Cultivar-se para cultivar os outros: a arte do bem viver

“Amar a si mesmo é o começo de um romance para toda a vida” (Oscar Wilde)

A nossa agitação diária faz com que fiquem cada vez mais raras as ocasiões em que podemos parar e pensar sobre a nossa vida, mesmo conscientes de que essas pausas precisam existir e são fundamentais para prestarmos atenção às nossas ações e emoções, aos nossos relacionamentos e às nossas expectativas.

Atualmente, parece nos intimidar a ideia do grande valor em sermos autênticos e verdadeiros, o que nos leva, muitas vezes, a acreditar que viver na superficialidade está em alta e dá menos trabalho. Tudo isso nos coloca em conflito existencial, e a nossa maior batalha é a busca para sermos nós mesmos, de olharmos para dentro de nós, de firmarmos nossos propósitos, de cultivarmos nossa mente e nosso coração. Abdicar disso, pode nos levar a uma vida de sentimentos conturbados e relacionamentos frágeis.

Então, é preciso dar tempo para a construção e o cultivo de nós mesmos. É preciso cuidar-se. O cuidado é uma atividade humana. Cuidar é definitivamente uma forma de promover a vida. Só nós, humanos, podemos construir o mundo a partir de laços afetivos. Esses laços tornam as pessoas e as situações preciosas, portadoras de valor.

Cuidar é, na realidade, uma atitude de preocupação, ocupação e envolvimento afetivo com o ser cuidado. É comum ouvirmos que para cuidar, antes de tudo é necessário cuidar-se. Assim, prestar atenção à existência pessoal é a primeira forma de cuidado, e a partir daí, já podemos ver o outro e prestar-lhe atenção.

Para cuidar, temos que nos sentir bem e para isso é importante encontrar tempo para si mesmo. Vale aqui destacar o pensamento do nosso Papa Francisco, que diz:  “Como mudaria o mundo se cada um de nós começasse já a cuidar seriamente de si próprio, da sua relação com Deus e com o próximo; se olhássemos para o outro, com olhos de bondade e de ternura, como Deus olha para nós, nos espera e nos perdoa; se encontrássemos na humildade a nossa força e o nosso tesouro, mas muitas vezes temos medo da ternura e da humildade.”

É preciso tempo para cuidar-se, para cultivar-se. Se negligenciarmos esse nosso tempo, nossos corpos e nossas emoções serão seriamente prejudicados, deixando-nos fracos e com comportamento instável.

Ser feliz é fácil e significa a capacidade humana de sentir plenamente as emoções e dar significado a elas, compreendendo os sentimentos vividos no dia a dia.  Para isso, primeiramente, precisamos pertencer a uma família, desfrutar do bem-estar no ambiente em que vivemos e ter paz. Saber que nossa vida acontece nas experiências do cotidiano, quando agimos plenamente como “seres humanos”.

Para viver bem, é preciso reconhecer que somos seres dotados de emoções e, por isso, é preciso refletir sobre elas, a fim de compreender os nossos sentimentos. E para vivermos uma felicidade coletiva, é preciso, inicialmente, viver a individual, que consiste na liberdade do ser humano para tornar-se quem realmente é, com a natureza que traz dentro de si. Segundo Denis Diderot, “Aquele que analisou a si mesmo, está deveras adiantado no conhecimento dos outros”.

Por isso, temos de ser verdadeiros. A coisa mais difícil é ser o que não se é, ser o que os outros querem que sejamos. Temos de lembrar, porém, que nenhuma modificação ocorre sem um trabalho duro. Não há nenhuma fórmula para sermos o que queremos ser, é preciso aperfeiçoar-se e cultivar-se a cada dia.

Nosso grande desafio é saber que o ser humano precisa viver plenamente a sua vida. Se garantirmos isso, iremos construir pessoas potencialmente capacitadas para viverem felizes. A felicidade é algo simples, que não está impresso na tecnologia, nos produtos materiais, mas dentro de nós, humanos. Ela vem nos resgatar e convidar ao resgate de uma humanidade que está sendo perdida. Precisamos de um novo humanismo, compreendido como um reencontro com a nossa condição de seres humanos.

