Educação e valores: caminhos da prevenção

“Quem anda dentro da lei é considerado um imbecil. Permeia a sociedade a leniência com desvios, com transgressões, começando com as pequenas como jogar papel na rua, furar sinal de trânsito, dar uma ‘cervejinha ‘ ao guarda que quer multar”. (Embaixador Marcílio Marques Moreira).

Os pais, atualmente, estão vivenciando situações conflitantes na educação dos filhos. Diante a conjuntura da sociedade e das relações interpessoais, questiona-se sobre os valores a serem transmitidos, pairando a dúvida entre o que é certo ou errado. Ensinar ao filho a honestidade ou a esperteza, diante as ocasiões de ganho fácil e benefícios imediatos e ilícitos, fartamente mostrados na mídia, torna-se um exercício focado no ser, no exemplo, mais do que nas palavras.

A propósito, Ruth de Aquino questiona: “O que fazer com mães e pais que jogam lixo na praia, furam fila, ultrapassam no acostamento, subornam policiais, xingam na rua e dirigem alcoolizados? Tudo na frente dos filhos? O que fazer com essas mães e esses pais?”

O desafio da ética está sempre presente. A questão dos valores, da moral, é tão antiga como a própria humanidade, e a luta entre o bem e o mal é uma tentativa de organização de assuntos comuns a todas as culturas e civilizações. O  desfecho não pode ser outro senão a vitória do Bem e, por isso, o ser humano é convidado e obrigado a estar sempre optando, fazendo escolhas que irão contribuir para a sua construção pessoal e social. (Morales Cano, 2006).

Essa cobrança se manifesta quando, diante de uma situação que contraria nossos princípios, causa reação positiva de desconforte, intolerância e até mal-estar. É motivo de preocupação quando, nesses casos, há uma acomodação, apatia e até aceitação, confessada nas palavras: “todo mundo faz assim… fazer o quê?”

A sociedade contemporânea é marcada pelo excesso de consumo, pelo individualismo exacerbado na competitividade, pelo descaso à vida humana e à falta de respeito pelo outro, procedimentos que distanciam o ser humano da sua essência. Todas essas condutas causam perplexidade e contribuem para que as relações humanas sejam mais complicadas.

O aumento da violência e da perversidade, causando impacto e comoção social, com cenas dantescas de agressões, riscos contra si mesmo e desordens sem fim, pincelando de sangue e desamor a tela humana, obra maior do divino artista.

Século XXI, muitos avanços tecnológicos que se contrapõem a uma sociedade com um acelerado processo de desumanização das pessoas. Os desafios de convivência social, familiar e profissional se agigantaram em proporções geométricas.

Não se trata aqui de evidenciar um panorama negativo e, muito menos, deprimir o ânimo de ninguém, mas provocar uma reflexão sobre a realidade social sem o pessimismo que nos amedronta e engessa, pensando em nosso papel como família, pai e mãe responsáveis, como educadores, na esperança do resgate dos valores a serem vividos.

EDUCAÇÃO: FUNÇÃO TRANSFORMADORA

A educação é ferramenta necessária em casa, na rua, na igreja ou na escola; de um modo ou de muitos, todos nós envolvemos pedaços da vida com ela: para aprender, para ensinar, para aprender-e-ensinar. Para saber, para fazer, para ser ou para conviver, todos os dias misturamos a vida com a educação (Brandão, 1994).

A educação é um ato social, cultural e individual.

Como ato social, a educação atua com um componente homogeneizador, contribuindo para que todos os cidadãos tenham valores, crenças e normas de conduta semelhantes, e um fator diferenciador, isto é, prepara de forma diferente a cada diferente a cada um para as diversas necessidades da sociedade (profissões diferenciadas).

Como ato cultural, a educação inclui todos os produtos da consciência coletiva de cada sociedade: linguagem, a ciência e a tecnologia, os valores, as crenças, as normas e os hábitos e costumes, que constituem os principais elementos da cultura.

Como ato individual, implica o  esforço dos próprios indivíduos para se apropriarem dos elementos da cultura produzidos por sua sociedade, que lhes servem para interpretar os acontecimentos e orientar suas ações, com vistas à convivência, à mobilidade social e à transformação dessa mesma sociedade.

