Geração Silenciosa

A educação de crianças e jovens hiperconectados se torna uma tarefa desafiadora para pais e mães e cobra atenção extra para o avanço de doenças como a depressão e automutilação.

São 6h20min e o celular desperta. Depois de desligar o som estridente do alarme, o dedo desliza até o aplicativo do Facebook para conferir as notificações perdidas na madrugada. Chega a hora de abandonar o calor confortável da cama, trocar de roupa, pentear os cabelos. Na mesa do café da manhã, mais uma espiada: é a vez de checar o WhatsApp e o Snapchat.

Na escola, entre um descuido do professor e outro, dá para atualizar a conversa no aplicativo ou jogar algum game no celular. Se a tática dá errado, o aparelho pode ser confiscado e ir parar na coordenação. Uma dura punição. Mas o smart­phone não é só para brincadeira. Rola, às vezes, fazer uma pesquisa no Google para um trabalho de sala de aula.

Na volta para casa, depois do almoço, é a vez do notebook. Ela brinca com o gato de estimação enquanto o monitor exibe um episódio de alguma série do Netflix. Amigas do jardim de infância estão mais presentes nas mensagens do WhatsApp do que no dia a dia, já que não estudam mais na mesma escola. E o Facebook acabou se tornando a principal fonte de informação: as notícias surgem na linha do tempo, compartilhadas pelos contatos. Há tempo para tirar um cochilo, olhar para o teto e pensar na vida. Porém, no barulho dos múltiplos canais, na luz de todas as telas, nas trocas de mensagem instantâneas, sobra espaço para a solidão.

A rotina de consumo de informação é de uma menina de 13 anos, mas não fica muito distante de um jovem adulto qualquer. Em um curto espaço de tempo, o número de crianças entre nove e 17 anos que acessa a internet várias vezes ao dia triplicou – uma em cada três têm esse hábito de acordo com o estudo TIC Kids Online, realizado pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação. E são os celulares que melhor traduzem essa relação permanente com a rede: 83% usam o smartphone para se conectar. Não à toa, o aparelho já foi eleito o símbolo dessa geração silenciosa que digita rápido e tem olhos atentos às telas, porém escuta e fala pouco.

Desde muito cedo, meninos e meninas têm acesso a grandes quantidades de informação. Muita coisa interessante, sem dúvida, mas inapropriada também. Violência, consumo, sexo e preconceito estão expostos na rede. Mas não é por estar expostas a esses temas que as crianças se tornam adultas mais cedo. A maturidade vem com o tempo e resulta da interação dos processos biológicos com aspectos emocionais e as vivências na relação com os pais.

– O que observamos atualmente é uma pseudomaturidade. Adolescentes com comportamentos precoces (encurtamento de algumas fases do desenvolvimento psicológico), o que pode resultar em atitudes impulsivas, muitas vezes de risco e sem a possibilidade de pensar e elaborar sobre o que o que fazem ou presenciam – avalia a psiquiatra Maria Cristina Marcondes Brincas, especialista em infância e adolescência.

Para Maria Inês Araújo Garcia Silva, psicoterapeuta e especialista em psicologia clínica que possui quase quatro décadas de experiência no atendimento a crianças e jovens, os desafios que a vida impõe aos adolescentes de hoje não são maiores nem menores que os dos pais deles, mas certamente são diferentes.

– A rapidez com que as informações chegam aos jovens pela internet, sem mediação, os leva a ficar confusos e muitas vezes empaticamente distantes da realidade da qual fazem parte. Eles sabem, por exemplo, o que está acontecendo agora do outro lado do mundo, mas não sabem o nome de vários colegas que encontram todos os dias, não veem e sequer percebem como eles se sentem, ou pensam ou o que desejam – comenta Maria Inês, que é uma das responsáveis pelo site Educando Nossos Filhos e faz parte da equipe fundadora do Ipê Roxo Instituto de Desenvolvimento Humano.

