FAMÍLIA E SEXUALIDADE

Refletir sobre o tema sexualidade é refletir sobre a essência humana, seus aspectos sociais, culturais e pessoais. Neste sentido, é importante entender que a sexualidade é uma necessidade básica do ser humano, não podendo ser dissociada dos outros aspectos e necessidades de sua vida. Porém, normalmente, as discussões sobre a sexualidade humana no ambiente familiar se convergem a um ponto de conflito: normas e padrões de comportamentos já existentes que se chocam com as normas e padrões atuais, ou seja, choque de gerações. Temos visto, em nosso cotidiano, que lidamos com questões sobre a sexualidade voltadas para o cuidado e bem estar na vida de nossos jovens, discutindo sobre os riscos à saúde, a importância da maturidade sexual, dos valores pessoais e essenciais à vida e ao respeito à diversidade sexual. Podemos considerar que todas as pessoas nascem com órgão genital previamente determinado, com características masculinas ou femininas, com ressalvas a algumas anomalias genéticas. O mesmo não ocorre com a sexualidade. O desenvolvimento da sexualidade é um processo que segue por toda a vida, incorporando a ele nossas vivências, sentimentos, valores e conceitos que podem se modificar ao longo do tempo e de acordo com cada período da vida. A vivência da sexualidade é uma junção de vários aspectos, sejam eles individuais, sociais, econômicos, familiares ou ambientais, desta forma, o desenvolvimento da sexualidade é passível de interferência, influência, conceitos e pré-conceitos adquiridos que podem interferir nos comportamentos e nas expressões da sexualidade atuais ou futuras. Os valores fundamentais para o aprendizado do sentido da vida, da importância do amor, da felicidade, do prazer e respeito a si próprio e ao outro são valores herdados da família. A maturidade física e emocional e os valores incorporados serão os principais ingredientes no desenvolvimento e vivência de nossa sexualidade.

No Brasil, 4 milhões de jovens tornam-se ativos sexualmente a cada ano. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 22% dos adolescentes fazem sexo pela primeira vez aos 15 anos de idade. Diante da realidade atual, podemos considerar que grande parte desses jovens iniciam a vida sexual sem maturidade, informações ou orientações adequadas. Esta é a fase importante de autoconhecimento e incertezas que a falta de informação e de orientação podem gerar danos físicos e emocionais. A adolescência é um período de grandes modificações, aparecimento de questionamentos existenciais, da valorização e de dificuldade em controlar os impulsos e os desejos sexuais. O desejo de pertencer a um grupo e sofrer influências desse grupo são algumas características comuns para a maioria dos jovens. Quando essas características são vividas numa sociedade que favorece a erotização infantil, deturpação de valores e de respeito ao próprio corpo, assim como, ao outro que é parte da relação, a vivência sexual do jovem pode ser bastante equivocada. Essa vivência pode resultar em danos à saúde física e mental, tais como: transtornos de personalidade, frustrações, depressão, anulação de si mesmo, além de gravidez indesejada ou precoce e das infecções sexualmente transmissíveis, como a Aids.

Os contextos de vida social, familiar, cultural, econômica e das características individuais diferenciam tanto a vivência sexual de cada jovem quanto a sua vulnerabilidade frente aos riscos ou consequências dessa vivência. A vulnerabilidade do jovem também pode estar no próprio contexto familiar, decorrente da dissolução ou inexistência de valores básicos nos cotidianos familiares, tais como, direitos e deveres, respeito e responsabilidades, o conflito entre limites e permissividade entre outros, além da indefinição ou fragilidade dos papéis de mãe, pai e família.

A precocidade e a inexistência de valorização e respeito na vivência de uma sexualidade sadia, traz riscos importantes aos nossos filhos e para toda sociedade. Atualmente, a sociedade e muitos jovens tratam o sexo como algo recreativo influenciados pelos grupos, pelos meios de comunicação e pelo mundo virtual, que contribuem

para vulgarização e banalização do sexo. A reflexão sobre a vulnerabilidade dos jovens nestes e em outros contextos e sua interferência no desenvolvimento e na vivência da sua sexualidade, contribui para que pais e educadores identifiquem as fragilidades e promovam o fortalecimento dos valores e das oportunidades para uma sexualidade mais saudável. Os adolescentes necessitam ter conhecimentos e habilidades que os auxiliem na adoção de comportamentos e vivências mais saudáveis.