A educação possibilita transformações na pessoa, modificando a visão dela mesma e do mundo em que vive, capacitando-a a interagir com outros indivíduos e com a natureza para transformar a realidade em que está inserida.

Os quatro pilares da educação são: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser, são as aprendizagens fundamentais para que a educação possa capacitar o indivíduo para viver em sociedade.

A tarefa dos pais de educar requer uma autoeducação permanente.

Faz-se necessário entender que para educar o filho, se exige a educação dos pais, no aprender a aprender e no aprender a desaprender. Essa é a proposta da Escola de Pais do Brasil, na sua metodologia preventiva.

Roberto Romano, professor de ética da Universidade Estadual de Campinas comenta: “A globalização e a crise de valores provocada pela rápida mudança nos costumes no século XX criaram um vácuo de paradigmas na sociedade. Por isso as pessoas buscam novas regras em que se apoiar”.

CAMINHOS DA PREVENÇÃO

A formação do caráter do filho é pela influência dos pais na inter-ralação que promove satisfação mútua entre os envolvidos. Com a vivência, o exemplo dos pais quando adotam comportamentos que levam à integração, à solidariedade, à responsabilidade e a sentimentos afetivos, são fatores de proteção contra a violência, a intolerância, os preconceitos e as diferenças. Sem comunicação e envolvimento em família, compromete-se a qualidade da formação pessoal, das relações intrafamiliares e das capacidades e habilidades a serem desenvolvidas.

Na possibilidade de transformar o grupo familiar ou mesmo promover essa transição por meio de uma atitude baseada em valores humanos essenciais, cria-se um círculo à sua volta cuja frequência atrairá pessoas na mesma sintonia. É a própria lei física da atração, no bem que tem seu ponto de origem, é propagado e retorna ao ambiente inicial, criando um circuito de harmonia e bem-estar.

Na relação interpessoal é que se dá o processo de reconhecimento dos valores de cada um. Conforme a fase da vida, os valores podem se modificar, já que eles costumam ser mutáveis e dinâmicos.

Um indivíduo maduro é capaz de modelar-se de forma mais sustentada que outro – entendendo-se maturidade como o modo pelo qual o indivíduo vivencia as situações: com total capacidade de discernimento e clareza, podendo fazer escolhas e tomar decisões baseadas e respaldadas em valores (L. Ricotta, 2006).

A adoção de valores não deve estar baseada tão-somente nos interesses do indivíduo, mas também considerar a existência do outro, da sociedade e contemplar o respeito à natureza.

A pressão social do nosso tempo é forte, massificando e generalizando condutas, na robotização do indivíduo, e principalmente os jovens, reproduzindo comportamentos sem mesmo verificar se estes condizem com o modo de ser, com as crenças e os valores pessoais.

Os filhos, facilmente, incorporam o que vêem na TV, usam os jargões usados pelo grupo, tais macaquinhos de imitação. Nisso não há nenhuma crítica por parte deles, pois estão em fase aberta para assumir posturas e atitudes sem refletir se estas condizem com seus valores familiares.

O que mais contribui para a formação da consciência na infância e na adolescência é a opinião dos outros. E, em especial, a opinião dos seus pares, daqueles em quem mais se confia e se crê. Os especialistas dizem que a consciência moral na  criança passa por uma primeira fase baseada no julgamento de autoridade. A criança reconhece o bem ou o mal por meio do julgamento de seus pais ou seus professores.

Com o tempo, vai prescindindo da autoridade e tenderá a julgar-se a si e aos outros por si mesma, a ponderar sobre o bom e o mau. Assim terá adquirido a razão e estará em condições de responder pelo que faz.

Formar a consciência, a imagem que se tem de si mesmo. E como se forma o caráter, como se forma, afinal, o eu? Transmitindo hábitos, repetindo atos, acostumando a criança a gostar do que deve gostar e a sentir-se atraída pelo que deve atraí-la. Fazendo que se adapte aos costumes que cremos ser bons. É o que se faz, por exemplo, quando se ensina ao filho ser limpo e o obriga a adaptar-se a um horário. Isso é usar da autoridade e impor limites, desde cedo.

Na verdade, os pais também precisam ter limites estabelecidos para seguirem, evitando abusos ou omissões.

