Alguns segredinhos para fazer do afeto ações de verdadeira amizade

O afeto pode levar à construção da amizade quando é um sentimento recíproco. Mas nem sempre isso é possível. Às vezes, sentimos imensa afeição por alguém distante, por líderes inacessíveis, por músicos ou escritores que já morreram. Podemos até mesmo pensar que nessa afeição reside uma certa “amizade platônica”, mas esta, por certo, não é a mesma amizade despertada pelo prazer de se estar junto e de conviver com intensidade cada instante. É dessa amizade que aqui se fala entre adultos (pais e professores) e crianças (filhos e alunos). Para reforçá-la, alguns procedimentos não podem ser esquecidos: 
 
ACREDITE SEMPRE NA CRIANÇA
Toda criança que desenvolve um senso extraordinário de se sentir capaz e responsável provém de lares e escolas em que pais e professores sempre a viam assim. Uma ou outra criança, por certo, não alcançará o limite do que para ela se sonha ou se deseja, mas, se efetivamente encorajada, descobrirá trilhas e inventará caminhos para surpreender os adultos com capacidades que jamais pensamos. 
 
APRENDA A USAR SEMPRE UM VOCABULÁRIO POSITIVO
Raramente nos damos conta da prodigiosa força das palavras e, dizendo-as sem reflexão ou cuidado, podemos estar minando potenciais, corroendo esperanças. A criança que se vê persistente, e não teimosa, dinâmica, e não explosiva, cheia de energia, e não selvagem, entusiasmada, e jamais barulhenta, criativa, e não bagunceira, não se abate pela vergonha de ser o que é e de descobrir em si mesma valores que não supunha possuir. 
 
TENHA SEMPRE UMA LENTE DE AUMENTO PARA REALIZAÇÕES POSITIVAS
Não se trata de “mimar” em excesso ou de construir uma postura mais ou menos rígida. Educar, como vimos, é ensinar o não, a ordem, a regra; a amizade verdadeira não se contrapõe à firmeza, ela se consolida em observar sempre o lado positivo, as conquistas efetivas, mesmo se pequenas. 
  
 DEFINA EXPECTATIVAS REALISTAS
O que mais deve interessar a um pai ou a um professor é a “felicidade” de seus filhos ou alunos, e se essa meta é verdadeira, é essencial que jamais possamos deixar-nos seduzir pela tolice de que a criança precisa ser melhor em tudo, competente na superação de qualquer desafio. O amigo verdadeiro é o que aprende a gostar, respeitando os limites e aceitando as dificuldades sem lamentá-las. 
 
APRENDA A JULGAR COM DIGNIDADE E ENSINE QUE A VERDADEIRA JUSTIÇA NÃO ESCONDE  HIPOCRISIAS
A capacidade de julgamento de uma criança não nasce como atributo genético, nem se desenvolve como a dentição. A capacidade de perceber o que é certo e o que é errado é construída por meio de estágios progressivos e a criança só pode aceitar seu erro se os elementos de sua mente já a amadureceram para essa compreensão. Crianças com menos de sete ou oito anos não apresentam desenvolvimento de raciocínio para compreender por que um comportamento é certo ou errado e, dessa forma, quando o assumem, o fazem como quem presenteia o adulto – de nada adiantam os “sermões”, e tampouco deve-se esperar que o procedimento “correto” de ontem seja assumido plenamente hoje. 
 
SAIBA ATRIBUIR RESPONSABILIDADES CRESCENTES
Aprender a assumir responsabilidade por si mesmo é um elemento marcante para uma vida feliz e, dessa forma, o verdadeiro amigo é aquele que tem sempre em mente projetos para desenvolver progressivamente e sem pressa a autonomia da criança. À medida que as crianças vão crescendo, precisam ir descobrindo que se atenua a tutela para irem ao banheiro sozinhos, dormirem no escuro, escolherem sua própria roupa, subirem até o alto do escorregador e, até mesmo, mais tarde, lidarem com o dinheiro e o dormirem na casa de um amigo. 
 
AJUDE A CRIANÇA A DESENVOLVER HABILIDADES SOCIAIS
·  escutar;
·  iniciar e manter uma conversa;
·  fazer perguntas;
·  agradecer;
·  cumprimentar uma pessoa;
·  apresentar-se;
·  pedir ajuda;
·  dar e seguir instruções;
·  pedir desculpas;
·  argumentar;
·  conhecer seus próprios sentimentos;
·  expressar suas emoções;
·  entender e saber lidar com os sentimentos dos outros;
·  expressar afeição;
·  compartilhar;
·  pedir permissão;
·  defender seus argumentos;
·  responder a provocações;
·  dizer “não”;
·  manter equilíbrio em uma derrota;
·  ser leal;
·  lidar com a contradição;
·  decidir sobre algo a fazer;
·  estabelecer um objetivo.
 Essas habilidades sociais não constituem comportamentos inatos e, portanto, se não aprendidas no lar e na escola, transformam-se quase sempre em experiências frustrantes de infinitos ensaios e erros.
O desenvolvimento de habilidades sociais – das mais simples às mais complexas – necessita de uma ajuda amiga e do amparo imprescindível da educação com propósitos claros.
Uma boa educação transforma cada um desses itens em um pequeno projeto e define objetivos para sua concretização e avaliação; prioriza sempre o exemplo ao conselho, o ensaio da prática persistente e da experiência vivenciada às “broncas” e ao comodismo do “deixa estar que se eu não fizer a escola fará”.
Fazer um amigo é como escalar uma montanha. Os passos necessitam ser seguros, os desvios podem ser fatais, a prudência e a coragem precisam sempre andar juntas. Não é possível se deixar levar pela ansiedade e pela precipitação, e toda vez que se escorrega – e escorregões são inevitáveis na escalada -, é necessário ter paciência e persistência para recomeçar com entusiasmo.
    Fazer um amigo é como escalar uma montanha. A conquista do infinito é admirável e a vista do alto, inesquecível. Mas a escalada vale bem mais que atingir o topo. A alegria de tentar é tentar é muitas vezes maior do que a certeza de efetivamente conseguir.

ANTUNES, Celso. A linguagem do afeto: Como Ensinar e Transmitir Valores. Campinas, SP: Papirus, 2005.

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