“Criança protegida demais será mais alérgica” , diz presidente da Associação Catarinense de Pediatria

Evitar que a criança ande de pés descalços e fique exposta ao sol forte são cuidados importantes. O problema é quando passam do limite. A preocupação excessiva com a higiene dos pequenos está diretamente relacionada ao desenvolvimento de alergias, conforme alerta a pediatra Helena Maria Corrêa de Sousa Vieira, especialista em alergias e imunologia pediátrica e atual presidente da Associação Catarinense de Pediatria. A profissional também destaca que a alimentação inadequada nos primeiros meses de vida e aspectos da vida moderna, que levam a criança a ter menos contato com a natureza, prejudicam o desenvolvimento de anticorpos. Esse e outros temas serão debatidos entre hoje e sábado no 15º Congresso Catarinense de Pediatria, no Costão do Santinho, em Florianópolis. Maria Helena conversou com o Diário Catarinense e falou sobre alguns dos temas que geram maior preocupação no meio. Confira os principais trechos:

 Quais têm sido as principais causas de alergias nas crianças?

A maior consideração, no que envolve as alergias, são de aspecto alimentar. As crianças apresentam problemas logo que nascem e existe uma série de fatores que concorrem para que elas sejam cada vez mais alérgicas. Um ponto é a falta de aleitamento materno nos primeiros seis meses de vida, pois ele é fundamental para a saúde. Outra questão é a higiene em excesso, que acaba tornando a criança alérgica a coisas comuns. Se protegida demais, ela será mais alérgica e acabará por ter uma vida muito complicada nos primeiros anos de escola porque é preciso toda uma alimentação diferenciada.

Como que a higiene em excesso prejudica o desenvolvimento?

A criança é privada de experiências naturais que poderiam ajudar a desenvolver anticorpos nela. São coisas como andar de pés descalços, ter contato com a terra, grama, chão. Tudo é protegido demais. Até mesmo a questão dos alimentos. Tudo que é saudável e ela não consumir pode gerar intolerância, assim como o excesso de consumo de alguma coisa. Também entram nesse ponto o contato com animais, se expor ao sol, água, mar. Já foram feitos vários estudos que mostram que crianças que vivem em fazendas, por exemplo, têm bem mais resistência que indivíduos com higiene excessiva. Esse contato com a vida natural é saudável e protege o indivíduo à medida que ajuda no desenvolvimento de anticorpos.

A ausência de Vitamina D também é consequência disso?

Em parte sim. Esse hábito das crianças que moram nas cidades saírem cada vez menos de casa e ficarem mais ligadas a computadores e videogames tem levado à necessidade de ingestão de vitamina D via oral de forma absurda. Isso porque as crianças estão simplesmente ficando sem sol e sem o componente que é extremamente importante para a formação óssea. Essa proteção em excesso também atrapalha nisso. É sempre dentro de casa, dentro da escola, dentro do carro, não se sai mais à rua, joga bola, anda de bicicleta, vai à praia. Por outro lado, tem a questão da exposição da pele ao sol, que também exige cuidados quanto a queimaduras e câncer de pele.

E no caso dos alimentos, o que é observado?

São as várias substâncias que os alimentos contém que provocam desajustes na parte endócrina e alérgica. Uma vez que você tem tudo natural, você tem uma alimentação mais segura. O papel na nutrição pediátrica é fundamental para a longevidade humana, estamos falando principalmente na ingestão de alimentos saudáveis nos primeiros mil dias.

O que já é consenso entre os pediatras sobre isso?

A amamentação, apenas com leite materno, até os seis meses e, a partir desse momento, a ingestão de alimentos sem agrotóxicos, preferência por orgânicos. Uso de pouco sal e cuidado com as gorduras são importantes para o crescimento saudável.

A mudança de médicos para acompanhar a infância é um problema?

Essa questão de um mesmo médico acompanhar ao longo de toda a infância é muito importante. O profissional geralmente já conhece a família, terá históricos da criança e mais facilidade para entender problemas e até mesmo direcionar para algum especialista, se necessário. Mas isso é difícil de ocorrer hoje em dia. Infelizmente, há menos pediatras no mercado e menos profissionais mantendo consultórios.

Quais os pontos que mais preocupam os pediatras sobre o zika vírus?

É entender como a epidemia está no Brasil e no mundo. Precisamos reconhecer a doença para assim que diagnosticar a microcefalia poder conduzir um tratamento mais adequado. Para as mães, o cuidado maior é evitar o mosquito. Não existe tratamento que possa ser feito durante a gestação. É um questão preventiva. Uma vez diagnosticada a microcefalia, não há muito mais o que fazer. É acompanhar para que a criança possa ter a melhor vida possível dentro das limitações que terá.

A vacinação contra o HPV ainda não é muito bem aceita. O que os pediatras têm feito nesse sentido?

A gente tem incentivado a vacinação e tentamos colocar isso para os pais. Quando existe uma relação de maior confiança entre o médico e os pais fica mais fácil explicar os benefícios da vacinação correta e as doenças que ela protege. E aqui mais uma vez a importância de seguir com o mesmo médico. Mas qualquer coisa que é preventiva tem uma certa barreira cultural na nossa sociedade, ainda mais no que envolve um doença sexualmente transmissível. Há um tabu que precisa ser quebrado.

O aumento de casos de caxumba e coqueluche tem alguma explicação?

A prevenção da coqueluche, que acontece nos primeiro anos de vida, não é refeita mais tarde. O mesmo ocorre com a caxumba, que teve uma grande incidência recentemente. Se faz a vacina quando criança, mas não se repete mais tarde na adolescência.

E aquela história de que é melhor pegar caxumba ou sarampo quando pequeno, mesmo que seja de propósito, é recomendada?

Não é recomendado isso. Essas doenças podem ter aspectos mais graves e se o sistema imunológico está baixo podem ser sérias. Não se faz isso. Ninguém deve ter um doença seja ela qual for, ainda mais uma que existe vacina contra.

Publicado no site do DIÁRIO CATARINENSE

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