Dar voz às gestantes é encaminhar as famílias

A pesquisa de tema A culpa e o desejo: interface entre Freud e Descartes investiga a relação entre o desejo, seu enfraquecimento e a incidência do sentimento de culpa. Ao promover um diálogo entre a compreensão do desejo, tanto no campo da filosofia, quanto na psicanálise, este estudo, que tem como método a escuta psicanalítica, observa a manifestação de vários sentimentos nas gestantes e puérperas, voluntárias oriundas da Unidade de Saúde Família Thomaz Tommazi, Vitória – ES. Os dados dessa pesquisa, que correspondem ao período gestacional, se relacionam com o prenúncio das muitas transformações que ocorrerão na vida da mulher. Destaca-se que a maneira como a gestante lida com tais mudanças influi diretamente no seu bem-estar e no do bebê.

Os dados aqui apresentados correspondem às entrevistas realizadas durante o período de janeiro de 2010, com 35 gestantes. Estudar a formação e crescimento de várias famílias, especialmente no momento da chegada de um novo membro, é um mecanismo importante para pensarmos os caminhos que essas famílias vão traçar, ou seja, para onde e acima de tudo, como se desenvolverão.

Ao analisar os aspectos sócio-econômicos das voluntárias destacam-se algumas observações: das gestantes, 18,2% são menores de 20 anos e a maior parte das participantes da pesquisa, 60,6%, tem idade entre 21 e 29 anos, caracterizando um grupo bastante jovem. Outro dado a ser destacado é que 39,4% das mulheres são mães solteiras e 33,3% vivem em regime de união estável. Nesse sentido, é possível compreender as emoções geradas pela sensação de desamparo diante uma gravidez, muitas vezes, sem o acompanhamento do parceiro. Além disso, 78,8% das entrevistadas afirmaram que a gravidez atual não foi planejada, o que pode acarretar sentimentos de insegurança, abandono e culpa.

O sentimento com maior incidência nas gestantes foi a felicidade de aparecerem em 21,1% das entrevistadas. Sigmund Freud, um dos autores estudados nessa pesquisa, destaca que a manifestação da felicidade é sempre limitada pela constituição humana e a infelicidade é a experiência mais habitual. A compreensão de felicidade freudiana se traduz sob dois aspectos: evitar o sofrimento e ter experiências de prazer. Nesse sentido, pode-se compreender a felicidade como o simples fato de ter afastado o sofrimento e a infelicidade. Destaca-se, ainda, que a felicidade é sempre representada por um prazer momentâneo que, se prolongado, se transforma em fonte de prazer muito tênue.

Nessa pesquisa, observa-se o aparecimento do desejo em 5,2% das falas das gestantes. Tal sentimento se manifesta, nas falas, aliado ao amor, à esperança e à alegria gerando segurança e confiança e auxiliando no afastamento do medo e do sentimento de culpa, conforme a fala da gestante. “Na minha primeira gravidez tive depressão, eu não falava, tive que fazer tratamento, eu tinha dezesseis anos e minha filha nasceu com microcefalia. Na segunda gravidez também foi muito difícil, estava para me separar e tinha muita vergonha de ser mãe solteira. Agora na terceira, me sinto preparada, meu namorado me apóia muito, mesmo se depois a gente se separar acho que ele ainda vai me ajudar, isso é bom” (S.R.R. 26).

Nota-se que o fortalecimento do desejo na mulher pode auxiliar no encaminhamento saudável da gestação, assim como a atenuação do desejo pode acarretar problemas na gestação, parto e amamentação. Quando esse sentimento enfraquece, a capacidade de desenvolver atividades é diminuída e, nesse momento, é comum a ocorrência do sentimento de culpa especialmente quando o enfraquecimento do desejo se relaciona ao medo.

Para que gestação e puerpério ocorram bem, é importante que a mulher esteja atenta à sua posição de protagonista do desejo, além de estar ciente de seu papel dividido entre ser mãe e mulher. A mulher deverá ser capaz de dosar sua função de mãe com as outras atividades de sua vida e manter vivo o desejo diante das mais diversas tarefas que ela deverá desenvolver. Caso contrário, é possível que a mulher se frustre, sinta remorso, arrependimento e culpa.