Assim, em primeiro lugar, necessitamos desenvolver plenamente as capacidades humanas de viver uma vida sem defesas, sem medos, sem os bloqueios do dia-a-dia e permitir-se sentir. Em segundo, adquirir ou readquirir os olhos inocentes de criança que um dia tivemos e, hoje, perdemos. Isso significa: viver uma vida sem julgamentos, mas tentar contribuir para uma vida ética, um bem viver. E, para viver bem com o outro, é preciso ser tolerante às diferenças.

Somos responsáveis pelo nosso bem estar. Estando felizes, os outros se espelharão em nós. A coisa mais importante é tornar-se uma pessoa sempre melhor, maior e afetuosa, pois é isso que vamos dar aos que convivem conosco. A nossa paz interior é a força que precisamos para manter o equilíbrio e cultivar a paz em todos os lugares que estivermos presentes.

Então, de que modo entramos em contato com nós mesmos? Primeiro, tornando-nos cientes. Cientes da vida, cientes das nossas necessidades reais, das nossas deficiências, das nossas qualidades, do mundo e das pessoas que estão a nossa volta. Abrindo a nossa mente, nosso coração e nossos braços, exaltando a nossa humanidade através de nós mesmos, apesar das nossas imperfeições. A escritora Cynthia Kersey diz: “Acredite em si próprio e chegará um dia em que os outros não terão outra escolha senão acreditar em você”. É provável que a coisa mais empolgante na vida seja saber que temos o potencial para nos tornarmos plenamente humanos.

Infelizmente, muitas vezes deixamos de nos interessar por nós mesmos, esquecemos que tudo começa com o exercício de cultivar-se, todos os dias, e que somente assim poderemos cultivar sentimentos e ações positivas na vida dos outros. É certo que quanto mais próximos chegarmos do amor a nós mesmos, mais amor teremos para dar. Precisamos continuar a crescer, a adquirir novidades a cada dia, nos transformando em um ser cada vez melhor na arte de viver e conviver com os outros, pois é a semelhança que nos aproxima, mas é a novidade que nos conservará unidos.

Queremos, aqui, com muito carinho e respeito, lembrar a Escola de Pais do Brasil, Associação que há 52 anos, de forma comprometida e responsável, volta seu olhar de ternura e esperança sobre as famílias do Brasil. Consciente dos seus objetivos, leva a todos sua mensagem e seu temário, que enriquece, orienta, forma e informa as pessoas, especialmente pais, educadores e cuidadores, sinalizando caminhos novos, em tempos novos, porém com valores claros e firmes, tão necessários nas famílias e no mundo em que vivemos.

Participando desta Associação há 22 anos, somos gratos por tudo o que aprendemos e compartilhamos, em conhecimento e amorização e com todos os que convivemos, durante esse tempo. Buscamos, a cada dia, cultivar nossa cabeça e nosso coração, e nos melhorarmos, apesar de nossas imperfeições, no sentido de podermos, em nome desta nobre missão, dar a nossa contribuição, de forma afetiva e efetiva, à Escola de Pais do Brasil. Entendemos que, o mais importante em nossa vida é compreender plenamente quem somos e construir sobre essa fonte de paz, compreensão e força, o nosso “ser individual” e, somente depois, buscar nos outros, com amor e aceitação, a esperança daquilo que poderemos nos tornar, juntos.

Finalmente, cabe a cada um de nós, seres humanos, amados e acolhidos incondicionalmente por Deus, refletirmos sobre a verdadeira arte de cultivar a vida que pulsa em nós, dando a ela e fazendo dela o melhor que pudermos. Somente após este exercício diário e consciente, encontraremos os caminhos que nos levarão ao encontro e ao cultivo dos que estão a nossa volta.

Inês Pastore Baldissera e Antônio Cláudio BaldisseraCasal Representante da Diretoria Nacional da Escola de Pais do Brasil, em Santa Catarina.

Artigo publicado na Revista Escola de Pais do Brasil – Seccional da Grande Florianópolis nº 6, junho de 2015, p. 14.

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