aldeia global”. A globalização, em vários aspectos, tem servido de canal de aproximação dos povos. Isso também está sendo possível, graças ao desenvolvimento que a comunicação tem experimentado mais recentemente, desde que consideremos que o ato de comunicar signifique colocar algo em comum. Ao lado disso tudo, assistimos uma evolução muita profunda e rápida dos diversos meios de comunicações sociais disponíveis na atualidade. Surge a Internet; o E-Mail, o Telefone Celular; a Mídia Eletrônica; as Redes Sociais, como o Facebook, o Twitter, o MSN, o Orkut, o Skype, o Instagram, o Pinterest, o Tumblr, o Path, o Soundcloud, etc.

Tudo é muito maravilhoso!

Porém, algumas reflexões merecem ser feitas sobre questões como a importância da comunicação no processo educativo; como a comunicação afeta o relacionamento entre o esposo e a esposa, entre pais e filhos, entre a família e outras famílias (sociedade); a importância do emissor e do receptor no ato da comunicação; o sentido da realização de um bom feedback e, principalmente, como lidar com a inclusão e a exclusão das pessoas neste mundo da comunicação.

Mesmo sabendo que vivemos numa sociedade da comunicação, da informação on line, é preocupante porque muitas pessoas vivem excluídas desse mundo e o que é pior, recebem pouca ou nenhuma formação. Essa segregação tem dificultado muito as relações interpessoais e interfamiliares. A outra preocupação diz respeito ao universo dos inclusos nesse mundo da comunicação, os conflitos que vão naturalmente aparecendo entre as gerações de pais e filhos. Enquanto os filhos, geralmente, já nascem, crescem e convivem com maior facilidade com todos os avanços que a tecnologia da comunicação lhes oferece, os pais nem sempre tem essas mesmas facilidades. Enquanto os filhos incorporam as inovações com certo grau de rapidez, os pais, muitas vezes, demoram mais para entendê-las e fazê-las parte de seu cotidiano. Porém, isso não pode servir de motivo para desespero dos pais. Pois, de tudo que sei, já dizia o filósofo Sócrates, “só sei que nada sei”. É preciso buscar mais conhecimento e interagir melhor com os filhos. Aí, a comunicação torna-se fundamental. 

No processo da comunicação, o emissor tem a responsabilidade de transmitir sua mensagem com clareza, firmeza e sabedoria. Isso exige também muita paciência e perseverança. Já, ao receptor, cabe saber ouvir, ser obediente, ter disciplina e responsabilidade. Quando tudo isso acontece sem maiores ruídos, sem maiores dificuldades, o entendimento entre as pessoas é facilitado e, consequentemente, temos mais harmonias conjugal, familiar e social.

No relacionamento entre pais e filhos, o ato educativo exige essas e outras propriedades de uma boa comunicação. Compreendendo que, comunicar é fazer-se entender; estar capacitado para falar e, principalmente, para ouvir. Nesse sentido, devem-se evitar algumas barreiras da nossa capacidade de ouvir os outros, como por exemplo, audição seletiva (só ouvir o que nos interessa), falta de interesse pelo assunto tratado, ansiedade, crenças e sentimentos.

As psicólogas Adri Dayan, Dina Azrak e Elisabeth C. Wajnryt, ao traduzirem e prefaciarem o livro “Como Falar para seu Filho Ouvir e Como Ouvir para seu Filho Falar”, de Adele Faber e Elaine Mazlish, chama a atenção para a questão de que os pais, em geral, querem para seus filhos, que se tornem pessoas fortes, humanas e sejam felizes. Para elas, falar é fácil. O desafio é transformar este objetivo em habilidades muito práticas e eficientes. Nesse aspecto, elas entendem que as autoras do livro referido acima, conseguem colocar algumas questões, que geralmente são complicadas, de uma forma mais simples e práticas. Por exemplo: como ouvir seu filho; como aceitar seus sentimentos negativos; como conseguir a sua cooperação; quais as alternativas possíveis e educativas ao castigo; como estimular a autonomia e a responsabilidade; como elogiá-los de maneira construtiva e, finalmente, como tirá-los de rótulos estabelecidos.

No ato de comunicar, também é importante preocuparmos com o conteúdo, ou seja, com o que se diz. Bem como, com a forma: como se diz. Termos posturas mais assertivas, onde devemos declarar com firmeza o que pensamos, queremos e sentimos, com auto-respeito e respeito pelos outros; ao invés de termos posturas passivas e agressivas.

