EDUCAR PARA O DISCERNIMENTO

Sem pessoas com espírito crítico a sociedade não avança e vai se instalando na rotina e na vulgaridade. Sem pessoas críticas conformando-nos com muito pouco e dormimos na adolescência (Joan Bestard)

 Educar, extrair dos jovens o melhor que trazem em seu interior, no mais profundo de seu ser, na viagem da vida. Educar, tarefa de adultos que já fizeram uma parte da viagem, que trazem estampada no rosto a alegria de viver, de conviver, de partilhar e desejam que as novas gerações possam crescer em plenitude e dar sua colaboração efetiva para que o mundo se torne espaço humano, terra de justiça, de compreensão, de solidariedade. Educar é fazer com que as pessoas encontrem um sentido para sua vida e para sua passagem mais ou menos longa pelos caminhos da terra dos homens. Precisamos de seres despertos e pessoas acordadas, gente que pensa, que tem senso crítico, que se exercita sempre de novo na arte do discernimento.

  • Como educar? Educar significa despertar e desenvolver a essência espiritual do ser humano. Fazer com que o homem compreenda que nesse mundo ele se destaca por sua capacidade de amor, compaixão, solidariedade. Fazer com que atinja um alto nível de sabedoria humana que o faz transcender e superar a lógica perversa do egocentrismo que esteriliza, da ambição e da competição que acabam com sua dignidade.
  • Não é aqui o espaço para elencar os desafios do mundo que impedem uma educação autêntica. Há valores tidos por uns e outros que, na verdade, não constroem. Aproveitar a vida, ganhar, lucrar, competir, buscar as melhores performances em todos os campos, sempre o que é interessante para mim, eliminar aquilo que “incomoda”, exige. Um mundo fechado na pessoa, mundo estéril. Por isso se faz necessária uma educação para o discernimento.
  • Vivemos um tempo de lusco-fusco, de densa neblina. As nuvens demoram a ser sopradas por ventos. Não vemos claro. Precisamos apertar os olhos e distinguir o que está se desenhando no fim da estrada. Um animal que atravessa o caminho? Um outro carro que vem em nossa direção? Apenas um reflexo ou sombra projetada no caminho? O que está na frente? Discernir e tentar ver claro. Exige trabalho, reflexão, silêncio, conversa e diálogo com outros, busca de parâmetros que me façam viver em plenitude e não empurrar minha vida e a história para frente sem mais. Buscar aquilo que constrói nosso eu mais profundo e ajuda a criar uma terra vivível e habitável.
  • Educar para o discernimento quer dizer levar as novas gerações a pensar. Francesc Torralba, discorrendo sobre o valor do pensar: “Quando tudo é nebuloso e não enxergamos qualquer possibilidade, caímos no desespero; sentimento, todos sabemos, difícil de suportar. Só mesmo com muito barulho e distrações de toda ordem para nos esquecermos dele e seguirmos adiante em nossa existência” (O valor de ter valores, Vozes, p. 160).
  • Nada está feito. Ou muita coisa deve ser refeita. O novo está despontando. Mas precisa ser um novo que se apoie nos valores de uma legítima tradição: respeito, tolerância, hospitalidade, aceitação do diferente, solidariedade, convivência profunda. Um novo que seja novo de verdade para construir o ser humano sem peias. A educação para o discernimento visa abrir os olhos e arreganhar a mente. Discernir e pensar. “Pensar é enfrentar a existência, assumir a incerteza, ter coragem e tentar pôr um pouco de ordem no mundo, por mais caótico e dialético que ele seja. A ideia é exatamente esta: tentar trazer alguma ordem, organizar, dividir, separar, priorizar, distinguir tudo isso para transformar algo confuso em harmônico” (ut supra, p. 162).
  • Tentando enxergar no nevoeiro do tempo presente: Optar pela vida em todas as suas manifestações, desde o ventre materno até o final da caminhada, respeitar a vida, a vida das pessoas, vida da natureza, vida interior. Não aceitar, nesse campo, qualquer forma de destruição. Respeitar os pais e os filhos. Respeitar as autoridades, sobretudo aquelas que dão testemunho de autenticidade e de doação.

– Discernir quanto possível claramente na hora de optar pelo casamento. Quem é ele? Quem é ela? Quais os seus valores? O que eles querem de fato da vida? Eu e o outro. Não entrar na aventura conjugal bobamente. Discernir o momento e a razão de colocar um filho no mundo, preparar seu nascimento antes que o filho se instale no seio da mulher. Fazer convergir para ele e para eles um sonho sonhado de verdade.

– Discernir e não entrar em esquemas de fuga, de busca de sensações exóticas que podem anestesiar por momentos o vazio do coração dos filhos. Ter uma visão sadia de uma sexualidade humana, prazenteira e responsável por uma serena alegria de viver.

– Ter calma e sabedoria nos momentos de tremores: filhos de pais irresponsáveis e violentos, perda dos filhos. Não responder dente por dente. Discernir que tudo passa e que não temos o direito de condenar nosso futuro com a loucura de um momento impensado. Discernir as razões para continuar um casamento, para optar por uma vida Foto: Freepik.com mais despojado e menos competitiva.

– Educar para o discernimento é tentar fazer com que as novas gerações sejam apresentadas ao Mistério que mora dentro delas. Que para além dos alaridos e ruídos interiores as novas gerações compreendam que vieram do Mistério e para o Mistério se encaminham.

Almir Ribeiro Guimarães, frade franciscano, residente em Petrópolis (RJ), nascido a 6 de novembro de 1938,

membro do Conselho de Educadores da Escola de Pais, é formado em catequese e teologia pelo Instituto Católico de Paris, faz crônicas sobre a família para a Rádio Nove de Julho e tem publicações na linha da espiritualidade

e do franciscanismo, se ocupou durante anos da Pastoral Familiar da CNBB.

Publicado na Revista Escola de Pais do Brasil – Revista Congresso, SP, junho de 2018, p. 10-11.

 

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