 

A RAPIDEZ COM QUE AS INFORMAÇÕES CHEGAM PELA INTERNET, SEM MEDIAÇÃO, LEVA OS JOVENS A FICAREM CONFUSOS E MUITAS VEZES EMPATICAMENTE DISTANTES DA REALIDADE DA QUAL FAZEM PARTE. MARIA INÊS ARAÚJO GARCIA SILVA, PSICOTERAPEUTA ESPECIALISTA EM ADOLESCÊNCIA

 

Por outro lado, diz a psicoterapeuta, essa era digital permitiu avanços importantes em todas as áreas. Por que, então, tanta depressão, tanta perversão, tanta solidão? Maria Inês é taxativa:

– O essencial é simples, mas não substituível. Eu não responsabilizo a internet por todos os males da nossa sociedade. O essencial é ter os pais presentes na vida. Primeiro, em relação a eles mesmos, para que plenos, tenham condições de nutrir seus filhos. Filhos ouvidos, vistos, respeitados, orientados, com certeza não se matam por indução de um meio de comunicação. Famílias que criam espaço de diálogo, pensam, perguntam querendo saber, cuidam, limitam, acolhem e acreditam que os filhos têm condições de assumir as consequências das escolhas, não acobertam nem acusam – afirma.

O isolamento e o acesso irrestrito ao conteúdo online não são responsáveis pelo adoecimento dos adolescentes. Mas fazem parte de um quadro mais amplo que cresce e aflige. Um novo relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) revela que a depressão é a principal causa de doença entre jovens de 10 a 19 anos.

Muitos pais simplesmente desconhecem que os filhos podem estar deprimidos e doentes. Nem sempre aquela tristeza, birra, raiva e isolamento que veem em casa diariamente. Em 2014, a taxa de suicídio entre jovens de 10 a 18 anos aumentou 30%, segundo a OMS.

– É alarmante. Devemos aumentar a percepção sobre o comportamento desses jovens – alerta a médica psiquiatra Alexandrina Meleiro, integrante da Comissão de Estudo e Prevenção de Suicídio da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Alexandrina ressalta que os núcleos familiares mudaram muito, com pais separados, sobrecarregados pelas obrigações do trabalho e que acabam muitas vezes não dando atenção de qualidade aos filhos, o que é um grande problema. Além disso, vem ocorrendo com frequência um processo de terceirização da educação, dando à escola a incumbência de educar, o que seria uma função da família.

Além do suicídio, a automutilação preocupa. No jogo Baleia Azul, uma fenônemo online que teria surgido em uma rede social russa e levado jovens a cometer até suicídio, cortes nos braços e ferimentos fazem parte das tarefas. Esse tipo de comportamento é um transtorno psiquiátrico grave e não raro entre os adolescentes, no mundo inteiro. Exige tratamento, terapia e medicação. Um estudo realizado na King’s College, em Londres, mostrou que a prática é mais comum entre as meninas. Os números são alarmantes: um em cada 12 jovens se mutila, com agressões como cortes, queimaduras e batidas do corpo contra a parede. Para aqueles que se autoflagelam, a prática é uma tentativa de aliviar sensações como angústia, raiva ou frustração.

A psicóloga [Mayara Leandro Nascimento] ressalta que a cada dia fica mais evidente a influência da mídia, especialmente da televisão e das redes sociais, na vida e na formação das crianças e adolescentes. O problema é que grande parte das vezes essa rede de informações não é supervisionada, monitorada ou verificada, ou seja, há falta da família. Quanto às mídias eletrônicas, um dos problemas está na dificuldade de separar o que é verídico do que é fictício, o que é útil do que é descartável, o que pode ser considerado censura e o que pode expressar uma manifestação de cidadania. O conteúdo não é controlado e nem analisado, tornando os adolescentes vulneráveis a todos os tipos de mensagens.

Em um ambiente de avalanche de informação e múltiplas telas, os pais sofrem com o impacto da revolução digital. Passam o dia no trabalho e chegam à noite com a sensação de que não conseguiram terminar as tarefas. Assim, vão para casa e continuam conectados em gadgets. Como as crianças e adolescentes aprendem pelos exemplos, então ao chegar em casa e ficar olhando o e-mail ou o WhatsApp, os pais estão ensinando os filhos a passar mais tempo usando essas tecnologias também. Sem conexão real, é difícil conquistar confiança.

Publicado no Caderno Mais do Diário Catarinense de 10 e 11 de junho de 2017

Disponível também em: http://www.clicrbs.com.br/sites/swf/dc_nos_85/

viviane.bevilacqua@diariocatarinense.com.br

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