A família e o desenvolvimento da linguagem

O momento em que as crianças começam a falar parece mágico. De repente, o toquinho de gente está falando! As palavras, uma ou outra no início, logo se multiplicam e, um pouco depois, vão se juntando, primeiro duas a duas e em seguida mais de duas. No final do terceiro ano a linguagem desabrochou, como uma flor.

Mas, por trás desse momento, um longo caminho já foi percorrido. Como diz o poeta, entre a flor e a raiz tem o tempo. Tempo que começou ainda antes do bebê nascer. Em torno do quarto mês de gestação, a audição começa a funcionar, colocando o bebê em contato com os barulhos do corpo materno e com os sons externos, filtrados pelo corpo da mãe. Recém nascido, o bebê reconhece a voz da mãe, que ele já estava acostumado a ouvir, e é capaz de reconhecer também características da língua. A audição é, assim, o primeiro sentido que nos liga ao nosso entorno, e é ele que nos permite perceber não só a voz e a fala das outras pessoas como a nossa própria.

O desenvolvimento de outros sistemas que vão participar da fala  também começa na vida pré-natal, ainda que eles só venham a funcionar efetivamente após o nascimento. Para falar, utilizamos estruturas do sistema respiratório e do sistema estomagnático, responsável pela nutrição, e por isso suas condições influenciam a fala. E fundamental é sistema neurológico, composto pelo cérebro e suas extensões, que comanda, coordena e controla todo comportamento.

A caminhada para o desabrochar da fala continua depois do nascimento, entre os cuidados do dia a dia que possibilitam o crescimento e o desenvolvimento do bebê. Para sobreviver o bebê depende de alguém que advinhe o que ele quer ou precisa, papel dos familiares, sintonizados a ele e sua rotina. O bebê é um ser de conversa, gosta que conversem com ele, traduzindo seus desejos e sentimentos, suas percepções. Nos preparativos para o banho ou a troca de fralda, por exemplo, se  acalma e colabora quando é tratado como parceiro ao se explicar o que acontece. Além disso, como mostram as pesquisas, para conversar com o bebê os adultos intuitivamente simplificam sua fala, acentuam a melodia e favorecem a percepção das  características mais importantes, o que facilita a compreensão da  linguagem.

No começo da vida, tudo que for favorável para o amadurecimento dos sistemas  neurológico, respiratório e digestivo estará preparando as condições  para o desenvolvimento da fala e da linguagem. Por isso é importante estar atento para as oportunidades que estão presentes no dia a dia para o desenvolvimento da sucção, da mastigação e da movimentação espontânea do bebê. Uma dessas oportunidades é a amamentação, que condiciona o exercício da musculatura da cavidade oral e a coordenação respiratória. Além disso a amamentação fortalece a relação entre a mãe e o bebê, sendo ocasião privilegiada de aproximação e de comunicação. O bebê já nasce sabendo sugar e sua boca é a área mais sensível, seu principal instrumento para  conhecer o mundo. Por isso, ele suga e lambe seus dedos e mãos, e mais tarde os objetos. A boca abre o caminho para a exploração do mundo pelo olhar, pelas mãos e pelo deslocamento.

Quando parece que não faz nada, um bebê faz muita coisa. Observar com atenção um bebê brincando com seu corpo nos mostra como ele fica atento, repete os movimentos até ter domínio sobre eles e segue introduzindo modificações. Para conhecer o mundo ao seu redor e se conhecer, o bebê precisa de tempo e tranquilidade. Excesso de objetos, excesso de estímulos só vão interferir com sua atenção, distanciando-o de suas intenções e o cansando. Respeitar o tempo que o bebê precisa para suas experiências é um grande investimento que os pais fazem, pois a organização da arquitetura cerebral depende delas. A movimentação e a experimentação do bebê promove o desenvolvimento de sistema nervoso central, organizando e aprimorando movimentos, assim como construindo padrões de comportamento que serão suportes para o desenvolvimento de outros.

