A FAMÍLIA SE RECRIANDO PARA CUMPRIR SUA FINALIDADE: lugar de humanização

Há centenas de milhares de anos, por motivos ainda não bem conhecidos, nossos ancestrais abandonaram o determinismo genético que está presente na maioria dos seres vivos, o que define o que cada um será, para seguir o caminho da aprendizagem.  Isso tornou possível uma infinidade de variáveis no desenvolvimento da sua humanidade, dependendo da sua unidade familiar e da sua cultura. Este acontecimento foi fundamental para a enorme vantagem evolutiva de nossa espécie em relação aos demais hominídios. Por outro lado, criou uma necessidade de educação para a humanidade.

O ser humano agora se torna um animal que depende do ambiente que lhe oferece o aprendizado para se construir. Fica claro que a HUMANIDADE é uma condição aprendida, que depende do meio onde o indivíduo está inserido, e ao longo da existência, pode ser aperfeiçoado a limites ainda não imagináveis.

À luz de novas ciências, psicologia, neurociência, epigenética, talvez nunca tantos conhecimentos científicos tenham sido produzidos nas últimas décadas, confirmando a importância da família na construção humana.

Como nunca, a família atual está sujeita a uma forte pressão interna, sem precedentes, que provem das necessidades crescentes de seus membros. O maior desafio talvez seja a necessidade de um novo e exigente cuidar, principalmente dos filhos e das mudanças inerentes à evolução de todos os seus membros. Por outro lado, tem um estresse de acomodação para garantia da continuidade associada ao processo de mudança.

Paralelamente, a família atual sofre uma grande pressão externa para se adaptar a mudanças da sociedade onde está inserida. A sociedade hoje se transforma numa velocidade extremamente maior do que a capacidade de acomodação e mudança da estrutura familiar. Ao mesmo tempo, há um agravante da sociedade não oferecer às famílias, meios e estruturas complementares que possam facilitar o exercício de suas funções, como uma estrutura de excelência na construção do ser humano.

É inegável a exigência crescente do envolvimento das figuras parentais em atividades sociais que lhe roubam o tempo, a disposição e a tranquilidade necessárias para o importante exercício da sua função intrafamiliar. Isto tem levado a muita confusão, às vezes até desespero, culpa e dificuldades adaptativas.

A dificuldade da família em se adaptar e acomodar a uma nova sociedade não é uma novidade do nosso tempo. Podemos, através da história, ver movimentos da sociedade reagindo a esta dificuldade adaptativa das famílias o que, por muitas vezes, ocasionou a denominação de que a família era uma estrutura retrograda.

Já na época de Cristo, temos as citações de que Ele havia recomendado aos seus discípulos para que deixassem seus pais e suas famílias e o seguissem. Na  Revolução Francesa, Russa e Chinesa, todas atuaram solaparam a estrutura familiar tradicional na tentativa de acelerar o progresso em direção a uma nova ordem social revolucionária. Em todos esses movimentos, a família era vista com entrave às mudanças desejadas. Na Rússia foi muito claro nos anos de 1920, durante e depois da revolução, leis que tendiam ou favoreciam a dissolução da família, havendo forte estimulação à maternidade independente, com o Estado assumindo o papel de substituição da família no cuidado das crianças. Em torno de duas décadas depois, houve uma modificação com novas leis de apoio à continuidade da família. Foi um dos primeiros países que criou a licença maternidade.

Algo semelhante ocorreu com os Kibutzim israelenses, que recentemente apresentam uma tendência de aumentar a participação, preservando as funções da família nuclear.

Segundo Salvador Minuchen “A mudança sempre se desloca da sociedade para a família, nunca da unidade menor para a maior. A família mudará, mas também permanecerá porque é a melhor unidade humana para sociedades rapidamente mutáveis. Quanto mais flexibilidade e adaptabilidade requer de seus membros, mais significativa se tornará a família como matriz do desenvolvimento psicossocial.”

Temos um dilema, a sociedade com pressa de mudanças atropela a família, que por sua vez é estrutura imprescindível para humanizar membros para esta sociedade em mudança. A família atropelada, pressionada tem prejuízos no desempenho da sua função. Não é uma tarefa simples tentar equalizar os interesses, as exigências, por vezes divergentes, entre a família e a sociedade Não é uma tarefa simples tentar equalizar os interesses, as exigências, por vezes divergentes, entre a família e a  sociedade, em especial, a rapidez de mudanças que é exigida e proposta pela sociedade.

John Bowlby, no seu livro, Aplicações Clínicas da Teoria do Apego, no capítulo introdutório, expressa sua crença de que a maioria dos seres humanos tem desejo de ter filhos e que seus filhos cresçam saudáveis, felizes e autoconfiantes. Fundamental para que tenham sucesso neste empreendimento é desenvolver uma ideia adequada do que seria um cuidado bem sucedido, o qual seria a chave para a saúde mental das próximas gerações. Bowlby expressa sua preocupação quando escreve “paradoxalmente, as sociedades mais ricas do mundo foram levadas a ignorar as verdades básicas, levando a uma situação onde o trabalho do homem e da mulher na produção de bens materiais conta pontos em todos os índices da economia, por outro lado, a dedicação do homem e da mulher ao cuidado na produção de crianças felizes, saudáveis e autoconfiantes em seus próprios lares não conta absolutamente. Nós criamos um mundo de pernas para o ar”.

Esta preocupação nos remete para a possibilidade equivocada de que, na medida em que descobrimos a fundamental importância do cuidado terno afetivo de nossas crianças, ocupados com as pressões extrafamiliares, estamos cada vez menos disponíveis para a satisfação dessas necessidades das nossas crianças.

A tendente solução de terceirizar o cuidado parece a muitos especialistas uma solução inadequada. A humanização depende fundamentalmente de prover nossos filhos, nossas crianças, de tudo o que for possível e que seja relativo à construção de sua estrutura psíquica e afetiva.

Se as relações de consanguinidade que caracterizavam os vínculos familiares do passado, foram substituídas pelos vínculos afetivos, na gama de novas constituições familiares, é imprescindível que valorizemos e sejamos meio de provimento, de construção e ampliação desses vínculos afetivos.

Para concluir uso o texto de Michael P. Nichols e Ricard C Schwartz em Terapia Familiar Conceitos e Métodos “Após quase duas décadas de cuidadosa neutralidade sobre os diferentes arranjos familiares, o modelo de pai/mãe juntos mais uma vez se tornou um grito de estímulo das comissões de família, dos analistas políticos e dos cientistas sociais. Eles o proferem não somente como a melhor divisa contra a pobreza das crianças, mas também como a prescrição mais confiável para o sucesso e felicidade. Talvez Deus tenha inventado a ideia de pai/mãe por outras razões além das meramente biológicas. O que você acha?”.

Cezar Augusto Detoni, associado da Escola de Pais do Brasil há 30 anos, médico, gastroenterologista e endoscopista, com formação em terapia de casal e família.

Publicado na Revista Escola de Pais do Brasil – Revista Congresso, SP, junho de 2018, p. 6-8.

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