Bullying: Como enfrentá-lo?

O termo anglo-saxônico bullying é utilizado para descrever atos de agressão física ou psicológica – de caráter intencional, repetitivo e sem motivação aparente – provocados por uma ou mais pessoas contra um colega em desvantagem de poder, com o objetivo de causar dor e humilhação. Insultos, exposição ao ridículo, difamação e agressões mais veladas como rejeição e isolamento são exemplos dessa prática. O bullying escolar tem sido muito estudado por ser o mais frequente. Mas ele também pode acontecer dentro de casa ou no trabalho.

Como muitas vezes as agressões são veladas, os jovens envolvidos, a escola e os pais não sabem o que fazer. Aliás, uma das características do bullying é justamente a dificuldade em identificar sua prática e a partir daí considerá-la como violação à dignidade alheia.

Existem vários níveis de agressão e, portanto, de bullying, alguns quase inofensivos, outros extremamente virulentos. De qualquer forma, é bom ter em mente que mesmo uma pequena agressão só deve ser considerada inofensiva se o “agredido” o sentir como tal.

Quero aqui refletir sobre o bullying na sua pior forma, aquela bem virulenta.

Foi só uma brincadeira!

É esse é o mote preferido dos agressores. É usual o agressor justificar seus bullies como brincadeira para com isso se defender contra possíveis punições e/ou como estratégia para continuar executando suas maldades. Conveniente salvaguarda e salvoconduto dos intimidadores. Dissimulada afirmação e justificativa para os próprios atos.

Muitos professores, coordenadores, jovens e pais reagem a situações de bullying escolar dizendo: – “Ele disse que foi só uma brincadeira! É comum nessa idade”. Ideia vendida, ideia comprada. Assunto resolvido.

Boa ideia é perguntar ao intimidado se ele se divertiu, se foi realmente engraçado o que aconteceu com ele. Afinal, todos sabemos que brincadeira só existe se nos faz rir, se desperta bons momentos.

Vamos combinar:

Ofensa não é brincadeira. Intimidação não é brincadeira. Mentir com intuito de “ferrar” alguém, não é brincadeira. Porque o bullying não é brincadeira. É um tipo de atentado à integridade psíquica, física e social infringido a alguém que será considerado e tratado como uma vítima. E deve se sentir assim. Vai perder todas. Não vai ter razão. Vai ficar à espreita. Portanto é vítima dos ataques do agressor e vítima de si própria pois se sente impotente para fazer frente ao agressor e se colocar com integridade nas situações.

 Justificar o bullying como brincadeira traz também outro prejuízo: engano na interpretação dos fatos e intenções. Perde quem faz isso. Desaprende ao supor que o sofrimento causado deliberadamente a alguém é normal, é brincadeira. O fato de ser “comum” de acontecer com frequência entre crianças e adolescentes transforma-se na seguinte avaliação: se é comum, se acontece, então é assim mesmo, não tem o que fazer. Conforme-se. Considerar o bullying como ofensa e mau trato acaba sendo um erro de avaliação, um exagero de quem assim pensa.

O bullying cria um tipo de configuração nas relações que torna difícil o acesso ao que realmente aconteceu pois geralmente o intimidador não o faz sem garantir que a “fachada” seja outra.

O intimidador é aquele sádico que põe em ação a sua malvadeza cujo traço principal é a covardia. Isso mesmo, o intimidador é, acima de tudo, um covarde, mas não por isso menos maléfico. Sua estratégia de ação é manipular palavras e pessoas. Tenta formar um pequeno exército que também deve se voltar contra a vítima. Ao perceber-se capaz de acuar e anular alguém sente-se poderoso e triunfante.

 Se o maior trunfo do bullying é agir à espreita o melhor trunfo para combatê-lo é fazê-lo sair das sombras. Como? Através do conhecimento, do reconhecimento que ele existe e de regras para evitá-lo.

 Conhecimento: Buscar e fornecer informações sobre essa prática (o que é, como se caracteriza, como evitá-la).

Reconhecimento: Reconhecer que ele existe e que há vítimas de ataques ofensivos.

A indiferença estimula a prática do bullying.

Regras: Formular e implementar, principalmente na escola, regras de convivência levando em conta a existência do bullying que deve ser uma prática proibida e punida. Quem está do lado de fora não pode nem deve se omitir se quiser de fato evitar ou acabar com esse drama dentro e fora das escolas. O assunto deve ser levado a sério, só assim os intimidadores perceberão que não podem agir ao bel prazer.

 A vítima

A vítima do bullying sente-se isolada e desprotegida, visto que a maioria das pessoas que a cerca não enxerga o que está acontecendo. Motivo: Elas se sentem impotentes para modificar a situação, ou são coniventes ou tendem a agregar-se com a maioria manipulada.

A vítima nesse caso é a que realmente podemos chamar de ”bode expiatório”. Sofre uma espécie de preconceito.

O mecanismo básico que explica o preconceito é: discrimina-se alguém, que se torna então o depositário das imperfeições que não admito ter. Traduzindo em miúdos: atribuo defeitos, problemas, limitações e imperfeições a um outro que não eu. Na psicanálise isso se chama mecanismo de projeção.

Cria-se então um falso efeito no psiquismo do agressor e dos espectadores (nesse caso a omissão é cúmplice da agressão), de que eles não têm imperfeições, de que são desprovidos de problemas, que são “ótimos”e mais ainda, como efeito secundário, de que são poderosos por conseguirem “abafar” uma vítima. Isso explica bastante o porquê do silêncio do grupo, da passividade conveniente e da falta de solidariedade com a vítima.

Portanto quem sofre bullying é três vezes vítima:

Do agressor – que a ataca; de si própria – pois se sente impotente diante da situação;

do grupo – que escolhe um bode expiatório para transformar em um “bidê

expiatório”. Então fica assim: Eu – agressor e grupo espectador – sou ótimo, ela – a vítima – é que é problemática, limitada, fracassada, coitada e por aí vai…

A vítima, geralmente ingênua, não sabe se defender, ou sua ética pessoal não permite que use as mesmas armas de ataque contra o agressor e faça o mesmo jogo, ou então não consegue ter atitudes incisivas que dêem um limite aos agressores. Muitas vezes, deixa-se derrotar pelos agressores. Outras vezes, acaba acreditando que é mesmo tudo aquilo que o agressor e seus aliados lhe imputam como características ou limitações.

Muitas vezes, tudo começa com alguns centímetros de altura a mais ou menos, um pouco de peso a mais ou a menos, uma pele rosada ou com espinhas, inteligência e/ou beleza a mais ou a menos, timidez a mais e, com certeza, autoestima a menos por parte da parte da vítima.

As características das “vítimas”, que viraram motivo de gozação e ofensa, são sempre atributos muito comuns e naturais. Mas nas mãos de um agressor tudo muda: ele transforma uma limitação em deficiência, transforma o infinitamente humano em aberração.

Claro que esse triunfo, rigorosamente, não deveria ser considerado com tal, visto que é um triunfo baseado em atos covardes, criando, artificialmente, uma diferença de poder e de capacidade entre o agressor e o agredido. Por que inverter o sentido clássico das palavras? Neste caso melhor chamar de triunfo da covardia.

 Publicado na Revista nº 1 – 2009 – Escola de Pais – Seccional de Biguaçu 

Sônia Makaron – Psicanalista. Diretora do Jornal Jovem de circulação nas escolas de São Paulo. http://www.bullying.pro.br

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