O filho aprende a dinâmica dos pais, como se tratam entre si, se usam as atitudes, hoje vistas com raridade, nas expressões: com licença, por favor, muito obrigado, queira me desculpar. E observa os professores, como referência, que também usam desse tratamento, reforçando os valores da civilidade e do respeito pelo outro, na fronteira que delimita cada um.

São regras que criam hábitos e acostumam a viver de uma maneira e não de qualquer maneira.

O comportamento humano é complexo: não é a simples resposta a alguns estímulos, mas a capacidade de “inventar” respostas diferentes diante dos estímulos prazerosos ou dolorosos que lhe vêm de fora.

Uma resposta fácil e possível, nos dias atuais, diante do conflito, é a violência. É só prestar atenção no trânsito das nossas cidades, por exemplo, a facilidade das brigas, discussões e mesmo acidentes. Outra situação, infelizmente comum, é a perda de controle dos pais, quando entram em colapso e descarregam em outras pessoas – no cônjuge e/ou nos filhos. As crianças, geralmente são pequenas e vulneráveis, e frequentemente pagam pelos fracassos e infelicidades dos pais.

Nossos noticicários policiais estão sempre reportando tragédias domésticas, com mortes de cônjuge ou filhos, deixando a sociedade atônita e sensibilizada.

Sobre abusos com crianças, a pediatra Elizabeth Vinton escreve: Você pode dominar seus filhos física e emocionalmente, sem sofrer reações. Pode golpeá-los e ameaçá-los com uma arma ou verbalmente e se manter dono da situação, sem qualquer repercussão. Ninguém conta sobre essas atitudes, é segredo familiar.

Apesar de apanhar e ser ferida, a criança esconde de todo mundo a atitude ruim dos pais. É quase como se ela enfrentasse o abuso, negando-o. Também pode ser que ela não queira admitir essa falha dos pais. Qualquer que seja a razão, as crianças estão sofrendo “abusos”.

É obrigação dos adultos proteger todas as crianças, construir um espaço onde a dor não possa invadir. Quanto aos adultos em conflitos, buscar tempo e coragem para desfazer o que está errado e corrigir a situação.

As crianças, em osmose com a televisão e o computador, estão substituindo o sonho infantil pela ilusão adulta, pulando etapas e confundindo o real com o imaginário. Deve preocupar os pais alguns pontos focados: a banalização do sexo; a mulher explorada e usada como produto; a confusão da importância das relações pessoais e da noção familiar; as deformações linguísticas e pobreza de vocabulário; a exposição ao preconceito; a falta de humildade, solidariedade e ética; imagem distorcida do prazer, com abuso de bebidas e drogas.

Ou ainda a atenção na propaganda televisiva, cuja mensagem é que a tristeza é curada saindo-se para fazer compras, já que o prazer está associado ao Ter.

A linguagem midiática não auxilia, em geral, ao aprendizado do “fazer pensar”, mas atingir a massa e se comunicar simplesmente. E precisa vender o produto.

Atualmente, pode-se constatar que crianças e jovens são exigentes e consumistas, demonstrando uma carência que, na verdade, não é suprida. Dessa forma, muitos se tornam intolerantes e agressivos, só cobranças e nenhuma responsabilidade, provocando o transtorno familiar com a pergunta paterna: “onde foi que errei”?…

Educação e Valores: caminhos entrelaçados na formação do caráter, no desenvolvimento da personalidade de cada um.

Exercer a missão sublime de paternidade e maternidade é concorrer ao “Oscar” no melhor papel do filme da vida, com cenários de muito Amor, Paciência, Respeito, Integridade, Diálogo, Humildade, Alegria, Esperança, Perdão, Religiosidade, Coragem, Flexibilidade, Amizade. Atualizar sempre, pois prevenir é sabidamente, melhor que remediar. A linha profilática da Escola de Pais do Brasil é um excelente caminho.

Os pais e os educadores devem ser os líderes, amorosamente investidos de autoridade, acreditando e provocando a transformação da sociedade, na vivência e transmissão dos valores essenciais às crianças, aos filhos, que se espelham nas atitudes dos seus ícones adultos.

Publicado na Revista nº 1 – 2009 – Escola de Pais – Seccional de Biguaçu 
Helena D. Gasparini – Professora universitária. Bióloga e Mestra em Psicologia na área de Comportamento Social. Especialista em Prevenção sobre Drogas. Representante Nacional da Escola de Pais do Brasil no Estado de Mato Grosso do Sul.

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