FAMÍLIA E SOCIEDADE: ambientes de proteção e risco na adolescência

A família sempre esteve no centro da sociedade como um grupo social complexo inserido e integrado permanentemente no e com o contexto social. Apesar das constantes transformações através das últimas décadas, resultando em diversos arranjos familiares, continua sendo considerada a célula principal da sociedade, e ainda permanecem suas funções básicas responsáveis pelo processo de socialização primária de crianças e adolescentes. Como núcleo central, o grupo familiar desempenha papel essencial no desenvolvimento humano e na constituição dos indivíduos para a vida em sociedade.

Como pais, podemos entender nosso papel primordial no desenvolvimento humano e em suas funções biológicas, psicológicas e sociais, em especial, na infância e adolescência. Entretanto, as composições familiares também são determinadas pelo conjunto importante de variáveis ambientais, sociais, econômicas, culturais, políticas, religiosas e históricas, modificando o desempenho dos papéis parentais.

Diante disso, a família e a sociedade tornam-se a base estrutural na construção dos fatores tanto de proteção, os quais representam as condições ou variáveis associadas a probabilidade de reduzir ou modificar um comportamento danoso, quanto dos fatores de risco, os quais estão associados a alta probabilidade de comportamentos e resultados negativos ou indesejáveis, ambos podendo ocupar papel importante na fragilização ou no fortalecimento do desenvolvimento de crianças e adolescentes.

De acordo com o artigo 227 da Constituição Federal, é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar, com absoluta prioridade, todos os direitos das crianças e adolescentes e mantê-los a salvo de todas as formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. Nesse sentido, o período da infância e adolescência tem sido foco de diversos estudos, buscando melhor entendimento dos fatores decorrentes tanto do ambiente familiar quanto da sociedade.

Apesar de sabermos que o período da adolescência é permeado por comportamentos caracterizados pelos impulsos do desenvolvimento físico, emocional e social, ocorrendo reações emocionais intensas, alteração de humor, agressividade física e verbal, insegurança, ansiedade, enfrentamentos à autoridade dos pais ou de regras sociais, outros comportamentos, especialmente àqueles considerados de maior risco tanto físicos quanto emocionais podem ocorrer como resultado da sua vivência no âmbito familiar e ou social.

Os fatores de risco que podem estar presentes no ambiente familiar e social são diversos, porém, estudos e análises dos indicadores sociais destacam a violência intra e extrafamiliar, entendendo a negligência, violência física, psicológica e doméstica, a qual inclui a exposição à violência conjugal e violência sexual. Essas violências também são identificadas no âmbito da sociedade, já amplamente divulgadas pelos meios de comunicação. Esses fatores são fortemente associados com a psicopatologia do desenvolvimento infantil, incluindo as áreas da cognição, linguagem, desempenho escolar e desenvolvimento socioemocional.

Em relação ao ambiente familiar e ao papel e características dos pais, estudos destacam como fatores de risco relacionados aos componentes do núcleo familiar: habilidades parentais negativas, com condutas negligentes e autoritárias, abuso de substâncias, transtornos psicológicos, baixa autoestima, perda da empatia e disfunção familiar, dentre outros. Em relação à sociedade devemos considerar suas características culturais, políticas, econômicas e os dispositivos existentes ou inexistentes nas áreas de cuidado e proteção a infância e juventude, tendo como indicadores sociais a pobreza, baixo acesso a saúde, educação e garantia de direitos, entre outros.

Geralmente esses fatores de risco já são vivenciados desde a infância, comprometendo fortemente o período de transição para a adolescência. Nesse período do ciclo vital, somam-se alguns fatores relacionados ao contexto familiar tais como: uso de álcool e outras substâncias por amigos próximos, eventos traumáticos ou estressores, perda do vínculo, afeto e diálogo entre pai/mãe-filho, ausência de definições de papéis e de limites, situações de crise conjugal e problemas econômicos, dentre outros.

Sem desconsiderar os aspectos pessoais, esses fatores, especialmente na adolescência, podem contribuir para o desenvolvimento de comportamentos de risco ou comprometimentos biopsicossociais tais como: consumo de álcool e outras drogas, comportamento sexual de risco, alterações alimentares, atitudes antissociais, agressividade, depressão, comportamentos autolesivos e suicídio.

Em relação aos fatores protetivos, podemos classificá-los em atributos disposicionais da criança ou adolescente, em características da família, em especial, coesão entre seus componentes, afetividade, ausência de discórdia na educação dos filhos e de negligência; nas fontes de apoio individual ou institucional disponíveis para a criança e a família, favorecendo seu desenvolvimento social; no suporte cultural, instrucional e religioso/espiritual, dentre outros.

Práticas educativas positivas envolvem uso adequado da atenção e do estabelecimento de regras, atitude contínua de segurança e afeto, o acompanhamento e supervisão das atividades sociais, escolares e de lazer, adoção de comportamentos que impliquem no desenvolvimento da empatia, da responsabilidade e do discernimento sobre condutas adequadas para escolhas adequadas. Práticas parentais efetivas constituem-se no mais poderoso meio para contribuir no desenvolvimento saudável, na superação dos desafios inerentes a cada período da vida dos filhos, assim como às condições e adversidades sociais, ambientais e econômicas vivenciadas.

De forma abrangente, entendemos que, dentro do mesmo contexto e sob as mesmas condições, os resultados podem ser positivos ou negativos, a depender de como encaminhamos nossas condutas, das possibilidades de ajustes, correções, aprendizagens, reformulação de postura e conceitos, da existência de redes de apoios, ferramentas próprias ou institucionais no auxílio para possibilitar as melhores vivências e a valorização do meio social e familiar como base estrutural do desenvolvimento de crianças e adolescentes.

Vale ressaltar que, especificamente em nosso ambiente e núcleo familiar, não é possível identificarmos todos os possíveis fatores de proteção ou de risco, visto que cada criança, adolescente e adulto é único dentro de suas especificidades, necessidades e possibilidades, cabendo a nós, pais, família e sociedade, sabermos a importância de ver cada um de nós como seres em desenvolvimento constante em um mundo de rápidas transformações, as quais exigem de nós o desejo de aprender, renovar, aperfeiçoar e fortalecer sempre nosso papel como cidadãos, nossa participação no mundo e em nossa vivência familiar.

REFERÊNCIAS:

ZAPPE, Jana Gonçalves; DELL AGLIO, Débora Dalbosco. Variáveis pessoais e contextuais associadas a

comportamentos de risco em adolescentes. J. bras. psiquiatr. 65 (1) • Jan-Mar 2016.

MAIA, Joviane Marcondelli Dias; WILLIAMS, Lucia Cavalcanti de Albuquerque. Fatores de risco e fatores

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ZAPPE, Jana Gonçalves; ALVES, Cássia Ferrazza; DELL AGLIO, Débora Dalbosco. Comportamentos de

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SANTOS, E O; Pinho, L B; Silva, A B. Determinantes sociais do uso de álcool na infância e adolescência em

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MENEZES, MS; Faro A. Avaliação da Relação entre Eventos Traumáticos Infantis e Comportamentos

Autolesivos em Adolescentes. Psicologia: Ciência e Profissão, 2023 v. 43, e247126, 1-14.

Autores:

 Ilham El Maerrawi – Doutora em Ciências. Psicóloga Clínica. Membro do Conselho de Educadores da EPB.

Jean Khater Filho – Pediatra. Membro Conselho de Educadores da EPB.

Ruy de Mathis – Mestre em Educação. Psicoterapeuta de adolescentes. Membro do Conselho de Educadores da EPB.

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