O obstetra Ricardo Jones destaca a ligação entre sentimento de culpa e o mundo feminino, decorrente do papel da mulher no mito do pecado original. A culpa pode ser compreendida como uma espécie de tristeza que advém da satisfação de um desejo que se configurou numa ação má ou da união desejo com as paixões temor e desespero. Embora o sentimento de culpa não tenha sido analisado do ponto de vista quantitativo, podemos observar sua manifestação a partir das paixões secundárias que enfraquecem o desejo, a saber, o medo que incidiu em 16,4% das falas, e na ocorrência de desespero, em 0,9% das entrevistas.

Ao observarmos os dados da pesquisa nota-se que em grande parte das mulheres a gestação não é planejada e podemos encontrar, então, uma das justificativas para a alta incidência do medo nas entrevistas, especialmente aliado à surpresa, que aparece em 1,9% das mulheres.

A manifestação de medo da perda do amor de familiares e amigos, também é um sentimento recorrente nas gestantes entrevistadas, conforme a fala: “Senti medo não por ficar grávida, mas medo da minha mãe, pelo fato de eu ser nova, né” (A.C.R., 17). O depoimento da voluntária assinala o quanto a relação entre medo da perda do amor dos familiares e sentimento de culpa pode se manifestar, quando a causa da culpa advém de uma ação mal planejada. Destaca-se que o medo de punição dos familiares e amigos e a possibilidade de perda do amor destes, reforçam o sentimento de culpa e podem resultar em traumas para mãe e o bebê. Para evitar tal sofrimento é comum observar nas falas das participantes a negação à própria satisfação para conservação do amor do outro.

Pó r conseguinte, nota-se que o enfraquecimento do desejo nas gestantes e sua associação ao medo e ao desespero podem agir negativamente nas mulheres deixando-as inseguras com relação ao futuro, à sua condição feminina e ao parto, o que também acarretaria sentimento de culpa, conforme a fala da gestante: “Tenho medo de ganhar o bebê, medo da dor, dedar algo errado” (L.L.S., 19).

Ao se considerar a motivação para ocorrência da culpa proveniente de sua consciência é comum a mulher culpar-se por não cumprir plenamente seu papel de mulher/mãe. O relato da gestante, M.S.S., 23, destaca o medo por receio de não realizar devidamente seu papel de mãe: “Assim, vai ser muito difícil criar uma criança sem experiência nenhuma, essa é a parte que eu fico triste, como vai ser meu cuidado com ele”.

O enfraquecimento do desejo e a culpa podem gerar problemas como depressão pós-parto, rejeição do bebê e problemas nas relações pessoais. Portanto, ressalte-se a importância de pesquisadores, profissionais da saúde e familiares tratarem o tema desejo e culpa nas mulheres.

Para que possamos encaminhar as famílias para melhores rumos também é fundamental que percebemos a importância de dar voz às mulheres. Que seus parceiros e demais familiares discutam e compreendam os sentimentos manifestos durante a gestação e apóiem as gestantes e puérperas nessa fase de tantas transformações. Em conclusão, diante da questão, família para onde vai?, é preciso que os familiares e amigos trabalhem no sentido de fortalecer o desejo das mulheres a fim de gerar nestas segurança e confiança. Assim, é provável que seus filhos cresçam em ambientes de companheirismo, desejo e amor; afinal, dar voz às gestantes é encaminhar as famílias para rumos mais sólidos e seguros.

Artigo publicado na revista Escola de Pais do Brasil – Seccional João Monlevade – MG, nº 25, novembro de 2010, p. 36.

Karina de Cássia Caetano é professora de Filosofia e pesquisadora nas áreas de Filosofia e Psicanálise. NO momento, participa do grupo Parthos – Estudo sobre a relação entre corpo e alma a partir das paixões manifestadas nas mulheres durante o período perinatal fundamentado nos pensamentos de René Descartes e Jacques Lacan, com o projeto de pesquisa A culpa e o desejo: interface entre Freud e Descartes.

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