O contexto familiar é o primeiro espaço de vivência dos filhos, portanto, um espaço vital. Para que as famílias possam auxiliar melhor seus filhos, alguns aspectos devem ser levados em consideração. Inicialmente, é necessário considerar a sexualidade como algo saudável e importante para o relacionamento afetivo das pessoas. Uma adequada vivência da sexualidade fortalece a segurança e valorização do afeto. Outra questão a destacar é a necessidade das famílias buscarem mais informações, reverem seus conceitos ou preconceitos, serem mais autênticos e francos na vivência de cada fase de vida de seus filhos. Transformar o ambiente familiar em um ambiente agradável e acolhedor que facilite o diálogo com os filhos, trocando as críticas e repreensões pelo diálogo, propiciando momentos que abram um espaço de entendimento mútuo entre pais e filhos, com postura aberta e presença permanente na vida dos filhos. Este é um exercício diário de prontidão, reflexão e priorização da sua presença e participação na vida dos filhos.

A família, como sempre é frisado na Escola de Pais, é o primeiro núcleo social responsável pela educação dos filhos, portanto, ela tem papel fundamental na vida e no desenvolvimento da sexualidade dos jovens. Os pais, ou na sua ausência, o núcleo familiar são o primeiro modelo para os filhos, educando-os através do seu comportamento e atitudes. Independentemente da idade dos nossos filhos, as relações e os valores familiares, a atenção às suas dúvidas, conflitos e inseguranças, servindo de apoio e direção, são fundamentais no processo de aprendizagem e desenvolvimento da sexualidade.

Tendo em vista ser o pediatra o primeiro profissional a ser procurado pela família ou um dos pais para orientação a respeito da sexualidade e variação de gênero, nas crianças e adolescentes, a Sociedade Brasileira de Pediatria, através do seu Departamento Científico de Adolescente, elaborou e publicou em 04 de Julho de 2017, um documento científico com atualizações sobre as questões relacionadas ao gênero, especificamente a disforia de gênero. Na década de 1950 o sexólogo neozelandês John Money foi pioneiro em propor que além do sexo biológico atribuído ao nascimento, há uma outra face da sexualidade relacionada aos processos de aprendizagem e socialização que se estabelecem entre os 2 e 3 anos de idade. Entre 6 e 7 anos de idade a criança tem consciência de que seu gênero permanecerá o mesmo. Em alguns indivíduos existe uma incongruência entre o sexo biológico e a identidade de gênero. O estresse, sofrimento e desconforto causados por esta discrepância é chamada de disforia de gênero. Sem dúvida alguma, a abordagem sugere um atendimento multidisciplinar e a construção de um suporte social para a saúde e bem estar, para reduzir o estresse destes pacientes e suas famílias.(World Professional Association for Transgender Health ,Inc. (WPATH – 2015).

A escola é outra comunidade importante na vivência e no desenvolvimento da sexualidade dos jovens. O repasse de informações pela educação sexual nas escolas, tem papel importante. O ambiente escolar, geralmente, é o primeiro espaço de interatividade da criança e de vivências e manifestação da sexualidade do jovem. A atração física, as brincadeiras interpessoais, a experimentação do afeto pelo outro e a primeira paixão normalmente ocorrem na escola. Neste sentido, ela tem papel importante na promoção de espaços que promovam a discussão sobre o desenvolvimento da sexualidade, os meios de proteção, inclusive sobre o abuso, exploração e violência sexual, o respeito consigo e com o outro, assim como, o respeito à diversidade sexual do ser humano.

Acreditamos que a sexualidade deve ser orientada e direcionada ao afeto e ao amor, e este, o único que a torna verdadeiramente humana. A discussão sobre este tema envolve a reflexão de como nossos filhos desenvolverão e viverão sua sexualidade. Qual e como exercer o nosso papel como primeiros educadores?

Agregar, ao mundo atual, valores éticos e morais é questão desafiadora para os pais.

“Na educação sexual o mais importante é a educação para os valores, educação para o amor e para a felicidade, e a educação para a liberdade”. (Pe. Charbonneau – Escola de Pais do Brasil.)

No processo da aprendizagem do jovem, talvez seja inevitável não se expor aos riscos e não sofrer as consequências de suas experiências, vivências ou escolhas, porém, nós temos a possibilidade e a responsabilidade de intervir, orientar e auxiliar para que haja, em cada uma dessas situações, a possibilidade de um novo aprendizado.

Na Escola de Pais, EDUCAR é conduzir, é interferir no processo de crescimento e desenvolvimento dos nossos filhos, imprimindo-lhes uma direção, amorosamente, para que eles possam desenvolver melhor suas potencialidades e aprendam a construir sua vida e sua felicidade, fazendo com que sejam verdadeiros cidadãos.

Ilham El Maerrawi e Jean Khater Filho, Psicóloga, Especialização em Saúde Pública, Mestrado e Doutorado

em Ciências Sociais. Membros do Conselho de Educadores da Escola de Pais do Brasil.

Publicado na Revista Escola de Pais do Brasil – Revista do Congresso, SP, junho de 2018, p. 16-19.

 

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