O desenvolvimento da capacidade de deslocamento começa pelo virar para um lado e para o outro, passa pelo rastejar e pelo engatinhar antes do andar, e é importante para a exploração do mundo e de si mesmo. Para se movimentar à vontade, exercendo a crescente autonomia, o bebê precisa de espaço adequado e roupas folgadas. Ao mesmo tempo que se movimenta, o bebê está desenvolvendo equilíbrio, cognição, e autoconfiança. Essa condição vai também influenciar o desenvolvimento da linguagem e na aprendizagem. Por isso é importante que ele possa seguir seu próprio ritmo de desenvolvimento, e não se movimentar para atender o desejo alheio.

Os bebês são seres conversadores desde cedo. Têm interesse especial pelo rosto do adulto, mantendo a atenção no olhar, no sorriso e na fala. A disposição de escuta, o tempo que se dá para a resposta verbal e a não verbal, é o espaço aberto para o dialógo, do qual o bebê vai participar cada vez mais ativamente.  A atenção dirigida aos objetos e a participação nas atividades conjuntas constituem contexto natural para a comunicação. Com o passar do tempo, o diálogo evolui, o vocabulário e a extensão das frases se ampliam. Nesse processo, memória e imaginação se enriquecem com as lembranças, brincadeiras e histórias.

Através da brincadeira a criança  experimenta e explora o mundo, amadurecendo e exercitando  diferentes habilidades, entre as quais as da fala e da linguagem. As crianças começam a brincar explorando o próprio corpo. Ainda novinhos, brincam com a boca e a voz: gorgeiam, fazem barulhos com os lábios e com a língua, cantarolam, produzindo muitos sons e explorando possibilidades. Um pouco mais tarde passam a balbuciar e experimentar sequências de sons, e os sons se restringem aos da língua que escutam. Assim, brincando, se exercitam para falar. Outras brincadeiras, como de esconder e mostrar o rosto, contribuem para a comunicação. E outras contribuem para a representação: objetos, bichos, pessoas e acontecimentos ganham vida na brincadeiras. Oferecendo oportunidade para a criança representar e dar vida a imaginação, se relacionar com os demais e praticar papéis sociais, reviver experiências e construir enredos, as brincadeiras constituem um tipo de linguagem e se ligam diretamente ao desenvolvimento da linguagem verbal. O desenho, outra linguagem da criança, compartilha aspectos do brincar e também se relaciona com a linguagem verbal, inclusive porque como representação gráfica precede a escrita.   Brincar e desenhar são formas da criança se expressar, são linguagens da criança, e por isso importantes tanto para o desenvolvimento da linguagem como para o amadurecimento emocional.

Como uma flor, a linguagem se desenvolve como uma parte da planta toda. Assim também a fala se desenvolve conjuntamente. De um lado a função de comunicação, o uso e a linguagem no relacionamento. De outro, a de representação, juntamente com a brincadeira e o desenho. Ter em mente que a linguagem verbal faz parte desse grande conjunto, abre espaço para os familiares reconhecerem e aproveitarem as oportunidades do cotidiano para apoiarem seu desenvolvimento.

Quando estudamos o desenvolvimento da criança, constatamos que seus diferentes aspectos estão interligados. Eles só podem ser separados para fins de pesquisa e análise. Mas para compreender a dinâmica de um aspecto, não podemos esquecer a integridade. E, ao refletir sobre o papel da família no desenvolvimento da linguagem da criança, vale o ditado: Para uma árvore crescer não se puxa pelas folhas.

Publicado na Revista Escola de Pais do Brasil – Seccional da Grande Florianópolis nr. 7, 2017, p. 18.

 Lais de Toledo Krucken Pereira – Fonoaudióloga, Especialista de Linguagem. Mestre e Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano. Mãe de Lia, Sergio e Marcos.

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