Outra questão importante no processo da comunicação, trata-se de dar o feedback. Aqui entendido como dar retorno ou resposta a uma mensagem enviada por um emissor a um ou mais receptores. Esse feedback pode ser dado oralmente, por escrito ou através de gestos/atitudes. É quando partimos do problema e visamos às oportunidades. Ou seja, são as oportunidades que temos de aprendizado, autoconhecimento, autodesenvolvimento, aperfeiçoamento, mudança e de confiança. Segundo Rhandy Di Stéfano, “Dar feedback é ter a capacidade de informar algo que ajude o outro a perceber o que funciona e o que não funciona nas suas ações”.

A resiliência também deve estar presente nesse processo comunicativo. Resiliência considerada principalmente nos sentidos de capacidade de uma pessoa lidar com seus próprios problemas, vencer obstáculos, lidar sob pressão e ter a capacidade de voltar ao seu estado natural. Ser resiliente é também praticar o exercício de equilíbrio entre o amor-próprio e a humildade. Na visão de George Souza Barbosa (2006), a resiliência é obtida cruzando-se cinco fatores: administração das emoções; controle dos impulsos; empatia e otimismo; autoeficácia; e alcançar as pessoas.

Portanto, como podemos perceber, no processo da comunicação social existem fatores que podem ser facilitadores, porém, também existem outros fatores que podem ser complicadores.

É o caso da utilização em massa da Internet e das diversas redes sociais disponíveis na atualidade. Se por um lado funcionam como facilitadores, promovendo a inclusão das pessoas nos relacionamentos humanos, por outro lado, podem funcionar ao mesmo tempo, como complicadores, promovendo a exclusão desses mesmos agentes sociais. Quando não são utilizados de forma racional e equilibrados, podem promover também o aumento do individualismo, do isolamento e do distanciamento entre as pessoas. Do mesmo modo, podem contribuir para diminuir as relações afetivas e o diálogo presencial.

Isso, com certeza, têm trazido grandes dificuldades para os pais exercerem o papel de educadores de seus filhos. Mas, por outro lado, faz com que os pais procurem soluções criativas e funcionais para cada caso específico. Vamos ilustrar aqui com um exemplo. A americana, Susan Maushart, atualmente radicada na Austrália, mãe de três filhos adolescentes, publicou o livro “The Winter of Our Disconnect” (O Inverno de Nossa Desconexão), onde relata a experiência que fez na sua família. Ela proibiu durante seis meses o uso de computadores e telefones celulares, porque havia observado que seus filhos não usavam a mídia eletrônica, eles habitavam nela. E o resultado dessa experiência foi altamente surpreendente e positivo. A família redescobriu os prazeres simples da vida, como a prática de jogos de tabuleiros, leitura de livros, verem fotos antigas, realizarem jantares familiares e ouvir música juntos, ao invés de cada um escutar suas próprias escolhas em seu IPOD.

Os processos da educação e da comunicação exigem coragem e vontade para realizar as mudanças necessárias de hábitos e atitudes coletivas, mas, principalmente, as de caráter pessoal. Nesse sentido, Léon Tolstoi afirmava: “Todos pensam em mudar a humanidade, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo”. Gandhi também reforça esse posicionamento, dizendo: “Comece em você a transformação que você quer ver no mundo”. Assim, acreditamos que o indivíduo deve ter humildade suficiente para aprender, desaprender e reaprender.     

Finalizando, vale ressaltar o que dizem Adele Faber e Elaine Mazlish, no livro citado anteriormente, dentre outras coisas, que “Não nos deixemos aprisionar em papéis: pai bom, pai mau, pai permissivo, pai autoritário. Vamos começar a pensar em nós mesmos, primeiro como seres humanos com grande potencial de crescimento e mudança. O processo de viver ou trabalhar com filhos é exigente e exaustivo. Requer coração, inteligência e resistência. Quando não atingirmos nossas expectativas (e nem sempre o faremos), sejamos tão gentis conosco como com as crianças. Se nossos filhos merecem mil oportunidades e depois mais uma, vamo-nos permitir mil oportunidades e ainda mais duas”.     

 Referências:

FABER, Adele; MAZLISH, Elaine. Como Falar para seu filho Ouvir e Como Ouvir para seu Filho Falar. São Paulo: Summus Editorial, 2003.

KHOURY, Karim. Liderança é uma Questão de Atitude. São Paulo: SENAC, 2009.

MAUSHART, Susan. The Winter of Our Disconnect. Austrália: Random House, 2010.

MOSCOVICI, Fela. Equipes Dão Certo. Rio de Janeiro: Ed. José Olympio, 1994.

 Publicado na Revista Programa do 49º Congresso Nacional da Escola de Pais do Brasil – São Paulo – junho de 2012, p. 48.

Miguel Rosa dos Santos e Marinaide Tinoco de Sousa Santos – Associados da Escola de Pais – Seccional de Goiânia – GO e Casal RN – Goiás, Mato Grosso e Rondônia

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